Dr. Estranho Amor

Dr. Strangelove

Stanley Kubrick · 1964

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Fevereiro de 2026

A paródia cinematográfica, o filme “meta”, é um arquétipo que tem caído um pouco em desuso. Talvez porque a saturação das salas de cinema tenha desanuviado, até dando lugar a uma certa “seca” em Hollywood, onde, nos dias que correm, sem querer datar demasiado esta crítica, um filme considerado pelo “general popolous” como bastante bom, “Batalha após Batalha”, a título de exemplo, pode ainda assim ser um fracasso de bilheteiras. A saturação vê-se agora nos serviços de streaming, e, em particular, em séries de fácil consumo. A paródia não tem necessariamente nenhuma afeição pelo cinema, tem sim uma relação de simbiose com o conteúdo audiovisual que se torna demasiado visto. A paródia renascida alimenta-se da contracultura, dos alienados das séries e novelas populares, e cresce nas suas costas como um tumor: quanto mais saturado fica o mercado, mais espaço haverá para a paródia crescer. Tivemos um caso relativamente recente em Portugal remanescente deste mesmo fenómeno, com a série “Pôr do sol”.

Em 1999, sai a primeira temporada da série “The Sopranos”, que trouxe para a TV cabo a qualidade, até então, que as pessoas procuravam nas salas de cinema. Até aí, o modelo era simples: caso o consumidor estivesse disposto a ver conteúdo audiovisual que reunisse as mais patenteadas técnicas e instrumentos até à data, comprava um bilhete de cinema. Já no cinema, um filme que tomava a perspetiva de um dos utentes das salas de cinema e que acentuava os detalhes mais disparatados dos filmes mais badalados do momento, vinha com uma excentricidade que era apelativa ao consumidor. Deste fenómeno, aparecem filmes como “O ataque dos tomates assassinos”, o “Sleeper” de Woody Allen, e, ainda antes disso, o “Dr. Strangelove: or How I learned to stop worrying and love the bomb” de Stanley Kubrick.

Apesar de não ser o estilo pelo qual é conhecido, o ato de parodiar é análogo àquela que era a filosofia de Kubrick quanto às suas criações. Com os seus filmes, Kubrick procurava “fotografar a fotografia da realidade”, palavras do próprio, recontadas por Jack Nicholson. A paródia, filma as filmagens da realidade, é como se, entre o consumidor e o filme, existisse uma camada que não estava lá antes: a ironia.

Cogitando em concreto sobre o Dr. Strangelove, trata-se de uma amálgama paródica dos filmes “Bond clássicos” e dos filmes de exaltação da força militar estadunidense. Um general americano, Jack Ripper, ordena que a sua frota aérea ataque pontos estratégicos nucleares na União Soviética, por medo de que os valores comunistas se estejam a entranhar na sociedade americana. Já no pentágono, um presidente pouco pujante tenta chegar a um consenso com um première embriagado, e recebe conselhos de outras figuras caricatas do tecido militar americano, entre elas o excêntrico Dr. Strangelove.

A máxima do filme parece ser a de fazer pouco da ameaça nuclear que o mundo vivia na altura e sublinhar algumas incoerências subjacentes à organização geopolítica. O general Ripper, mostra nem perceber muito bem daquilo que se trata o comunismo mas, ainda assim, vive obcecado com a sua aniquilação, pois foi essa a missão que lhe foi incutida. Dr. Strangelove vê as armas nucleares como um exercício académico fascinante e tem dificuldade a controlar pontuais espasmos que lhe ocorrem e se manifestam numa relutante, mas ainda assim violenta, saudação romana. Para além de que por vezes engana-se e dirige-se ao presidente como “Mein Fuhrer”, mostrando a flexibilidade da política internacional norte-americana.

O depravar do ato sexual, recorrente na obra de Kubrick, é visível na forma como Ripper projeta inseguranças de virilidade na investida militar, conferindo-lhe ainda mais humor. Penso que esta é a ideia sobre a qual a comédia do filme orbita: “podemos mesmo chegar todos a morrer por uma coisa tão parva como esta”. Claro que há outras, como no pentágono, a piada que paira no ar é “as nossas vidas estão mesmo entregues a diplomatas deste calibre”, ou anda à volta das personagens cómicas, como o burgesso Buck Turgidson ou o próprio Strangelove. O filme era, para os espectadores da década de sessenta, como uma adaga com que podiam ferir os seus maiores medos. Kubrick empregou o humor não de forma interventiva, mas tranquilizante, ou, como disse Ricardo Araújo Pereira, “O humor não é o termómetro, mas sim o termostato”.

Dito tudo isto, penso que, mesmo com a nova relevância que o contexto geopolítico atual lhe dá, Dr Strangelove não é propriamente o filme mais bem concebido de Kubrick. Se formos a comprar com realizações mais recentes, como “Beau is afraid”, vemos que há formas de empregar surrealismo e absurdismo em conjunto de formas muito mais “Kubriquestas” do que o próprio fez neste filme, onde parece que o surrealismo e o absurdismo raramente se chegam a cruzar. Apesar de ter os seus momentos e de acreditar que muito do seu valor se pode ter vindo a deteriorar, na face da restante obra do cineasta, este deixa a desejar.