2001: Odisseia no Espaço
“2001: A Space Odyssey
Stanley Kubrick · 1968
Crítica de Gonçalo Ferrinho
Review exclusiva do site, publicada em Fevereiro de 2026

A ideia de um sci-fi sempre, sempre se modulou pela expectativa de evolução. Stanley Kubrick demonstra em “2001: A Space Odyssey” que tal, mesmo ocorrendo em sentido lato, pode ser tão vasta quanto o próprio espaço.
O filme começa com o capítulo “Dawn of Men”, mostrando-nos a era dos primatas. Os dias são violentos, resumindo a vida numa luta pela sobrevivência, onde a comida escasseia e os perigos rondam de perto. No entanto, numa manhã, estes entram em contato com um objeto misterioso, oferecendo-lhes, involuntariamente, o acesso ao conhecimento. Como resultado, os animais aprendem a defenderem-se, e sobretudo a atacar. Tal concede-lhes poder, que, inicialmente sendo em prol da subsistência, rapidamente catapulta para uma forma de autoridade.
No capítulo seguinte, damos um salto temporal de vários milhões de anos, onde o Homem procura conquistar o espaço, seduzido pela ideia de poder. Conhecemos Heywood Floyd, um cientista enviado para resolver certos problemas de comunicação entre a base e uma cratera lunar. Assim, em busca de respostas, ruma à Lua para dissipar as dúvidas sobre a existência de um objeto místico, enterrado há mais de 4 milhões de anos. Após aterrar, observa petrificado “o objeto” e, assim como os seus parentes primatas, sucumbe à curiosidade, tocando nele. Rapidamente é emitido um sinal ruidoso e insuportável, não deixando rasto do seu propósito.
Por fim, acompanhamos a viagem de David Bowman (Keir Dullea) e Frank Poole (Gary Lockwood). Estes, acompanhados pela inteligência artificial HAL 9000, detentora do funcionamento da nave e dos tripulantes em “estado de hibernação”, deslocam-se até Júpiter para tentar obter respostas sobre o sinal emitido. No entanto, após um erro inesperado de HAL, Dave e a inteligência artificial entram em confronto pelo controlo da nave, desencadeando consequências catastróficas para a tripulação e para o futuro da humanidade.
Como tal, HAl 9000, uma AI de “total fiabilidade”, acaba por cometer o erro mais humano: falhar. A sua reputação de infalível, revela-se a seu desfavor e cria o sentimento de insegurança em toda a tripulação. Assim, face ao risco de ser desligada, toma as precauções necessárias para levar a cabo o seu propósito. HAL, seguindo piamente as instruções fornecidas pelos seus criadores, implora para que Dave o poupe, sucumbido nos seus últimos momentos, ao desespero pela sobrevivência.
Com apenas 88 minutos de diálogo, o filme vive bastante do recurso aos seus visuais fascinantes, ricos em simbolismos e paralelismos com os elementos do próprio. O “objeto”, sendo o único elemento presente nas três fases do filme, apresenta-se como um recurso de evolução, presenteado por “seres superiores”. No entanto, o ser humano ao pensar na evolução como “ser maior”, cai no lapso da repetibilidade. A busca pela autoridade demonstra-se tão ou mais prejudicial do que a falta de conhecimento, levando à destruição benevolente do ser.
A tecnologia, outrora coadjuvante, revela-se protagonista na subsistência do humano, expondo as falhas evolutivas que este possui, desde a sua forma mais simplória. Assim, Hal, não é um passo trágico, mas sim força motriz no entendimento dessa necessidade de superação.
Nos últimos momentos do filme, enquanto transcendemos uma nova dimensão, acompanhamos as mudanças físicas de Dave, até que atinge o pináculo da existência, evoluindo novamente o conceito de ser. Como tal, e num último momento, este novo ser olha diretamente para o espectador, demonstrando que a verdadeira evolução encontra-se em cada um.
Um filme, na sua generalidade, não merece, necessariamente o elogio de ser “arte”. Apenas alguns conseguem “desassossegar” o espectador, e só uma ínfima parte deixa um impacto duradouro na vida deste. “2001: Odisseia no Espaço”, comove, incomoda e provoca. Invoca pensamento e modifica. Transforma. No fundo, é arte.