Honey, Não!

Honey Don't!

Ethan Coen · 2025

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Setembro de 2025

“Honey, Não!“, de Ethan Coen, é um daqueles filmes que, à primeira vista, parece reunir todos os ingredientes certos para conquistar o espectador. O ponto de partida da narrativa é envolvente o suficiente para despertar curiosidade e manter a atenção ao longo da sessão. Há um enredo que promete, personagens que parecem ter muitas camadas e uma premissa que, em teoria, permitiria mergulhar em várias questões interessantes. No entanto, embora consiga entreter, o filme acaba por deixar uma sensação de incompletude, como se estivesse sempre prestes a dizer algo mais relevante e impactante, mas nunca chegasse verdadeiramente a dizê-lo.

O que mais se destaca é, sem dúvida, o roteiro. A história tem ritmo, surpreende em certos momentos e consegue manter-nos ligados ao ecrã, mesmo quando sentimos que algo está em falta. É um daqueles casos em que o potencial narrativo é evidente, mas a execução fica aquém. O realizador parece querer apresentar demasiados temas ao mesmo tempo: a violência doméstica, o uso de drogas, a corrupção, a sexualidade, a fé, o abuso por parte da Igreja e, até, o assassinato. No entanto, nenhum destes tópicos é trabalhado com a profundidade necessária para gerar um impacto duradouro.

Esta dispersão temática torna a narrativa mais rasa do que poderia (e deveria) ser. Há momentos em que o filme sugere que vai explorar questões sérias e relevantes, mas acaba por as abandonar rapidamente, em prol de manter o ritmo da história, seguindo diretamente para outra parte da trama. O resultado é uma sucessão de ideias interessantes, mas superficiais, que poderiam ter dado origem a um filme muito mais rico se tivessem sido desenvolvidas de forma mais consistente. É como se “Honey, Não!” tivesse medo de se comprometer com um único tema central, preferindo navegar pela superfície de vários.

Margaret Qualley é, sem sombra de dúvidas, a alma do filme: ao interpretar uma inspetora privada e muito requisitada, com uma presença magnética, consegue manter a narrativa de pé, mesmo quando esta se perde em desvios. Chris Evans, apesar de entregar uma das atuações mais divertidas e carismáticas da sua carreira, como um reverendo corrupto, acaba subaproveitado e sem espaço para explorar todo o potencial do personagem. O resultado lembra bastante o filme “Bonecas em Fuga”, também de Ethan Coen, no tom irreverente e no humor excêntrico, mas também evidencia como Ethan, sem o seu irmão Joel, parece perder o equilíbrio entre caos criativo e coesão narrativa, deixando a obra mais com um sabor de rascunho, do que de filme plenamente realizado.

Outro ponto que merece destaque é a duração. Com menos de 90 minutos, seria de esperar uma obra compacta, direta e eficiente. Contudo, neste caso, essa brevidade acaba por ser um tiro no pé. Em vez de condensar a narrativa de forma eficaz, o tempo reduzido acentua a sensação de incompletude. Há arcos que se resolvem demasiado depressa, personagens que parecem subaproveitadas e conflitos que se dissipam antes de atingirem o seu pleno potencial, sendo o plano narrativo do reverendo Drew Devlin (personagem de Chris Evans) um dos principais exemplos disso. Se o filme tivesse arriscado estender-se um pouco mais, talvez conseguisse ter o espaço necessário para aprofundar os temas que apenas aflorou.

Ainda assim, não se pode dizer que “Honey, Não!” seja uma completa perda de tempo. Pelo contrário, há valor em acompanhá-lo: é envolvente, tem ritmo e consegue entreter sem grandes dificuldades. O problema está mais na expectativa que cria do que naquilo que realmente entrega. O espectador percebe o potencial e fica com a sensação de que poderia ter assistido a algo memorável, mas sai da sala de cinema com uma experiência apenas satisfatória.

Em suma, “Honey, Não!” é um filme que cumpre a função de entreter, mas que dificilmente ficará gravado na memória a longo prazo. A sua trama é promissora e mantém-nos atentos, mas a falta de profundidade temática e a curta duração impedem-no de alcançar o impacto que claramente ambicionava. Um filme agradável, mas que deixa no ar a pergunta inevitável: o que poderia ter sido se tivesse ousado ir mais fundo?