Restos do Vento (2022)

Restos do Vento

Tiago Guedes · 2022

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Abril de 2026

Numa entrevista para o Expresso, o realizador de “Restos do Vento”, Tiago Guedes, revelou que o seu co-autor, Tiago Rodrigues, começou por desenvolver muitos dos diálogos iniciais “a partir de uma história verídica” de “alguém que (…) ficou à toa, para sempre alheado do mundo”, o que a meu ver, destaca a significância desta história, que retrata o abandono, a violência, e a tradição como instrumento de dominação, desenterrando temas frequentemente esquecidos.

O filme começa por nos apresentar a uma certa tradição popular semi-pagã, do interior do país, caracterizada pelo uso de máscaras que escondem o rosto de quem as usa. Este ritual, marca a passagem dos jovens à vida adulta, e consiste na perseguição das raparigas da Vila para as libertar das ideias que o “vento” possa ter trazido.

Nesse fatídico dia, após terem sido humilhados por um dos homens da Vila, como parte da tradição, vão atrás de Judite (Isabel Abreu) que estava assustada e a gritar por ajuda, mas apenas um destes rapazes se opõe e afasta-os dela, Laureano (Albano Jerónimo). 

Contudo, após este ato nobre, Laureano é espancado pelos outros jovens. Este é o momento que acabará por marcar o tom do resto do filme, em que a pressão social predomina, e onde se marginaliza aqueles que não cumprem a tradição.

Logo a seguir, somos transportados para exatamente 25 anos depois dos acontecimentos, onde todos aparentam ter seguido com as suas vidas, sem qualquer punição, exceto Laureano, que ficou preso no tempo e é descrito como o louco da Vila. Cada um deles construiu família, e agora quem corre pelas ruas são os seus filhos, com maior destaque para Salomé (Leonor Vasconcelos), a filha de Judite. Durante a noite da festa, o passado  volta a assombrar; um crime terá de ser resolvido e a tragédia será inevitável.

Laureano passa os seus dias a vaguear, acompanhado pela sua matilha de cães de rua, que, assim como ele, são vistos como parasitas. Nesta premissa, ele é muito mais do que simplesmente o louco que incomoda os habitantes; é a personificação do produto deste abuso e machismo internalizado, servindo de constante lembrança da violência e do mal que provocaram em nome da tradição, e da qual preferem enterrar em vez de enfrentar. Não posso deixar de referir a magnífica performance de Albano Jerónimo, que transmitiu a leveza e a pureza deste personagem, envolto em tanto sofrimento, de forma natural e tão bem trabalhada.

No final, temos um desfecho bastante trágico que perde um pouco do seu impacto devido à previsibilidade precoce deste enredo, o que, em parte, é culpa do pacing do filme. Uma vez que decide usar cenas mais longas, para demonstrar a calma do interior do país, contudo, fez também com que esse momento demorasse a chegar, o que poderia ter sido evitado, sem perder esta estética a que se propôs.

Foi gravado em Meimão, aldeia do concelho de Penamacor, no interior centro do país; contudo, usa uma tradição inspirada nos caretos, característicos da zona de Trás-os-Montes. Neste filme é realçada a natureza opressiva desta tradição, sendo usada para criar obediência e conformismo. Aqui representa, também, a herança de violência que é transmitida entre gerações, estando os envolvidos condenados a repetir o mesmo ciclo, que castiga as pessoas moralmente corretas e recompensa as corruptas. 

“Restos do Vento”, através da sua narrativa, revela que o problema não se encontra simplesmente na tradição, mas no contexto misógino ainda mais preponderante do interior e na falta de consciência da violência, permitindo que o mal se perpetue. Laureano, assim como afirmou o realizador, vem “pôr em causa o erro de acreditarmos que, se formos bons, se praticarmos o bem na sociedade, seremos recompensados”.