Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó
Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó
Manuel Pureza · 2023
Crítica de Natan Melo e Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Abril de 2026
Nesse mês de abril, temos feito reviews apenas de filmes portugueses, e o que poderia ser melhor do que um brasileiro e uma portuguesa a ver uma típica comédia portuguesa? Isto mesmo, essa é a primeira review feita em dupla pela FINK, o que poderia dar errado?
Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó é um filme relativamente recente, de 2023, que segue a família Bourbon de Linhaça e o seu precioso colar, que tem estado na família por mais de 3500 anos, trazendo consigo segredos, maldições e muitos mitos.
Eu, Sofia, como portuguesa, acompanhei as duas temporadas da série. “O Mistério do Colar de São Caju” nasce de um fenómeno televisivo inesperado: uma sátira afiada e surpreendentemente sofisticada à novela portuguesa, sendo, ao mesmo tempo, uma novela portuguesa. A primeira temporada foi, sem exagero, uma pequena revolução para Portugal, um raro avistamento de boa escrita, de boas atuações, e de um bom conceito neste país. A segunda temporada já teve algumas marcas de desgaste, com o humor a cair um pouco por terra e a premissa a perder o seu sentido. Já eu, Natan, nunca nem tinha ouvido falar sobre este universo, então essa foi uma experiência um tanto quanto interessante de se vivenciar.
O filme, infelizmente, seguiu o rumo da segunda temporada. A longa-metragem acabou por ser uma grande coleção de sketches ligados por uma narrativa praticamente inexistente, preguiçosa, que às vezes só serve para justificar a próxima piada. Na verdade, basicamente nem há um plot porque o filme está tão coberto de subplots que a história principal fica desaparecida no meio. No entanto, é, de todas as formas, um exercício de fan service, que consegue ser eficaz em momentos isolados, mas acaba por se sentir vazio como obra autónoma. Então, neste caso, acaba por agradar mais apenas àqueles que já estavam mais familiarizados com os personagens, não sendo muito apelativo ao restante do público.
A nível visual, eu (Natan) achei bem simples e até… fraco? Há alguns efeitos que são mal utilizados e movimentações e enquadramentos de câmara bem questionáveis. Podem dizer que foi feito de forma errada de propósito, como se fosse parte da piada, mas eu não acredito. Já para mim (Sofia), acredito que há alguns altos, mas também muita pobreza. Temos cenários lindíssimos no início, e uma certa exploração interessante de ângulos de câmera, com as inúmeras referências a outros grandes projetos do cinema. No entanto, quando o filme assume a época da atualidade, cai também no clássico plano televisivo, sem movimento, o que dura por praticamente o filme inteiro.
Ainda assim, nem tudo falha. O filme é inteiramente de comédia, sendo o humor um destes pontos positivos, especialmente no início quando ainda é fresco. Porém, mesmo havendo boas piadas, por vezes há tantas umas seguidas das outras ou a repetição excessiva de uma mesma piada, que simplesmente tira toda a graça da situação. O elenco também mantém a sua qualidade desde o primeiro episódio. Há momentos neste filme que relembram o grande potencial do auge da série, e é uma pena que não seja tudo o que poderia ter sido. Consideramos que o maior equívoco aqui foi precisamente que um filme não é televisão. Podem ser ambos meios visuais, mas a linguagem usada é totalmente diferente, e não chega um orçamento e duração maiores para fazer a transição. Um filme tem que ter começo, meio e fim, tem que ter uma linha de acontecimentos que prendam o espectador na obra. Mas aqui, falta ritmo, construção narrativa, clímax, e o filme fica completamente cansado no último ato, parecendo não ter mais fim, quando a história não anda adiante e as piadas já se tornam saturadas. Acaba por ser mais um episódio muito, muito longo e interminável.
Mesmo com todos os seus problemas, é impossível odiar as duas horas aqui passadas. Há obviamente um amor muito forte por estes personagens, atores e história. Vê-se claramente que este filme foi feito com compaixão e feito por portugueses para portugueses. O filme funciona como uma prequela, e a sua linha mais interessante é sem sombra de dúvidas as origens dadas à ovelha negra da família dos Bourbon de Linhaça, Simão. A sua transformação do bem para o mal, moldada pelo mundo à sua volta é um comentário muito fixe e uma camada engraçada ao cliché dos betos. Claro que não estamos a falar sobre a invenção da roda aqui, mas é um filme que tenta ser criativo e divertido na medida do possível e no final das contas… consegue.