A Vida é Bela
A Vida é Bela
Roberto Benigni · 1997
Crítica de Martim Pereira
Review exclusiva do site, publicada em Julho de 2025
Na opinião de muitos, o melhor filme de sempre. Eu sou um desses muitos.
“A vida é bela” faz-nos espectadores da vida de Guido, um Italiano-Judeu que foge de Roma para Nápoles procurando fugir às milícias Mussolinistas crescentes na capital. Durante o seu percurso, conhece uma mulher, de nome Dora. Não trocam nomes, apenas nutrem interesse um pelo outro. Ela, pela excentricidade dele, e ele, pela genuinidade que ela emana em tempos de tanto ódio. Chegados a Nápoles, Guido começa a trabalhar como empregado de mesa no restaurante do hotel de seu tio, Eliseo. Nas cenas que se passam no restaurante, fica ainda mais clara a forma como Guido desarma as pessoas com o seu charme peculiar.
Durante o seu tempo em Nápoles cruza-se mais vezes com Dora, e descobre que ela dá aulas num colégio Mussolinista na cidade. Para além disso, descobre também que ela está para se casar com um outro professor do mesmo colégio. Ele, muito mais alinhado com o zeitgeist daquele tempo. Durante esta fase do filme, pequenos atos de vandalismo no restaurante mostram que a violência para com os judeus está a aumentar, preocupando Eliseo.
O grande desenvolvimento do primeiro ato dá-se quando Dora e o seu marido jantam com amigos e família no restaurante. Durante o jantar, Rodolfo, o marido de Dora, e os restantes professores têm conversas grotescas sobre teorias de raça, tópico que deixa Dora desconfortável. O marido puxa-a para conversas com pessoas que não lhe dizem nada, só para depois lhe dizer para se sentar quando já não lhe apetece falar. Estes comportamentos autoritários somados à ignorância que este mostra no seu discurso selvagem demonstram a sua radicalização. Comportamentos com que Dora não se identifica. Quando pensa na boa disposição e sensibilidade de Guido, Dora percebe que está a cometer um erro ao casar com Rodolfo. Quando o vê no restaurante, pede a Guido que a tire dali. Enquanto exploram a noite, a alegria e sentido de humor de Guido enamoram Dora, que percebe que é dessa paixão de viver e dessa curiosidade pelo mundo de que precisa. Fogem juntos, e abrem uma livraria na cidade. Mais um sinal do valor que Dora e Guido dão ao que era desprezado pelos fascistas. Têm um filho, Giosué, e constroem uma vida à volta daquela livraria. Isto leva-nos ao grande desfecho do filme. Tropas italianas fecham a livraria e ordenam que Guido, Eliseo e Giosué, os acompanhem. Os três entrar num comboio com destino aos campos de trabalho, ou seja, uma viagem apenas de ida. Dora entra também, apesar de não ser judia. Aquele comboio leva a sua vida toda com ele. O que era há dez minutos um romance lindíssimo passa a ser um drama horripilante, através de uma ameaça que sempre esteve lá, nós é que nos tínhamos esquecido dela, fixados na vida do casal. Melhor. Parte da razão por que a achávamos cativante era pela forma como viviam felizes em tempos sombrios, como não se conformavam pelo ódio que os rodeava, até que esse ódio literalmente lhes bate à porta e destrói tudo o que têm.
Já nos campos de trabalho, Guido está decidido em não deixar que os campos acabem com a inocência do seu filho. Com o seu engenho convence-o de que aquilo se trata apenas de um jogo. O último ato foca-se nessa tarefa hercúlea a que Guido se sujeita.
Se a vida é uma cornucópia de emoções, então este filme é a melhor interpretação que a vida já teve no grande ecrã. Faz rir como nenhuma outra comédia para depois enternecer como nenhum outro romance, e termina mais emotivo do que qualquer outro drama. Muito como Guido fazia aos clientes do restaurante, o filme desarma-nos, para depois nos atingir com o quão angustiante consegue ser.
Um judeu e uma caucasiana na Itália de Mussolini. “A vida é bela” é um romance shakespeariano onde a tragédia aconteceu mesmo.