Anora

Anora

Sean S. Baker · 2024

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Março de 2025

Como é que um filme com um orçamento relativamente baixo de seis milhões de dólares conquistou o afeto do público, dos críticos e levou para casa cinco das seis nomeações que tinha para os Óscars, incluindo as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Atriz Principal? Estamos claramente a falar de “Anora”, a comédia dramática realizada por Sean Baker e protagonizada por Mikey Madison.

A premissa do filme reconta a história de Cinderela de uma forma mais moderna e realista, questionando se, no mundo atual, um romance entre um “príncipe” rico e uma “donzela” resgatada de uma vida difícil pode de facto resultar em um “felizes para sempre” ou se, na verdade, o conto de fadas se desfaz antes mesmo da carroça se tornar uma abóbora. “Anora” coloca esse final perfeito em xeque ao explorar como as diferenças sociais entre o casal tornam a relação desequilibrada criando o sentimento de falta de poder de decisão numa das partes.

A trama acompanha a dançarina erótica Ani (como Anora prefere ser chamada) e Vanya, um jovem russo filho de um oligarca. Quando os dois se conhecem, rapidamente se envolvem em uma paixão intensa, tanto emocional quanto física (e definitivamente não recomendada para crianças). Durante pouco mais de duas semanas, eles vivem um sonho repleto de festas, carinhos e uma juventude despreocupada, culminando em um casamento impulsivo em Las Vegas. O verdadeiro desafio surge quando ambos têm que fazer Anora cair nas boas graças dos seus sogros e evitar que o que aconteceu em Vegas fique só em Vegas.

Valorizo muito um filme de drama que me consiga cativar, já que não é o meu género de seleção. Um dos fatores que tornam “Anora” especial é a variação constante de todo o tipo de emoções que o filme proporciona, especialmente o contraste entre a comédia e o romance, a tensão e a tristeza. O tipo de comédia utilizado não é revolucionário, mas distancia-se do que normalmente se vê em comédias dramáticas, trazendo um frescor à narrativa. 

Outro aspeto brilhante é a forma como o filme representa a passagem do tempo, no início, quando tudo parece um sonho, as semanas passam rapidamente e as cenas são curtas, no entanto, conforme os problemas surgem, o ritmo muda e os eventos começam a se desenrolar ao longo de um único dia, com cenas mais longas e detalhadas. Estes elementos prendem a atenção do espectador, o que faz as duas horas e vinte minutos de duração do filme parecerem dois minutos.

O ponto mais forte de “Anora” é, sem dúvida, os seus personagens e o desenvolvimento tanto individual quanto das suas interações. O mais curioso é que, apesar de serem arquétipos, o filme consegue aprofundá-los de forma inesperada. Em vez de tentar provar que as pessoas são diferentes do que imaginamos, “Anora” a sentir cria em nós empatia por esses personagens e convida-nos a refletir sobre os motivos por trás das suas ações. Não esperem ver uma trabalhadora do sexo que no fundo é delicada, porque o filme apresenta a beleza na forma como Ani é impetuosa e arrebatadora, algo que Mikey Madison transmite com uma atuação que exibe todo o tipo de sentimentos e torna a personagem tão real e humana. Os personagens secundários também têm esse efeito, por exemplo, Vanya, apesar de ser o filho mimado de um bilionário, mostra a perspetiva dos jovens que desejam independência (mas não são capazes de a realizar), pois temem a vida adulta e sentem o impulso para fugir da realidade quando os problemas batem à porta.

As reviravoltas da história podem ser criticadas por certa previsibilidade, mas a trama consegue se destacar dos clichês ao apresentar uma narrativa crua e plausível. A cena final, em particular, é uma das mais polêmicas e dividiu opiniões, o que não me surpreende, dado que o comportamento da protagonista naquele momento é inquietante, mas, ainda assim, o mais essencial para a mensagem do filme. Trata-se de uma cena que exige do espectador uma interpretação mais profunda, já que não evidencia apenas a confusão mental e emocional que Ani acumula durante toda a história, mas também as dificuldades enfrentadas por profissionais do seu ramo em termos de relações pessoais, aceitação social e vulnerabilidade psicológica. Este final fez-me ainda refletir sobre como é importante acreditar que é possível alcançar a felicidade e é uma responsabilidade própria de cada um procurá-la.

“Anora” é um filme que pode agradar tanto quem busca relaxar ao ver uma história romântica com boas doses de humor, quanto quem deseja uma reflexão mais profunda sobre as dinâmicas sociais e emocionais que atravessam relações humanas (principalmente daqueles que geralmente não são respeitados). De uma forma ou de outra, é difícil ficar indiferente à história e não se afeiçoar aos personagens que fazem parte dela.