Guerreiras do K-Pop
Guerreiras do K-Pop
Maggie Kang, Chris Appelhans · 2025
Crítica de Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Julho de 2025
O K-Pop é indubitavelmente um dos genres mais populares do mundo da música atualmente, e não mostra sinais de abrandar, ao ponto de que mesmo não sendo fã, acabo por interagir com as suas notícias. O que não era esperado, mesmo com a fama e o tamanho da fandom, era uma animação perfeitamente encaixada neste universo, produzida (ainda por cima!) pela Sony. Do mesmo estúdio que nos trouxe a (ainda inacabada) trilogia do Homem-Aranha no Aranhaverso, e Os Mitchell Contra as Máquinas, e de uma realizadora que tinha trabalhado como artista na DreamWorks, Guerreiras do K-Pop aparentava ser algo completamente idiótico.
O título diz tudo – temos estrelas do K-Pop, que para além de cantarem e dançarem, também combatem demónios. Um nicho certamente inesperado, mas que estranhamente resultou. Passado em Seoul, o filme segue um grupo feminino (fictício) chamado HUNTR/X (ou Huntrix), formado por Rumi (Arden Cho e EJAE), a protagonista, apelidada de “realeza do pop”, Zooey (Ji-young Yoo e Rei Ami), rapper e maknae (a mais nova do grupo), e Mira (May Hong e Audrey Nuna), visual e dançarina principal. Juntas, formam a mais recente encarnação do trio encarregado por afastar os demónios do mundo real e por manter a barreira entre os seus mundos. Quando o filme começa, encontramos-nos num momento mais dramático deste universo, tendo as três a possibilidade de finalmente selar a barreira permanentemente, graças ao amor dos seus fãs.
Como antagonistas temos, claro, os demónios, que, ao esgotarem todas as ideias, decidem experimentar uma coisa nova – formar um grupo rival, chamado Saja Boys, liderado por Juni (Ahn Hyo-seop e Andrew Choi), para roubar os fãs das Huntrix. As rivalidades entre os grupos, bem como o desenrolar da narrativa, acabaram por ser extremamente previsíveis, incluindo o twist final. Ainda assim, o filme consegue ser incrivelmente entertaining e divertido. A história funciona porque, em vez de os escritores seguirem o caminho da paródia, eles aceitam o universo em que estão a trabalhar. Apreciei especialmente a escolha de não satirizar o K-Pop e os seus fãs, indo antes por um percurso de amor às suas tradições e à Coreia do Sul.
A animação é belíssima e perfeitamente adequada ao conceito do filme. Num tempo em que a animação computacional se foca na fluidez e num quase realismo, aqui vemos uma aposta nas silhuetas dinâmicas em vez de no movimento completo, dando ao filme um ar de banda desenhada perfeito para a caça aos demónios. Este estilo é uma homenagem às webtoons e manhwas (novelas gráficas coreanas), e especialmente aos desenhos animados asiáticos dos anos 90, em que as poses “dramáticas” eram utilizadas para poupar dinheiro na animação. As expressões dos personagens e o humor visual também evocam com carinho essa mesma estética.
Os videoclipes foram muito bem incorporados, e a fusão entre performances e combates resultou surpreendentemente bem. As coreografias são autênticas e genuinamente K-Pop. A medo de me repetir, os cutouts ao estilo manga combinam lindamente com o conceito do filme. Temos imensos planos visuais memoráveis, e tanto a “cinematografia” como a paleta de cores foram escolhas acertadas e impactantes. O posicionamento da “câmera” capturou perfeitamente a ação rápida, para além de ter sido completamente fiel às atuações dos ídolos da vida real. A propósito das cenas de ação, das lutas com os demónios, aplaudo a forma como não fizeram a violência nojenta ou um foco, mas estilizada, clean, e visualmente apelativa.
Ainda no tema da animação, o design das personagens é, talvez, uma das melhores partes do filme. Tanto as Huntrix como os Saja Boys refletem claramente os arquétipos dos vários tipos de ídolos do KPop real, desde os penteados às suas roupas. As armas são igualmente perfeitas, com um design atento às tradições de combate coreanas.
Sendo um filme sobre K-Pop, não havia forma de fugir à música, e quem ficou responsável de a escrever e produzir acertou em cheio. O soundtrack tem doze faixas, todas elas diferentes, cobrindo diferentes estéticas do K-Pop, mas sempre cativantes. De facto, dei por mim a cantarolar “How It’s Done” durante uma semana depois de ver o filme. É notável o cuidado colocado em cada música, e a percepção das tipicidades encontradas no genre. O grupo das raparigas mantém um estilo mais consistente, de músicas com letras fierce, mas de auto-reflexão. Encontramos influências das Aespa, das Blackpink, e, obviamente pela sua inclusão no soundtrack, das Twice. Já as músicas dos Saja Boys variaram mais, cobrindo e homenageando os grupos mais famosos e as suas estéticas. Se Soda Pop é uma quase referência à era de Butter e Boy with Luv, dos BTS, Your Idol explora a vertente mais edgy de grupos como Enhypen, Ateez, e Stray Kids.
Com o brilho da animação e da música, a história acaba por ser o elo mais fraco. O foco excessivo na Rumi e no Juni retira tempo de desenvolver o resto das Huntrix, que tinham muito potencial. Para além disso, o filme beneficiaria de mais vinte a trinta minutos, que poderiam ser utilizados para preencher algumas lacunas na narrativa, como a história dos pais e da mentora da protagonista, a amizade entre as meninas, e o resto da boyband rival. O filme também acaba por perder tempo em certos bits sinceramente desnecessários, como um momento em que um médico descreve as personalidades do trio, coisa que já tinha sido assentada muito bem no início do filme e que acabou por cair numa tentativa de humor relatable.
A alegoria de auto-aceitação, apesar de extremamente comum, especialmente nesta onda recente da animação (ergo, Frozen), resulta muito bem neste filme, especialmente tendo em conta a cultura Coreana e os seus padrões elevados. Há uma noção geral de que os ídolos do K-Pop são puxados à perfeição pelas suas agências, muito por causa das exigências e críticas árduas dos fãs coreanos, e isto é um tema muito subtil durante o filme (desde a falta de descanso até à pressão constante para manterem a produtividade artística).
Destarte, o filme é muito divertido. Tem as suas falhas, e é verdade que muitas animações tendem a falhar mais nos guiões, mas Guerreiras do K-Pop está muito bem conseguido, notando-se o respeito pela fandom do KPop, e pela cultura coreana, sendo os demónios uma referência à mitologia coreana. É uma hora e meia de entretenimento genuíno, com uma equipa criativa extremamente talentosa por trás, ao ponto de eu não questionar os seus defeitos muito depois dos créditos rodarem.