Disponível para amar

In the mood for love

Wong Kar-Wai · 2000

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Junho de 2026

Dentro da vasta arte do cinema, encontramos diferentes filmes, suprindo diferentes necessidades. Por vezes, precisamos de algo mais leve, para descontrair e ofuscar a realidade que nos rodeia. No entanto, quando procuramos sentir e ser enrolados pela densidade emocional que o filme transporta, somos catapultados para uma realidade completamente diferente. “In the mood for love” é pilar desta realidade.

O filme parte de uma premissa simples: dois vizinhos em Hong Kong dos anos 60, Chow Mo-wan (Tony Leung) e Su Li-zhen (Maggie Cheung), descobrem que ambos os cônjuges têm um caso entre si. A mágoa e o desgosto dão azo a uma cumplicidade maior, que, vivendo dentro deste segredo, cria uma atração que ambos se recusam a consumar.

O que eleva este filme a um patamar icónico é, entre outros, a sua cinematografia. Wong Kar-Wai faz questão de nos mostrar apenas os dois personagens principais, deixando-nos de fora de todo o esquema conjugal. No entanto, mantém-nos cientes que a relação que ambos têm envolve, sempre, 4 pessoas. E assim, numa sociedade movida por mexericos, Chow e Su vivem enclausurados dentro da própria fantasia que criam: de que estão sobre total controlo dos seus sentimentos. Doravante, vemos os diferentes estados da fantasia dos personagens ao longo do filme, sempre nos mesmos lugares, e sempre “apanhados” num “frame between frame”, tentando passar a ideia de que o espetador acompanha a história, precisamente, pelos mexericos. A sequência não linear da história, exprimida pela incoerente rotação dos relógios, promove uma incerteza na ideia da fantasia, não sabendo distinguir em que realidade vivemos.

Em termos de atuação, Tony Leung e Su Li-zhen entregam duas das melhores atuações das suas já notáveis carreiras. Tony, com o seu olhar carregado e pensativo, transporta a ideia de que Chow vive num conflito interno constante, precisamente por saber que a fantasia que criaram se tinha lentamente transformado na sua realidade. Su, com o seu andar melancólico, demonstra um certo contraste com Chow, ainda acreditando, ingenuamente, no controlo sobre as suas ações. A ficção que estes acabam por viver acaba por ser um ato de fuga, precisando de ser vivida a dois para suportarem  a dor que lhes foi infligida. As reencenações da infidelidade dos seus cônjuges, os olhares partilhados e os lamentos conjuntos transformam estes num agente da traição, em vez da vítima que foram. Assim, “In the mood for love”, sendo um filme sobre aquilo que não diz, é, paradoxalmente, um dos filmes mais eloquentes já realizados.