Desde então, houve uma evolução legal. Mas sabendo que a lei muda mais depressa do que a cultura, será que a mentalidade da sociedade portuguesa evoluiu? Não apenas pessoas transexuais, mas toda a comunidade LGBTQIA +, será realmente tratada de forma digna? Atualmente, acredita-se que existe uma maior “aceitação”, contudo, escapam frases e atitudes que contradizem este avanço: “Estás confuso”, “És assim por algo que te aconteceu” ou “Ainda não encontraste a pessoa certa”. Está tudo bem em ser-se “diferente”… desde que a diferença não bata à nossa porta, desde que seja invisível. A diferença é aceite quando não é percetível. Quando o é, rejeita-se. ”Tenho amigos gays, mas acho que não é preciso exibir”. Mas o que é “exibir”? Dar as mãos é exibir? Amar é exibir? Existir é exibir?

A diferença é aceite quando não é percetível.”

Grande parte da população portuguesa é cristã. “Amar o próximo como a si mesmo” é um princípio bíblico fundamental. Então, se amar alguém é pecado, porque “Deus não te fez com esse propósito”, como é que discriminar não o é?

Esta cegueira moral não é um fenómeno isolado. Enquanto nos perdemos em debates sobre a quem é permitido amar, ignoramos os males que realmente importam. Afinal, o que está a acontecer no mundo?

Estamos perante instabilidade geopolítica, crimes de guerra e violações sistemáticas dos direitos humanos. É sabido que há quem acumule riqueza na ordem dos milhares de milhões e que, só de respirar, receba dinheiro, enquanto outros morrem à fome ou de doenças facilmente tratáveis. É certo que o esforço deve ser recompensado, mas estas pessoas também não se esforçam? Com tantas imperfeições no mundo, a identidade e a sexualidade de cada um continuam a ser tratadas como problemas centrais da sociedade. Em vez de se discutir a pobreza, a inflação, a corrupção, os discursos de ódio, preferimos encontrar um culpado para o que se está a passar no mundo, muitas vezes inocente: imigrantes, religiosos, homossexuais, pessoas sem-abrigo. 

Se ver desenhos animados que abordam de alguma forma a homossexualidade ou a transexualidade corrompe as mentes das crianças, mas ouvir políticos e líderes mundiais dizerem frases como “Transgénero é uma invenção da esquerda radical”, “seria incapaz de amar um filho homossexual” ou “piores do que porcos e cães”, não o fazem, então, isso diz bastante sobre a nossa sociedade.  

Sempre que culpamos e discriminamos minorias em vez de encarar os problemas reais, o que revela isso sobre nós? Cobardia? No fim das contas, parece que só queremos realmente saber quando chega a nossa vez.