Ossos

Ossos

Pedro Costa · 1997

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Abril de 2026

No cinema português, por vezes é difícil distinguir quando um filme é lacónico na produção por falta de meios ou por escolha artística. Temos exemplos como o polémico “Branca de Neve” de João César Monteiro, que, apesar de financeiramente capaz, escolheu a exclusividade. Para contexto, César Monteiro recebeu uma ajuda considerável para fazer o filme do instituto de cinema e audiovisual. Filme que acabou por ser uma leitura de um texto sobre uma tela permanentemente preta. Na realidade, acho muito interessante ver as reações das pessoas à estreia deste filme. O que surge neste âmbito, na estreia de uma ambiciosa peça de uma arte relativamente nova na nossa praça, é uma espécie de situação “O Rei vai nu”, em que, pessoas que não querem dar a parecer que não perceberam o filme, o exaltam como uma peça incompreendida de um génio perturbado. Já outros com a sua ingenuidade infantil dizem exatamente aquilo que acham, “Não gostei”.

Não há problema nenhum em assumir que os filmes têm uma vertente comercial por alguma razão. As pessoas, por natureza, tendem a romantizar a sua vida, pela que a romantização na tela nos faz sentido. Identificamo-nos com as narrativas comerciais, e gostamos de ver atuações expressivas. Isto tudo para dizer que não tenho apreço especial a um filme apenas por ser alternativo. Palavra que, certamente usaria para descrever “Ossos”

Dirigido por Pedro Costa, este é o primeiro filme da trilogia “Letters From Fontainhas”, em nada semelhante à trilogia “Senhor dos Anéis”. A história segue três jovens moradores do bairro das Fontainhas, enquanto eles deambulam por becos estreitos e olham fixamente para paredes em decomposição. Se fossemos a colocar a narrativa num frasco, poderíamos dizer que se trata de um filme onde Tina, uma jovem suicida, deixa o seu filho a cuidado do pai, uma personagem a quem nunca é dada nome, que faz o que pode para manter o seu filho vivo, ainda que ele tenha alguma dificuldade a sustentar-se a si próprio. Deste vetor há certas peças que se movem, o pai conhece personagens que eventualmente convergem com moradores do bairro aos quais já tínhamos sido apresentados, ainda que não por palavras. Na realidade essa é a grande característica do filme, é silencioso. Silencioso e escuro. Normalmente, sou da opinião de que se um filme não comunica por palavras, deve ser visualmente interessante. “Ossos” não é propriamente nenhuma obra dramática de requinte, mas tem os seus momentos. O filme tem um vulto de intriga sobre ele, potenciado pelo silêncio e pela paleta escura. Quem são estas pessoas e qual é a natureza da sua relação? Perguntas que pairam sobre o espectador em cenas onde elas olham uma para as outras e riem-se, como se tivessem uma piada interna da qual Pedro Costa decide não nos colocar a par. Ou olham uns para os outros com preocupação, ficando nós a perguntar se estas pessoas têm mesmo alguma cumplicidade, ou, se apenas fazem umas às outras menos sozinhas.

As atuações são minimalistas, mas, há momentos em que os atores conseguem queimar uma imagem na nossa memória, com expressões faciais intensas, muito fruto também de se tratar de pessoas ainda que bem-parecidas, com uma certa melancolia anexa ao seu rosto, muito provavelmente escolha artística de Pedro Costa.

Por mais que rejeite o snobismo cinéfilo, dou valor a filmes como “Ossos”, que, mais do que ser divertido, é interessante. Não é uma falta de esforço disfarçada de arte, o filme tem uma identidade, tem um visual, e cabe-nos a nós fazer daquelas imagens a história que mais nos agrada.