Laranja Mecânica
A Clockwork Orange
Stanley Kubrick · 1971
Crítica de Ana Costa
Review exclusiva do site, publicada em Fevereiro de 2026
“A Clockwork Orange” de 1971, é uma das 13 longas metragens dirigidas por Stanley Kubrick, o diretor a que este mês nos dedicamos a rever. Este teve uma vasta influência para o cinema, servindo de inspiração até hoje para: Christopher Nolan, David Fincher e Steven Spielberg, por exemplo. Kubrick foi sobretudo conhecido pela sua rigidez e perfeccionismo; pelas suas composições e movimentos de câmara; pela forma como escolheu contar e explorar certos temas, e pelas obras literárias que adaptou, mas estes filmes nem sempre agradaram os seus autores, como é o caso desta adaptação do livro de Anthony Burgess. Não nos podemos esquecer, também, da importância que deu à música para ajudar a contar as suas histórias, usou e abusou das músicas clássicas, subvertendo o significado destas, algo que está presente neste filme com a 9ª sinfonia de Beethoven.
A obra de Kubrick, relata a chocante vida de Alex deLarge (Malcom McDowell), um jovem que juntamente com os seus “droogs” – amigos – Pete (Michael Torn), Dim (Warren Clarke) e Georgie (James Marcus) divertem-se a cometer atos de violência excessiva. Acaba por ser detido após invadir uma casa e assassinar a dona, que vive rodeada pelos seus gatos (Miriam Karlin). Já na prisão, numa conversa com o padre (Godfrey Quigley), Alex mostra interesse pela Técnica Ludovico, um novo projeto do governo que visa erradicar a violência, com o objetivo de sair dali. Uma vez reinserido na sociedade, as consequências dessa experiência serão inesperadas para Alex.
No filme é usada uma língua fictícia, o Nadsat, criada por Anthony Burgess, que se trata de uma mistura de cockney slang (calão inglês) com vocabulário russo. A escolha de mantê-la, a meu ver, contribuiu em tudo para a criação da atmosfera futurística e bizarra do mundo de Alex, separando-o do nosso, em conjunto com o set design excêntrico de John Barry, e os figurinos de Milena Canonero.
Dos aspetos que mais gostei foi o de não explicarem exageradamente os temas abordados, algo que se parece ter tornado norma para filmes mais recentes; e do título do próprio filme. Este refere-se à maquinização do livre-arbítrio através da metáfora da laranja, algo orgânico, convertido para ser um mecanismo artificial, que representa o nosso protagonista após ser transformado pela técnica, que o condicionou a fazer apenas o bem e sentir repulsa por aquilo que lhe trazia tanta excitação e felicidade, contudo tais sentimentos violentos permanecem, apenas é impossibilitado de os cometer fisicamente.
Assim, explora o paradoxo entre o livre-arbítrio e a justiça, levantando questões como: Podem ambos coexistir sem se comprometerem mutuamente? Até que ponto este controlo governamental é moral? E se o livre-arbítrio não for usado para o bem, é justificado que seja suprimido? Mas o filme não as tenta responder, de forma a dar liberdade ao espectador para chegar às suas conclusões.
Como referido anteriormente, a 9ª sinfonia teve um importante papel, principalmente para o protagonista, já que este tem um grande amor à música, chegando a descrever o que sente ao ouvir a sinfonia, como os momentos em que comete crimes. Assim, usa uma música que celebra a igualdade e fraternidade para, agora, representar uma personagem imoral e sádica. Alex, ao tratar o compositor pelo nome próprio revela, ainda, a conexão deturpada que julga ter com Ludwig van Beethoven, porém, após o tratamento é incapaz de a ouvir, já que é utilizada como música de fundo num dos vídeos mostrados na Técnica Ludovico, revelando que juntamente com a sua natureza violenta o amor pela música também lhe foi negado, momento, que acredito ajudar na constituição e complexidade do dilema que pretende criar.
Ainda que tenha gostado do filme, em nada gostei do modo como este, ao longo do enredo, vai tentando fazer-nos sentir compaixão pelo Alex. Ao ser narrado pelo próprio personagem, e este não sendo confiável, apela pela empatia do público usando expressões como “your faithful friend and long suffering narrator”; “humble narrator” e “o my brothers and only friends”.
Por um lado é interessante, porém, neste caso não consigo sentir qualquer compaixão. Logo após as primeiras cenas, onde vemos os atos violentos que cometeu sem remorsos, podemos concluir que o protagonista é incapaz de se redimir. Mesmo estando rodeado por um mundo também corrupto, não é o responsável por tornar o Alex num sociopata. Ou seja, por mais que a opressão do governo e violência generalizada exista neste contexto, ele seria o mesmo caso isso não fosse verdade.
Por outro, acredito que a forma do governo de privar qualquer autonomia e poder de escolha ao Alex, torturando-o de certa forma, é igualmente questionável. No fim, o governo oferece-lhe proteção, mostrando que o objetivo nunca foi resolver o problema, mas sim o controlo e a sua reputação.
Em suma, “A Clockwork Orange” aborda uma perspetiva diferente sobre o livre-arbítrio, revelando a possibilidade do seu uso para o mal, explorando também as forças de opressão do estado, deixando aos espectadores o poder de decisão do conteúdo moral e ético, ou a falta deles; sendo, na minha opinião, dos aspetos mais fortes da obra e o que a torna tão atemporal. Aconselho, também, uma maior precaução para audiências que sejam sensíveis a atos gráficos de violência. Termino, assim, com um conselho: nunca confiem em homens que bebam leite, podem acabar por ser um sociopata.