Já Não Pertenço A Este Mundo
I Don’t Feel At Home In This World Anymore
Macon Blair · 2017
Crítica de Sofia Condez
Review exclusiva do site, publicada em Janeiro de 2026
“Eu só quero que as pessoas não sejam assholes”
Lançado em 2017, I Don’t Feel At Home In This World Anymore surgiu-me como um daqueles achados indie escondidos no vasto portfólio da Netflix. O filme, realizado por Macon Blair, é a sua primeira experiência na realização, mas aparenta uma segurança surpreendente de estilo e de tom. Blair, reconhecido sobretudo como Gabe em Green Room, propôs o projeto à plataforma de streaming, e conseguiu total liberdade criativa para o executar, algo extremamente raro. Na incerteza de se seria o seu último trabalho como realizador, decidiu apostar tudo, e procurou os nomes que saberia que fariam jus ao filme. O resultado foi algo inteligente, áspero, inesperadamente divertido, e estranhamente terno. “Já Não Pertenço A Este Mundo” é uma comédia negra/filme de crime brilhante.
Acompanhamos, assim, a história de Ruth (Melanie Lynskey), cuja casa é assaltada. Perante a incapacidade das autoridades em ajudá-la, ela recruta um dos seus vizinhos, Tony (Elijah Wood), para investigar o crime e recuperar os seus pertences. No fundo, o filme nem sequer é sobre o assalto, sendo esse apenas o ponto de rutura de uma mulher que vive num gotejar constante de pequenas indignidades – rudezas, egoísmo alheio, faltas de consideração – contadas de uma forma magistral nos primeiros dez minutos. Quando a sua casa é invadida, Ruth deixa de sentir segurança até na própria cama, e o problema deixa de ser os objetos desaparecidos, passando a ser recuperar um sentido de justiça e de dignidade num mundo que lhe parece cada vez mais indiferente. O filme usa esta premissa sombriamente cómica e catártica para examinar o individualismo crescente do ser humano.
Em termos de elenco, importa elogiar Blair e Mark Bennet (o diretor de casting). Melanie Lynskey é o coração do filme, e serve-nos, de uma forma linda, uma Ruth de raiva silenciosa, cansaço crónico, e desejo profundo de que as pessoas sejam simplesmente decentes. Como sua contraparte, temos nem mais nem menos que Elijah Wood, cuja presença em qualquer filme me garante algo interessante, mesmo que não seja francamente bom. Aqui, ele mergulha naquele personagem excêntrico, ligeiramente estranho que tem dominado os seus papéis mais recentes, e faz um trabalho esplêndido tanto a dar vida a Tony como a complementar o holofote de Lynskey.
De facto, para mim, o que realmente eleva o filme é a química entre Ruth e Tony, bem conseguida tanto na escrita como nas atuações. Praticamente nos seus dez primeiros minutos, Tony afirma “não me incomodaste, isto afeta-nos a todos” sobre o roubo, e isto funciona como a tese emocional da dinâmica entre os dois. A sua excentricidade e insegurança escondida não deveriam resultar com a frustração de Ruth, mas resultam. A protagonista encontra, aqui, alguém disposto a ajudá-la, mesmo quando a investigação os leva a pontos caóticos.
O filme é difícil de encaixar num genre. Há momentos cómicos, em que me ri alto, mas também uma melancolia profunda, sendo, ao mesmo tempo, um filme de investigação do tipo Holmes-Watson. Tudo isto não deveria funcionar em conjunto, mas funciona. A escrita de Blair é brilhante, e a sua comédia nunca dilui a carga emocional. O terceiro ato, onde, na minha opinião, tantos filmes indie acabam por falhar, acerta em cheio, e sabe abrandar o filme quando necessário. Avisando sobre spoilers no fim deste parágrafo, eu não costumo ser particularmente apreciadora de um filme em que personagens cometem más ações e saem sem qualquer castigo, como a maioria dos Oceans. Mas, neste, aprecio a escolha de permitir a Ruth e a Tony uma vida calma, sem repercussões, o que faz total sentido para os arcos narrativos dos personagens.
O que realmente tenho de destacar é o comentário feito sobre o mundo em que vivemos. Por trás de todo o absurdismo e comédia negra, há um sentimento muito real de exaustão com a sociedade (não num sentido “we live in a society” do JD de Heathers, mas num aspeto mais sincero). O cansaço de Ruth é quase cultural, e o filme captura uma sensação muito contemporânea de desconexão – a ideia de que todos vivemos fechados nas nossas próprias bolhas, demasiado zangados ou entorpecidos para pensarmos em mais alguém para além de nós próprios. Sobretudo neste momento, em que a empatia parece escassa e o cinismo fácil, o filme defende a solidariedade e a conexão humana. A frase de Ruth, “Eu só quero que as pessoas não sejam assholes”, é o ponto central da narrativa e indica-nos diretamente a motivação por trás de todas as suas ações.
Assim, I Don’t Feel At Home In This World Anymore é um dos melhores filmes que vi recentemente. No fim, é um filme que realmente cumpre o que se propõe a fazer. Tem as suas falhas, apesar de poucas, mas é profundamente humano. Gosto muito da forma como pega num sentimento tão profundo de desconexão da vida real e o transforma numa história absolutamente ridícula e desproporcional ao facto.