A Lojinha dos Horrores
Little Shop of Horrors
Frank Oz · 1986
Crítica de Sofia Condez
Review exclusiva do site, publicada em Outubro de 2025
No vigésimo terceiro dia do mês de setembro, no ano inicial de uma década não muito anterior à nossa, a raça humana deparou-se de repente com uma ameaça mortal à sua própria existência. E esse inimigo aterrorizante emergiu como tais inimigos costumam fazer, nos lugares que aparentam mais inocentes e improváveis…” — Prólogo, Little Shop of Horrors.
Dirigido por Frank Oz, o filme é baseado no musical off-Broadway com o mesmo nome, que, por sua vez, é inspirado no filme homónimo de 1960, de Roger Corman. Seguindo esta linha, pela piada das inspirações, o original de Corman terá tido origem na short story “Green Thoughts”, de John Collier, que foi influenciada por “The Reluctant Orchid”, de Arthur C. Clarke, que, por sua vez, se baseou fortemente em “The Flowering of the Strange Orchid”, escrito em 1905 por HG Wells.
Nesta história, que já percebemos ter sido tantas vezes contada, conhecemos Seymour Krelborn (interpretado por Rick Moranis, estrela “nerd” dos anos 80), um órfão tímido e desajeitado que trabalha na florista do Sr. Mushnik (Vincent Gardenia), algures no bairro miserável de Skid Row. O nosso protagonista, tal como todos os outros implicados habitantes deste bairro, sonha com uma forma de “bid the gutter farewell and get outta here” (tradução: “dizer adeus à sarjeta e sair daqui”).
Um dia, Seymour compra uma planta exótica por 1,95 dólares a um vendedor chinês, sem imaginar que toda a sua vida iria mudar. A planta, batizada “Audrey II”, em homenagem a Audrey (Ellen Greene), que também trabalha na florista e por quem Seymour está completa e secretamente apaixonado, não é apenas rara: é carnívora, e o seu apetite só é possível de saciar com sangue humano.
À medida que Audrey II cresce, também aumenta o sucesso de Seymour e da loja. De empregado submisso, passa a estrela local, a loja floresce e a pobreza começa a desvanecer-se. No entanto, o preço da fama é, aqui, literalmente pago em sangue, e, com a evolução da planta, Seymour vê-se forçado a fazer escolhas cada vez mais drásticas.
É aqui que este cult classic brilha. Apesar de ser um filme dos anos 80, baseado numa história ainda muito mais antiga, a analogia da natureza predatória do capitalismo, que toma forma de uma planta carnívora, é extremamente bem feita. Seymour começa como alguém alienado por ser “pobre” e “sem valor” e é levado demasiado longe pela possibilidade de uma vida melhor, em comunidade, a sacrifício de um pequeno preço (não querendo dar spoilers a história, paro por aqui)
Para mim, grande parte do charme do filme reside na música de Alan Menken e nas letras de Howard Ashman, dupla muito mais conhecida pelo seu trabalho na Disney, sendo responsável pelos soundtracks de “A Pequena Sereia”, “A Bela e o Monstro”, e “Aladino”. Em Little Shop, contudo, a energia é mais crua, mais irreverente. Temos influências do rock’n’roll dos anos 60, do doo-wop e do swing, que contrastam lindamente com os temas mais grotescos do filme. Claro que as músicas são anteriores ao filme, tendo surgido em 1982 com o musical de palco, mas é impossível não as mencionar. Um destaque especial é necessário para o trio de vocalistas femininas, que aparecem como personagens de fundo, mas que servem como narrador e consciência moral.
A um nível técnico, os efeitos práticos e a recusa no uso de CGI são espetaculares. Em especial, a coleção de marionetas que dão vida a Audrey II, cujas versões de grande escala eram operadas por uma equipa de 60 pessoas. Para mim, é aqui que assenta um dos principais argumentos para o filme não precisar de um remake moderno. A versão de Frank Oz evoca perfeitamente a magia de um musical de palco, enquanto consegue ser um filme completo.
Ao rever o filme para escrever esta crítica, tive uma surpresa:o final não tinha nada a ver com o que me lembrava! Aparentemente, antes de lançar o filme, Frank Oz passou-o por uma “test audience” que não gostou do final. Quase 40 anos depois, temos acesso tanto ao theatrical cut como ao director’s cut do filme, cujas cenas finais em tudo se opõem, ao ponto de afetarem a avaliação do filme. Assim, especifico: apesar de nada de mal haver com o final que passou nos cinemas em 1986, aquele que o realizador queria, e que partilha com as versões do musical em palco atualmente, é o que empurra o filme para 5 estrelas e o eleva completamente, na minha opinião, sendo esse que eu recomendo.
Claro, este filme está longe de ser um dos “típicos” do terror, mas, entre os seus temas mais perversos, a planta gigante que come pessoas e “horrores” no título, penso que entra na categoria. Little Shop of Horrors é uma alegoria vibrante sobre o preço do capitalismo, e, ao mesmo tempo, uma celebração do absurdo e um clássico do camp. Definitivamente não é um filme para toda a gente, mas recomendo-o a amantes de musicais, de comédia negra e do “fora da caixa”.