“Pink Floyd: The Wall” – o álbum que quis ser filme
Pink Floyd: The Wall
Alan Parker · 1982
Crítica de Francisco Queiroga
Review exclusiva do site, publicada em Maio de 2025
Em 1977, durante a Animals Tour dos Pink Floyd, o vocalista e cara da icónica banda dos anos 70, Roger Waters, encontrava-se num ponto máximo de saturação, não aguentava o seu próprio público, não suportava os gritos a apelar as músicas mais conhecidas, as rixas entre espectadores, o atirar de copos de bebida para o palco como protesto. Inebriado pela raiva, Waters quebrou completamente e, aproximando-se de um fã especialmente irritado, cuspiu-lhe na cara. Este ato marcou todo o resto da atuação, baixando a moral da banda e levando o vocalista a uma nova realização, um novo desejo, a vontade de erguer entre si e o público um alto muro.
Pink Floyd: The Wall surge como uma das materializações deste devaneio de Waters, que, após refletir sobre o caminho que a sua própria arte o estava a levar, entra numa viagem introspectiva sobre como ele próprio sente um muro dentro de si, um muro construído tijolo a tijolo por todos os problemas que enfrentou, seja a morte do pai, os professores abusivos ou mesmo o peso de ser a estrela ascendente que se tornou. O projeto teve três vertentes idealizadas, o famoso álbum, os concertos ao vivo e o mais controverso, o filme.
A ambição de Waters de entrar neste meio é louvável, sentia a necessidade de contar uma história, não exatamente a sua mas a de Pink, a personagem principal do enredo. Um artista em ascenção que é progressivamente derrubado pelo peso da sua existência, Pink é arrastado por todos os seus traumas, que em quase na sua totalidade se assemelham às vivências do autor, para uma existência dormente e desapaixonada com tudo o que o rodeia e um dia moveu.
Durante o processo criativo, o projeto teve vários percalços que envenenaram o produto final estruturalmente. Desde lesões graves do ator principal, Bob Geldof, durante as filmagens e até questões de gravações em piscinas quando o próprio admitia não saber nadar, a rixas criadas por extras em algumas cenas, o filme tornou-se um mar de problemas em quase todos as suas frentes. Além de problemas no set, o próprio diretor Alan Parker enfrentava todos estes e o mais temível de todos, as ideais de Waters. Ambos chocavam frequentemente relativamente a certos aspetos artísticos do projeto, desde cenários ao próprio guião. Com todo o stress, Alan Parker acabou por desenvolver um hábito de chain-smoking para tentar lidar com todos os problemas e, inevitavelmente, Waters foi acompanhado a abandonar o set de filmagens durante algum tempo.
Todos estes fatores seriam a receita perfeita para o pior filme do século, no entanto, no meio de todas as adversidades que surgiram ao longo do seu processo, Parker e Waters entregam um filme com um tom definitivamente pesado e que o sabe ser. A história acaba por explorar, muitas vezes de forma abstrata, as vicissitudes e vícios de se ser humano. Aborda os traumas do protagonista como verdadeiros tijolos deste seu muro emocional com que o espectador se consegue relacionar e não tem medo de embarcar Pink para o pior cenário possível, relembrando que nem todos temos finais felizes. Embora sofra dos seus defeitos cinematográficos e, por vezes, uma certa altivez artística, característica de um músico como Roger Waters, “Pink Floyd: The Wall” é uma experiência única e arriscada, que pode agradar não só a grandes fãs da banda, como aqueles que apreciam o tipo de cinema que nem sempre segue as regras de Hollywood.