Frankenstein(2025)
Frankenstein
Guillermo del Toro · 2025
Crítica de Ana Costa
Review exclusiva do site, publicada em Novembro de 2025
Guillermo del Toro sempre foi fascinado por monstros, tornando cada um dos seus filmes numa carta de amor aberta para eles, e este não foi diferente. Propõe-se, assim, recontar a obra de Mary Shelley.
Esta adaptação traz-nos uma versão mais humana que as restantes, fugindo um pouco da sua vertente de horror e aproximando-se ao drama da premissa, proporcionando ao espectador, contudo, os detalhes grotescos e minuciosos da criação da criatura.
Mesmo que não tenham lido o livro, todos sabemos a premissa desta história. A de um cientista brilhante que dá vida a uma criatura, acabando por levar à destruição de ambos.
O cientista é Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um homem perturbado marcado pela relação conturbada com o seu pai, um médico de renome severo e controlador. É nas mãos deste que a sua mãe morre, o que o leva a decidir encontrar uma forma de desafiar a morte. É este desejo que o move, estudando a sua vida inteira para encontrar a resposta que tanto procurava. Até que um dia encontra Henrick Harlander (Christoph Waltz), um magnata, com interesse pessoal, disposto a financiar os seus experimentos.
O financiamento possibilita a construção do seu laboratório, onde é finalmente capaz de dar vida à sua criatura (Jacob Elordi). Inicialmente, fica interessado no potencial da mesma, até chegar à conclusão que era um ser de inteligência inferior, logo, pela sua lógica, não merecedora da sua atenção.
Apenas a sobrinha de Henrick, Elisabeth (Mia Goth), é capaz de ver a humanidade do ser, enquanto o seu criador vivia horrorizado por aquilo que havia criado, sendo este medo e desgosto que culminam na destruição de ambos.
Este filme é marcado sobretudo pelo eterno conflito entre pai e filho, inicialmente entre Victor e o seu pai, e depois entre o primeiro e a sua criatura. Ao início, apenas proferir o nome do seu criador significava-lhe o mundo, mas Victor não suportava a ideia de que o nome que lhe tinha sido dado pelo pai, sem qualquer valor, significasse tanto para o ser puro que havia posto neste mundo, nunca sendo capaz de a humanizar no simples ato de lhe dar um nome. A mesma não teve escolha, e foi obrigada a existir eternamente numa Terra, que apenas a via como um monstro, condenando-a a uma vida solitária.
Victor, na forma como trata a criatura, reflete o amor distorcido com que cresceu, tendo um desfecho trágico, marcando assim a relação que mantém com a sua criação ao longo do enredo. Nestes momentos, a performance de Jacob Elordi traz uma profundidade estupenda às cenas, através da forma como interpreta alguém tão incompreendido e escrutinado que apenas deseja ver se livre da vida que lhe foi imposta.
Apenas no final é que ambos encontram paz, no momento marcante em que Victor é capaz de, pela primeira vez, ver a sua criação pelo que sempre foi, o seu filho.
Embora a criatura não tenha nome, sempre que dizemos o famigerado título, Frankenstein, vem–nos à cabeça o “monstro” e nunca o homem que o criou. Talvez seja porque no fundo esse seja o verdadeiro monstro desta história.
Não posso terminar sem antes falar dos deslumbrantes figurinos e cenários, que contribuíram não apenas para a beleza das cenas, mas também para enriquecer a história. As peças produzidas por Kate Hawley, nomeadamente das personagens femininas, estavam carregadas de significado, apenas com os seus vestidos complementaram a história que nos foi contada.
Por fim, o filme revela uma nova face desta história mais próxima dos outros trabalhos do diretor, com uma cinematografia lindíssima e uma história que, por mais adaptada que seja, nunca cansa, pela profundidade do material original. Mesmo não sendo, a meu ver, um filme revolucionário, revelou ser uma experiência espantosa que deveria ser apreciada por qualquer pessoa que adore o estranho e o incompreendido.