Doze Homens em Fúria (1957)
12 Angry Men
Sidney Lumet · 1957
Crítica de Martim Pereira
Review exclusiva do site, publicada em Setembro de 2025
Enquanto espectador, sempre tive grande interesse por produções que fazem muito com pouco. Se há momento em que eu padeço do “sonho americano”, é quando me toca apreciar cultura popular. Há algo sobre o “starving artist” que me faz valorizar ainda mais a sua obra. Mesmo assim, há um meio termo que deve ser respeitado. Por mais que o foco principal de um filme não seja agradar a todos, isso não significa que deva alienar todo o público, e que exista como uma espécie de piada interna que os mais eruditos estão condenados a fingir que percebem.
No panorama atual, a discrepância em orçamento entre os grandes “blockbusters”, que exibem os seus gráficos feitos a computador, e, os filmes de autor, que, antagonicamente, exibem a sua falta de efeitos especiais, faz-nos pensar no espectro dos espectadores. Há os que consomem todas as grandes produções, e os que medem o valor de um filme com base no quanto ele se distingue dessas grandes produções. Os dois estão a empregar muito pouco pensamento crítico. Quando um filme retrata situações reais, com técnicas de câmara engenhosas, e tenta chegar ao máximo de pessoas possível, tem a possibilidade de trazer ao ecrã um clássico, que é clássico porque não sacrifica entretenimento só para criar a ilusão de que é mais cogitativo. “12 Angry Men” é o expoente máximo disso mesmo. Com um orçamento de 350 000 dólares e com apenas uma câmara, o desafio para o realizador Sidney Lumet é o de criar um drama de tribunal contando apenas atuações e trabalho de câmara.
Dois detalhes importantes sobre este filme: as cenas que têm o mesmo “set-up” de câmara foram gravadas todas ao mesmo tempo. Por exemplo, fizeram os wide-shots todos seguidos em vez de gravarem o filme conforme está escrito no guião. E, o filme passa-se quase todo na mesma sala, por isso, era benéfico à produção que a maior parte das filmagens a apanhasse na sua totalidade, para que não tivessem de mudar o “set-up” sempre que uma personagem se tivesse de insurgir. Ao princípio, pode parecer uma limitação, mas passou a ser um trunfo. Os “wide-shots” dão espaço aos atores para representarem, libertando-lhes substancialmente a linguagem corporal. Este filme conta com atuações extremamente expressivas exatamente por isso. Outro ponto muito forte, e que vem aliar-se às atuações notáveis, é o guião excelente. A discussão flui de forma natural. Eles interrompem-se, exaltam-se, contradizem-se, nunca traindo a sua personagem. Personagens estas que são estabelecidas logo de início muito rapidamente. A roupa que usam, a forma como se sentam e como se expressam dá-nos logo uma impressão muito forte de qual será a sua postura durante a ponderação de culpa. A verdadeira astúcia do guião vem da forma como a sagacidade dos debatedores mais capazes é trazida ao de cima e o seu contraste com os mais distraídos. Os sagazes, sejam eles dos cínicos ou dos crentes na inocência do réu, nunca desperdiçam palavras, lembram-se sempre do que foi dito pelos seus opositores e trazem de volta à conversa quando lhes é conveniente, culminando numa batalha intelectual que nos prende ao ecrã.
O guião e as atuações alicerçam o enredo de tal forma que um caso com muitas pontas soltas passa a ser um dos dramas mais tensos da história do cinema. Olhando para o caso em questão. Os agentes da polícia interrogaram o filho da vítima quando este descobriu o cadáver e consideraram-no suspeito por estar ansioso. O procurador teve como principais testemunhas um homem geriátrico que disse ter ouvido o crime e uma mulher com astigmatismo que o disse ter visto. Este não é, de todo, um caso à prova de bala, não pode ser apresentado na sua totalidade, visto que a narrativa não seria interessante. É a forma como a informação é selecionada, e entregue vagarosamente, que nos intriga, e é a agitação das personagens que nos faz recear a sua reação conforme vão desvendando o que verdadeiramente aconteceu.
É possível apontar que alguns jurados apenas servem para avançar o enredo, que, mesmo as personagens mais desenvolvidas, acabam só por ser arquétipos do mal ou do bem. Eu diria que o objetivo do filme nunca foi criar personagens com personalidades que sobressaiam. Era, exatamente, criar representantes do cinismo e da empatia, dar-lhes algum contexto e características que justificassem porque é que agem assim, e fazê-los chocar.
“12 angry men” é um dos filmes mais memoráveis que já vi, conta com grandes atuações, cenas concebidas na perfeição e “close-ups” tão épicos como desconcertantes. É um bom filme para aqueles que têm interesse no cinema clássico, mas ainda não sabem bem por onde começar.