Fúria Cannabis

The World Made Straight

David Burris · 2015

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Junho de 2026

“Sabes que um lugar é assombrado quando parece mais real do que nós próprios. É como se o tempo não passasse, apenas se acumula, camada sobre camada.”

Realizado por David Burris em 2015 e baseado no livro homónimo de Ron Rash, “The World Made Straight” (ou “Fúria Cannabis” em português) não teve muito sucesso em termos de bilheteira e de avaliações. Cheguei a este filme por causa de Noah Wyle, assumo tal como muitos outros espectadores mais recentes. Depois de ver “The Pitt”, onde ele tem uma interpretação extraordinária (e premiada!) como Dr. Robby, fiquei com alguma vontade de explorar mais do seu trabalho.

O que encontrei foi um filme composto por muitas das coisas que nunca me cansarei de ver. Por falta de melhor definição, é um daqueles “westerns” modernos, calmo e muito lento, com uma boa banda sonora. Os seus 119 minutos estão cheios de sotaques que não consigo imitar, paisagens belas, e pessoas comuns a habitarem um mundo moldado por pegadas bem mais antigas do que elas próprias.

Vemos, então, um drama ambientado numa zona rural dos Estados Unidos que acompanha Travis Shelton (Jeremy Irvine), um adolescente à procura do seu rumo numa comunidade marcada pela pobreza, pelas drogas, e pela memória. O filme demarca-se pela influência dos massacres da época da Guerra Civil (1861-1865), há muito esquecidos por grande parte do país, o que leva o jovem a estabelecer uma amizade improvável com “O Professor” Leonard Shuler (Noah Wyle), que o incentiva a pensar para além das limitações do seu ambiente. À medida que Travis enfrenta tensões familiares, criminalidade e questões de identidade, o filme explora como as escolhas pessoais e os legados históricos moldam a possibilidade de redenção.

O cenário é, sem dúvida alguma, a maior força do filme e há que apreciar que foi mesmo gravado na Carolina do Norte e não num estúdio. Há algo assombroso sobre as montanhas dos Apalaches, que são muito mais do que um pano de fundo, carregando o peso de gerações de memórias e violência. O filme regressa constantemente à ideia de que a História nunca desaparece verdadeiramente. Permanece na terra, nos apelidos, e nas histórias que as pessoas contam sobre si mesmas.

As personagens foram o que me manteve mais interessada a ver o filme. Leonard e Travis desenvolvem uma relação muito interessante, e os antagonistas, como Carlton (Steve Earle), integram-se bem na história. Gostei especialmente da cena em que este canta para o público. Quanto às interpretações, variam entre muito boas (Earle e Wyle) e decentes (o resto), apesar de ter de admitir que não sou capaz de avaliar os seus sotaques, por me serem tão distantes.

Vi muitas críticas a atribuírem classificações bastante negativas a este filme, e consigo compreender que o ritmo lento e a relativa ausência de grandes momentos dramáticos tenham desmotivado alguns espectadores. Pessoalmente, não me incomodaram minimamente. O filme parece mais interessado em retratar um lugar e uma forma de vida do que em procurar constantemente entreter, e eu apreciei essa contenção.

Mesmo assim, não está isento de falhas. A narrativa nem sempre consegue articular todos os seus elementos da melhor forma. Algumas dinâmicas entre personagens tornam-se confusas, por exemplo, a de Travis e da namorada de Leonard, Dena (Minka Kelly), o que faz com que certos diálogos não resultem particularmente bem. Dena, em especial, é uma personagem desaproveitada. O filme devia ter feito dela muito mais do que uma mulher pobre e vulnerável à exploração sexual, cuja principal função é mover o caminho de Travis. Para além disso, a importância da família e dos laços de sangue é constantemente evocada, mas a escrita nunca consegue transmitir verdadeiramente a profundidade dessas ligações. Ouvimos falar da sua importância muito mais do que a sentimos.

Apesar de tudo, as qualidades superam claramente os defeitos, e ver o filme é uma boa experiência. O que ficou comigo não foi tanto a narrativa, mas sim a sua atmosfera: a sensação de uma História que continua a pressionar o presente, e de pessoas que vivem entre camadas acumuladas de um passado do qual não conseguem escapar e que nunca conseguirão compreender por completo. “The World Made Straight” está longe de ser um filme perfeito, mas retrata um mundo com tanta beleza que me foi impossível não me deixar envolver por ele.