O amor acontece “Love Actually” (2003)
Love Actually
Richard Curtis · 2003
Crítica de Gonçalo Ferrinho
Review exclusiva do site, publicada em Dezembro de 2025
Uma comédia romântica natalícia inspirada em “Pulp Fiction”, com uma forte representação portuguesa, parece ser uma espécie de sonho. E é. No entanto, como em raros casos da nossa vida, este sonho tornou-se realidade, originando o clássico “Love Actually”.
Ao iniciar o filme, é possível surgirem dúvidas se estamos perante mais um filme de natal cliché, no qual amor é tratado com redundância, marginalizando as suas dificuldades para a vida real. Contudo, com uma certa destreza diretiva, Richard Curtis, ao misturar 9 narrativas diferentes, oferece uma “boa entremeada” de leveza cómica com profundidade emocional.
A premissa do filme é apresentada rapidamente e de forma ágil. Conhecemos os personagens e a bagagem amorosa que transportam ao longo deste. No entanto, mesmo com estes infortúnios, deparam-se com um objetivo em comum: conseguir suprir o vazio que a solidão deixou durante os restantes onze meses do ano.
Mesmo com toda a irresponsabilidade de deixar o trabalho para a última, conectamo-nos facilmente com os personagens, sobretudo através das suas lacunas e incapacidades de enfrentar os seus medos de forma objetiva. Assim, no meio de muita neve, vemos, a princípio, o que pensamos ser o murchar do amor. Porém, à medida que descongelamos a nossa esperança, começamos, lentamente, a acreditar novamente no efeito anestesiante da felicidade. Consequentemente, acabamos o filme, ao som de Joni Mitchell, com uma sensação de plenitude, aprendendo que o amor não se baseia em grandes atos, mas sim na banalidade de “estar”.
Com atuações competentes, destaca-se claramente Hugh Grant, que demonstratoda a sua aptidão e conforto com o papel. Deslumbra-nos em todos os momentos em que aparece em cena, desde o seu charme até a sua incompetência patética num simples diálogo. Para além disso, e com um bocadinho de parcialidade, é impossível passar em branco à comunidade portuguesa apresentada no filme que, com todos os seus bigodes (homens e mulheres), proporcionam diversos momentos inusitados.
O filme não se vangloria nem promete revolucionar o género. No entanto, faz um ótimo trabalho na integração de certos elementos que colem o espectador ao ecrã, usufruindo sempre da ternura que é ver a felicidade a congelar. Assim, sem se achar pretensioso, o filme vulgariza qualquer intelectualidade necessária e acredita que a verdadeira complexidade surge da simplificação de processos, neste caso, o acreditar no amor.
Por fim, “Love Actually”, juntamente com uma mantinha, 8ºC de temperatura exterior e umas pinguinhas a embater na janela, traduz-se na combinação perfeita para derramar aquela lágrima de canto de olho matreira, que nos surge quando percebemos que finais felizes podem acontecer.