O Estranho Mundo de Jack

Nightmare Before Christmas

Henry Selick · 1994

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Dezembro de 2025

O conceito de filme natalício é um pouco abstrato. Trata-se de um filme cuja narrativa acontece durante o Natal? Ou será condição suficiente apenas abordar temas festivos?

A inacabável inspiração e megalómana imaginação de Tim Burton criaram um filme em que os dias de festa ocorrem exatamente em sentido abstrato, conferindo a “Nightmare Before Christmas” o carácter experimental pelo qual é conhecido. Burton estabelece que, em cantos desconhecidos do planeta terra, existem cidades temáticas dedicadas aos diferentes dias festivos. A cidade do Halloween é habitada por seres assustadores cuja única função é planear o Halloween e, no dia, encená-lo. Jack Skellington, o mais notório dos monstros, cansa-se desta rotina. Quando encontra cidade do Natal, fica enamorado com a natureza alegre do dia e decide tentar replicá-la segundo aquilo que a cidade do Halloween lhe ensinou que deveria ser um dia festivo, contando com a ajuda dos seus conterrâneos, que por ele nutrem muita admiração.

Esta aversão à realidade liberta o diretor Henry Selick para que possa criar marionetas reminiscentes do sonho de uma criança, ou talvez do seu pesadelo. Penso que as marionetas, aliadas à técnica de stop-motion, são um dos pontos mais altos do filme. Visto pelas lentes de 2025, o filme tem, de facto, um movimento menos fluido. No entanto, a caracterização das marionetas é tão interessante quanto as paisagens são deslumbrantemente imaginativas, de tal forma que, mesmo quando comparado a produções mais atuais, o filme continua a ter o seu valor no campo visual, não só para cinéfilos, que não entram no anacronismo de o comparar a filmes atuais, como para o espectador mais casual. Se tivesse de destacar um momento onde o stop-motion foi verdadeiramente espetacular, sentir-me-ia obrigado a convergir com a multidão e salientar o brilhantismo da coreografia da cena de abertura, acompanhada pelo clássico “This is Halloween”. No tópico da trilha sonora, o trabalho de Danny Elfman é o que eleva esta produção ao estatuto de clássico.

É interessante pensar que musicais direcionados a um público mais adulto tendem a apoiar-se em instrumentais mais bombásticos, como que para usurpar as emoções sentidas pelos mais jovens. Antagonicamente, Elfman criou números musicais que comunicam as emoções das personagens com uma genuinidade comovente, tão pura quanto a de uma criança. Nenhuma das músicas causa um stand-still no filme; todas servem para avançar na história. Mais ainda, o diálogo que antecede os números musicais prepara e dá sentido ao monólogo emocional que se seguirá. É engraçado ver como uma cidade de seres que vivem para encenar agem com naturalidade em todas estas performances, visto agora de um ponto de vista mais “meta”.

Este filme é um constante yin e yang. Os ensinamentos são natalícios, mas os intervenientes são horripilantes. As músicas são lindíssimas, mas a missão de Jack de assimilar o Natal ao Halloween é aflitiva. Esta junção de temáticas deve-se ao conjugar de todos estes elementos;a imaginação de Burton, as icónicas marionetas de Selick, e a composição emocionante de Elfman. Selick traz o macabro, Elfman traz o comovente, e Burton faz a ponte.

“Nightmare Before Christmas” junta criativos cuja única interseção no diagrama de Venn é o seu brilhantismo. Ao entenderem-se nesse brilhantismo, trazem influências de cada um dos seus imaginários, culminando numa viagem única e ambiciosa que, garantidamente, vai causar emoção no espectador.