Opinião de Martim Pereira
Artigo exclusivo do site, publicado em Maio de 2025
O paradigma político do nosso país está a passar por mudanças drásticas. Valores que considerávamos incontestáveis estão agora sob julgamento. Será o ser humano naturalmente democrático, ou será a democracia uma construção social?
A democracia é, em teoria, algo do qual ninguém prescinde. Especialmente num país como o nosso, uma democracia relativamente recente, que tentou usar o sistema de ensino como forma de incutir sensibilidade política nas pessoas. Até ao secundário, todos os alunos ouvem falar sobre as ditaduras fascistas do século XX, incluindo a portuguesa. No secundário, as disciplinas transversais a todas as áreas incluem Filosofia, que procura oferecer ferramentas para pensar de forma crítica e identificar argumentos falaciosos, e Português que, além de desenvolver competências de expressão, é também uma forma de transmitir cultura e apreço pela arte.
O Estado português tentou salvaguardar, através da educação, que nenhum jovem atingisse a maioridade vulnerável ao populismo ou que encarasse a democracia como um dado adquirido. Uma tentativa muito nobre, na minha opinião. Olhando para a realidade atual do país, muitos poderão concluir que o Estado falhou nessa missão. Eu discordo. Em cinquenta anos, Portugal cresceu exponencialmente. Em 1998, havia mais analfabetos do que licenciados. Hoje, são poucas as pessoas que não concluem o ensino superior. Há trinta anos, emigrava-se para construir obras públicas na Suíça; atualmente, emigra-se para as projetar.
No entanto, este progresso não é homogéneo. Apesar de socialista na sua génese, Portugal não escapou à polarização regional, principalmente quando o litoral apresenta uma vantagem geográfica tão significativa quando comparado ao interior.
Há quem sinta que o Estado social nada lhes ofereceu, que vivem na cauda da sociedade, esquecidas. Já a direita, mostra pouco interesse em ir além daquilo que governos assumidamente socialistas têm feito para apoiar essas regiões menos desenvolvidas. Isto, aliado ao historial de falta de seriedade da classe política e mediocridade, que muitos eleitores de círculos pequenos como eu, somos obrigados a escolher, e à sucessão de eleições cujas razões muitos nem compreendem, alimenta uma desconfiança generalizada.
Assim, é natural que, em zonas desenvolvidas, prosperem partidos ideológicos como o Livre ou a Iniciativa Liberal, e que, nas zonas esquecidas, surjam partidos populistas e sobretudo apolíticos, como o Chega. Se perguntássemos a muitos desses eleitores se prescindem da democracia, poucos responderiam que sim. Diriam apenas que a democracia que conhecem não os levou longe, recusando-se a imaginar se uma alternativa poderia ser melhor. Porque é disto que se trata: um voto de protesto. Não ignoro que exista também um voto xenófobo ou até mesmo um voto autocrata – voltarei a isso mais tarde – mas considero que, na maior parte dos casos, é mesmo um voto de protesto.
Entre a suposta bolha intelectual, parece existir alguma dificuldade em compreender esta realidade. Parecem querer criar uma camada de separação entre si e estes “brutos” antidemocráticos. Pondo as coisas nestes termos: para mim, um racista é alguém que considera que outra pessoa tem certos comportamentos ou características que são intrínsecos a um grupo étnico. Ora, se aplicarmos o mesmo raciocínio à política: “Estas pessoas votam no partido Chega porque são reacionárias e não conseguem compactuar com a democracia ou com o progresso, e isso é uma característica sua”. Esta ideia ignora o contexto de vida dessas pessoas, bem como a quantidade de propaganda a que foram expostas, e reduz tudo a um juízo moral absoluto. Se quem faz este tipo de julgamento sobre minorias étnicas é, e bem, considerado um racista, então quem faz isso com o “povo ignorante” é, por definição, elitista.
Até que ponto é que este tipo de pensamento é verdadeiramente democrático? Considerar que sabem melhor o que o povo português precisa do que o próprio é, irrevogavelmente, um pensamento de ditador. Uma ditadura de empatia é, na minha opinião, muito mais aprazível do que outras, mas não consigo deixar de apontar que não deixa de ser uma ditadura. E será que, no fundo, as pessoas não estão naturalmente mais inclinadas para ela?
Pensemos no seguinte: a família, a base das nossas relações interpessoais, não é uma democracia. Os nossos pais impõem-nos aquilo que julgam ser melhor, independentemente da nossa opinião. Detêm neles o poder de julgar e coagir e têm razão em fazê-lo, sem dúvida. Mas, no entender de qualquer ditador, é precisamente isso que fazem: impor a sua conceção de “correto” a um povo que consideram frágil, como uma criança. Isto é a base do pensamento salazarista.
“Pensemos no seguinte: a família, a base das nossas relações interpessoais, não é uma democracia.“
Além disso, a ditadura familiar também molda a nossa imagem de “líder”. Na maior parte das casas em Portugal, quando o pai levanta a voz, acabou a conversa. Quando a mãe levanta a voz, está só a ter um episódio, voltando depois a assumir a normalidade, sem grandes mudanças. Assim, normaliza-se que um homem que levanta a voz, que fala de forma colérica, está a ser assertivo, forte, mas uma mulher que levanta a voz está a ser histérica, chata. Tomemos líderes políticos como Mariana Mortágua e André Ventura: ambos assumem um estilo discursivo hostil, mas são percebidos de forma muito diferente. Um é visto como assertivo, a outra como dramática.
Todos nós nos tornamos adultos um pouco por acaso e carregamos inseguranças face ao mundo que nos rodeia. A exaltação de um líder como salvador vai sempre cativar várias pessoas, principalmente se esse líder livrar as pessoas do ónus de decidirem o próprio futuro. Para muitos, a democracia tem-se tornado um fardo. Se pudessem, deixariam que alguém cuidasse de certos aspetos da sua vida, incluindo a administração do país, para poderem focar-se no que lhes dá prazer.
Na minha concessão, a saúde da democracia dependerá das pessoas que hoje assistem incrédulas aos resultados eleitorais na televisão. Estas pessoas, com ideias e convicções, devem voltar a trazer a campanha para as suas próprias mãos. Criem pontes entre o povo e os partidos, apresentem propostas. Porque, se abdicarmos do voto destas pessoas, seguramente outros farão tudo para tê-lo. Temos de deixar de falar do povo português como se ele não estivesse presente na sala.
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