Loving Vincent
Loving Vincent
Dorota Kobiela, Hugh Welchman · 2017
Crítica de Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Junho de 2025
“Eu coloquei o meu coração e a minha alma no meu trabalho, e perdi a minha mente no processo”.
– Vincent Van Gogh
Poucos artistas foram tão despidos, tão vulneráveis na sua entrega à arte como Vincent Van Gogh. Ele pintava para sobreviver, como se lhe fosse oxigénio, e é sabido que no seu último ano de vida terá completado quase dois quadros por dia. Esta é a vida contada em Loving Vincent, que muito mais que um filme, é uma celebração da identidade artística do pintor.
Realizado por DK e Hugh Welchman, este filme de 2017 é, acima de tudo, uma carta de amor à obra de Van Gogh. A narrativa segue Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro retratado por Gogh, incumbido de entregar a última carta de Vincent (Robert Gulaczyk) ao seu irmão, Theo. Com dúvidas sobre as circunstâncias da morte do pintor, Roulin acaba por cair numa investigação própria, quase “policial”, à medida que vai conhecendo pessoas que conviveram com o protagonista nos seus últimos tempos de vida. Esta estrutura de inquérito, de ouvirmos as histórias uma a uma, resulta particularmente bem aqui, criando múltiplas camadas deste homem que toda a gente conhece.
Um dos realces do filme é precisamente essa pluralidade. O duo Welchmen, juntamente com o argumentista Jacek Dehnel, conseguem retratar Van Gogh de uma forma profundamente humana. Isto parece, provavelmente, idiótico, algo óbvio, mas estamos habituados a conhecer este homem como um mártir, um génio trágico, ou um louco, e aqui encontramos uma narrativa diferente. Loving Vincent mostra-nos alguém real, cheio de dores, sofrido, claro, mas também com vontade, com defeitos. Há sim uma justiça na forma como o filme representa o seu relacionamento com figuras como Paul Gachet (Jerome Flynn), Adeline Ravoux (Eleanor Tomlinson), Marguerite Gachet (Saoirse Ronan), e Paul Gauguin (Piotr Pamula), entre outras, a quem Vincent magoou.
A história não é particularmente revolucionária, e não é, definitivamente, o ponto mais forte da obra. De facto, nem é pelo enredo que este filme se quer destacar. Loving Vincent é uma pintura viva, literalmente. 125 artistas de mais de 20 países criaram à volta de 65 mil pinturas a óleo ao longo de seis anos, usando uma técnica de rotoscopia para transformar todos os frames em sequências. A animação segue o estilo famoso do pintor, e evolui em sintonia com o seu estado emocional durante a história, quase como se a tinta guiasse o espectador como guiou o pintor.
Mesmo não sendo o foco do filme, as atuações foram sólidas. Robert Gulacyk oferece-nos um Vincent profundamente humano, não um maluco, como já vimos com Dafoe, nem como um génio incompreendido (apesar de o ser), mas apenas como uma pessoa com sonhos e medos. Tendo em conta a forma como o filme foi animado, é incrível como nos é possível captar as expressões mais subtis dos atores, e como não lhes foi retirada a emoção.
Loving Vincent não é para toda a gente. Foi feito claramente de artistas para artistas, para amantes da arte, é um filme que pede alguma sensibilidade. Há algo poético na sua criação, tendo sido humana do início ao fim, algo que talvez já não seja uma prática apenas 8 anos depois. Van Gogh escreveu numa carta ao seu irmão que os únicos momentos em que se sentia vivo eram quando pintava, e este filme trá-lo à vida precisamente assim, com tinta a óleo. Ainda assim, aconselho todos a vê-lo, por ser uma experiência lindíssima e única do universo cinematográfico.