Anatomia de Uma Queda
Anatomie d'une chute
Justine Triet · 2023
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em Outubro de 2026
“Anatomia de Uma Queda” (Anatomie d’une chute) é um daqueles filmes que consegue ser, ao mesmo tempo, um drama familiar devastador e um dos filmes de tribunal mais bem conseguidos dos últimos anos. A conquista da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Argumento Original não foi por acaso: a realizadora francesa Justine Triet e o seu coargumentista, Arthur Harari, construíram uma história extremamente inteligente, que se recusa a dar respostas fáceis ao público e prefere focar-se na complexidade das relações humanas.
A premissa arranca num chalé isolado nos Alpes franceses, onde Samuel (interpretado por Samuel Theis) morre após cair da janela do sótão. No local estavam apenas a sua esposa, Sandra, e o filho de ambos, Daniel, um rapaz de onze anos com deficiência visual. Como não há testemunhas diretas da queda, a investigação e a opinião pública dividem-se rapidamente: terá sido um acidente trágico, um suicídio motivado pela depressão ou um homicídio cometido pela própria mulher?
A partir do momento em que Sandra é levada a julgamento, o filme ganha uma força ainda maior. A justiça francesa tenta encaixar os factos numa narrativa simples e lógica de culpado ou inocente, mas o filme mostra como a vida real é infinitamente mais confusa do que isso, e não tão preto no branco, como o sistema de justiça tende a considerar. Em vez de se limitar a discutir marcas de sangue ou trajetórias de queda, a acusação começa a expor a intimidade do casal. Assim, o que passa a estar no banco dos réus são assuntos privados de família que parecem inadequados a um cenário tão público, como os ressentimentos acumulados ao longo dos anos, a divisão das tarefas da casa, a frustração profissional, a gestão do tempo e o impacto que um acidente antigo do filho teve na dinâmica familiar.
Para além do argumento impecável, outro grande motor do filme é a interpretação de Sandra Hüller. A atriz alemã faz um trabalho soberbo ao recusar a tentação de tornar a sua personagem agradável ou vitimizada só para ganhar a empatia do espectador. Sandra é uma figura pragmática, por vezes distante e frontal, o que a torna a suspeita perfeita para uma acusação que quer pintar uma imagem de frieza. A forma como a personagem navega entre o alemão, o inglês e o francês durante o julgamento sublinha ainda mais o seu sentimento de isolamento e a dificuldade em expressar a sua versão da história numa língua que não é a sua. Esta é, sem dúvida alguma, uma das melhores atuações da década, uma que fica na nossa cabeça depois de o filme acabar e que colocou esta atriz tão talentosa “no mapa”, de uma vez por todas!
Outro ponto fortíssimo é a atuação do jovem Milo Machado Graner no papel do filho. A sua prestação é incrivelmente madura e emotiva, sem nunca parecer forçada. É através de Daniel que nós, enquanto espectadores, nos podemos colocar no lugar de jurado, uma vez que nós, tal como ele, não temos a certeza da inocência de Sandra nem de como a morte de Samuel, de facto, sucedeu. Assim, acompanhamos a dúvida angustiante de ter de escolher em que versão da realidade acreditar, sabendo que o testemunho dele pode mudar para sempre o destino da mãe.
Mas nenhum destes aspetos (o argumento do filme e as fantásticas atuações principais), poderia ter culminado num filme tão estupendo sem a direção sóbria e subtil de Justine Triet. Não há músicas dramáticas a indicar o que devemos sentir nem efeitos clichés de mistério. A câmara limita-se a observar o julgamento e os momentos em casa com um tom quase documental, o que torna tudo muito mais real e envolvente. Uma das cenas mais marcantes é a reprodução em tribunal de uma gravação áudio de uma discussão do casal na véspera da morte de Samuel. É um momento de escrita excecional, onde percebemos a dor de duas pessoas que se amam, mas que chegaram a um ponto de rutura inevitável.
No fundo, “Anatomia de Uma Queda” não é sobre descobrir quem é o culpado, mas sim sobre a impossibilidade de conhecer a verdade absoluta na vida dos outros e de como o sistema jurídico pode transformar assuntos tão complexos em pontos superficiais que determinam se alguém é culpado ou não. O filme obriga o público a assumir a posição de jurado e a lidar com as suas próprias dúvidas até ao último segundo. É um filme inteligente, adulto e profundamente envolvente que merece mesmo ser visto!