Os Excluídos
The holdovers
Alexander Payne · 2023
Crítica de Ana Costa
Review exclusiva do site, publicada em Dezembro de 2025
Este filme traz consigo uma dinâmica vista já várias vezes e adorada por muitos: a relação entre um estudante indisciplinado e um professor que um dia sonhou em fazer a diferença, através da qual ambos aprendem e criam um laço. Porém, agora, essa dinâmica surge polvilhada com o espírito natalício.
O enredo foca-se em Paul Hunham (Paul Giamatti), o professor de história mais odiado do internato Barton Academy, que se vê obrigado a cuidar de alguns alunos que não têm para onde ir durante as férias de Natal de 1970. Deste grupo, apenas Angus (Dominic Sessa), um aluno inteligente mas indisciplinado, marcado por questões familiares complexas, permanece. A eles junta-se Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph), uma cozinheira de lutopelo seu filho, levado pela guerra do Vietname.
Alexander Payne, o diretor, não pretende apenas contar a história destas três personagens, tenciona reproduzir até ao mínimo detalhe a estética dos filmes dos anos 70, o que faz com perfeita destreza. Simula assim, as suas características, tais como as do formato 35 mm, através da sua granulação e das cores, replicando o som monaural com os seus característicos cortes de frequência.
A particularidade de “The Holdovers” não se encontra apenas na sua estética, encontra-se também na atuação dos atores que trouxeram à vida estes personagens tão esquecidos, de uma forma realista e sentimental, realçando a solidão, intensificada pelo Natal.
A relação das personagens, no início, é marcada pela desobediência e incompreensão. Com o passar do tempo, vão-se entendendo melhor e, com isso, vão-se ajudando mutuamente, o que lhes permite encontrar o amor e carinho por que tanto ansiavam. Este desenvolvimento acontece de forma leve e natural, devido não só ao roteiro bem construído, mas também da química entre os três atores, que se complementam em cada cena.
Por mais que esta história se desenrole nos anos 70, é sem dúvida uma reflexão do presente, como o próprio professor (Paul Giamatti) afirma: “If you really want to understand the present or yourself, you must begin in the past (…) history is not simply the study of the past. It is an explanation of the present.”. Revela-nos o quanto o passado influencia o presente, e como cada um de nós deverá olhar para ele, de forma a não cairmos nos mesmos erros. Esta foi das frases que mais me impactou em todo o filme, pela lição tão atemporal que traz consigo.
No final, trata-se de um filme que oferece esperança a quem atravessa momentos difíceis, dando voz e espaço às suas personagens para que cresçam e ganhem verdadeira profundidade. Apesar de partir de uma premissa familiar, a história ganha nova vida através da escrita cuidada e das interpretações sensíveis. É um filme para quem, como eu, está predisposto a adorar histórias sobre conexões humanas inesperadas.