Wicked
Wicked
Jon M. Chu · 2024
Crítica de Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Março de 2025
Wicked, do realizador Jon M. Chu, traz o amado musical da Broadway para os grandes ecrãs, com Cynthia Erivo no papel de Elphaba e Ariana Grande como Glinda. Como dedicada fã de musicais, que, sinceramente, nunca se sentiu muito cativada pela estrada dos tijolos amarelos, saí do cinema com as minhas expectativas ultrapassadas e completamente apanhada por este universo.
Este musical reimagina o mundo de Oz, oferecendo uma perspetiva nova sobre a tão conhecida história de O Feiticeiro de Oz. Neste caso, em vez de se focar na jornada de Dorothy, a história explora as origens e as vidas entrelaçadas de Elphaba, a Bruxa Má do Oeste, e de Glinda, a Boa Bruxa. O filme mostra como estas duas personagens, inicialmente opostas, se juntam contra os problemas sociais e políticos de Oz. A história é uma de amor e de autodescoberta, que procura resolver o dilema do que é ser “wicked” (malvado).
Um dos fortes de Wicked é a escolha das atrizes principais – Erivo e Grande entregam interpretações absolutamente impecáveis como Elphaba e Glinda. Elas não se limitaram a interpretar estas personagens, elas transformaram-se nelas. As suas capacidades vocais, como era já de esperar, são fenomenais – a voz forte de Cynthia em “The Wizard and I” e em “Defying Gravity” arrepiam qualquer pessoa e a profundidade emocional de Ariana em “No One Mourns The Wicked” e o seu timing cómico em “Popular” são destaques para mim. O que realmente as diferencia de outras Elphabas e Glindas é a forma como captaram as camadas subtis das personagens. Elphaba luta constantemente pela justiça social, mas também anseia por um pouco de normalidade, e Glinda é muito, muito mais do que uma rapariga popular e superficial. Para além disso, a química entre as duas é impressionante e ambas fizeram jus à amizade das protagonistas – o verdadeiro coração desta história.
O elenco secundário também merece os seus aplausos. Michelle Yeoh, de Tudo, Em Todo o Lado, Ao Mesmo Tempo, dá-nos uma Madame Morrible soberba, apesar de os seus poucos versos ficarem um pouco aquém, Jeff Goldblum foi a escolha perfeita para o Feiticeiro, e Ethan Slater e Bowen Yang foram surpresas agradáveis. Jonathan Bailey é um Fiyero absolutamente cativante, mas a sua diferença de idade em relação ao personagem é notável e não me permitiu aproveitar tanto as suas cenas.
O design de produção é simplesmente espetacular, tanto que venceu um Óscar. Há que aplaudir a escolha da equipa do filme de construir cenários verdadeiros sempre que possível, de modo a minimizar o uso de efeitos visuais, tendo criado um mundo imersivo que parece mesmo tangível. A Cidade das Esmeraldas e a universidade brilham com vida e até cenários mais pequenos, como a discoteca de Ozdust, não são poupados a detalhes. Cada escolha de figurino e de maquilhagem parece ter sido cuidadosamente pensada para contar a história. Tenho também de destacar o vestido usado por Glinda em Ozdust, o chapéu de bruxa da Elphaba e a caracterização inteira de Morrible, cujo guarda-roupa faz a personagem.
Em relação à música, não há muito de novo a dizer. As composições de Stephen Schwartz são praticamente uma religião no mundo do teatro musical e este filme trata-as com a reverência que merecem. Desde números maiores como “No One Mourns the Wicked” e “One Short Day” a momentos mais introspectivos (“I’m Not That Girl”), Schwartz aperfeiçoou a narrativa musical (em 2004). Ainda, a voz de Cynthia é, como já mencionado, uma força da natureza, e Ariana assegura a sua reputação de uma das melhores vocalistas da sua geração. Mesmo entrando no filme a conhecer muito bem o soundtrack, fiquei impressionada com o quão novas elas soaram com as suas vozes.
Ainda assim, há que referir uma certa desilusão com algumas escolhas do diretor. Tendo o filme quase três horas e muito, muito filler, o seu pacing é definitivamente esquisito e as cenas que foram mantidas (face às apagadas) revelam alguma falta de direção na história. Tendo o musical nos palcos o mesmo exato problema, percebo uma oportunidade desperdiçada de ter aprofundado Wicked nas partes certas. Para além disso, o trabalho de som também deixa a desejar, especialmente quando o cast principal se disponibilizou para cantar ao vivo.
Para os fãs de O Feiticeiro de Oz, o filme está repleto de referências – desde os sapatos da irmã de Elphaba, aos movimentos de dança de Boq e Fiyero, até à estrada dos tijolos amarelos, todas inseridas na narrativa em harmonia, enriquecendo o mundo de Oz sem ofuscar a identidade única de Wicked. Sem revelar demasiado, o cameo de Idina Menzel e de Kristin Chenoweth, as atrizes originais do musical, foi feito lindamente (uma obra-prima do fan service!) e é uma homenagem correta às origens do filme. Cada elemento, desde as interpretações e visuais até à música e narrativa, revela um verdadeiro esforço de amor, cuidado e respeito pelo trabalho original.
Wicked é, desta forma, para todos. As crianças ficarão encantadas com o maximalismo do espetáculo e qualquer pessoa se consegue conectar com as mensagens mais profundas da história. Este filme traz-nos uma nota intemporal sobre amizade, auto aceitação e sobre desafiar as expectativas societais. É aquele tipo de filme que merece ser visto na tela grande, pois é uma experiência que desafia a gravidade, faz rir, chorar e de pôr o álbum do soundtrack a dar no caminho para casa.