Recordações da casa amarela

Recordações da Casa Amarela

João César Monteiro · 1989

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Abril de 2026

João César Monteiro caracteriza-se, involuntariamente, por uma certa ambiguidade artística. Enquanto para uns representa o problema elitista da arte, para outros revela-se um génio nacional, conduzindo valentemente o cinema português pela selva do obsoleto.

“Recordações da casa amarela” apresentando-se como “Magnum opus” da personalidade, retrata a profunda desconexão entre a fauna e flora da civilização lisboeta. Por um lado, um povo ainda arcaico, rude, na procura da simbiose com as elites avassaladas, e por outro, uma Lisboa meiga, perdida nas suas convenções modestas, acolhendo quem permite ser abraçado pela mística do seu desconhecido.

Ao longo do filme, acompanhamos João de Deus, alter ego do realizador João César Monteiro, representado pelo próprio. Tímido e acanhado, porém, “very British”, seguimos o seu deambular pelas ruas de Lisboa, onde, juntamente com o humor sádico que o filme mastiga, observamos, lentamente, o sucumbir à loucura.

João de Deus, incapaz de decidir se é recluso ou acolhido da cidade, pratica o silêncio como forma de descanso da maçante realidade onde reside. Saudosista no seu verdadeiro ser, pouco ou nada faz, na verdadeira essência do termo. Aparecendo, primeiramente, de forma “doente” (com fortes queixas na sua região “horticular”), de seguida, apaixonado, pela ideia do feminismo angelical e por fim, como reencarnação simbólica da conexão entre o grotesco e o ridículo, acabando desorientado, mas no mesmo sítio.

João César Monteiro, na criação artística do personagem, para além de força motriz no avançar do filme, opta por estruturá-lo como um manifesto. Esta personagem obsessiva, pretensiosa, e, sobretudo, deslocada auxilia a crítica aos temas centrais do filme, a moralidade frágil da burguesia e o desejo como forma de repressão. Enquanto no primeiro João de Deus condena a vassalagem eterna à efemeridade do outrora “barroco”, este vê-se refém do erotismo com que convive diariamente. O desejo pelo sentimento maternal vive idealizado na cabeça deste, antagonizando com a frieza que consome na sua realidade.

Fotograficamente simples, mas completo. Longas paisagens de uma Lisboa desnuda, admitindo que é na alma onde está a beleza.  Vemos pessoas, o pulsar da cidade e onde reside a sua verdadeira essência que, alimentada com as composições mordazes de Vivaldi, cultiva uma atmosfera de um reencontro cíclico entre a depressão e o êxtase.

Chocante e enigmático, “Recordações de uma casa amarela” retrata a dicotomia que, ainda hoje, se faz sentir na individualidade de cada um. O olhar de indiferença floresce no vaso que escondemos na sombra, apoderando-se, lentamente, do todo. Assim, entre as limitações da minha ignorância, tento incorporar aquilo que o filme convida a fazer: fugir dos rótulos e exibir a alma, mesmo que esta seja uma verdadeira besta quadrada.