Rogue One: Uma História de Star Wars
Rogue One: Uma História de Star Wars
Gareth Edwards · 2016
Crítica de Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Julho de 2025
Com a recente conclusão de Andor, uma das mais bem sucedidas séries da franchise de Star Wars (como comprovam as suas 14 nomeações aos Emmys!), foi-me impossível não revisitar Rogue One: Uma História de Star Wars, o filme que nos introduziu aos mais escurecidos e desesperados cantos da rebelião, e em que conhecemos a figura de Cassian Andor. Aproveito, aqui, para informar que esta review tem spoilers ligeiros.
Lançado a 13 de dezembro de 2016, Rogue One serve como uma prequela ao Episódio IV: Uma Nova Esperança, terminando 5 minutos antes do seu início. Ainda assim, nada têm a ver um com o outro (exceto, obviamente, a sua ligação narrativa). Desde os seus primeiros segundos, Rogue One deixa claro que está a jogar com regras diferentes: não temos um crawl de abertura, porque este não é um episódio de Star Wars, mas uma “História” (como nos dizem no título).
Neste filme, a Força está presente, pois existe em tudo o que é vivo, mas é distante e quase irrelevante. Aliás, um dos maiores méritos do filme é precisamente o seu realismo brutal, mesmo passando-se numa galáxia muito muito longínqua. Rogue One distancia-se quase completamente dos Jedi e do Sith e dá o foco aos rebeldes mais desesperados, sem “poderes especiais”, esgotados, mas que se mantêm vivos, e que estão dispostos a morrer por aquele último fio de esperança. Aqui conhecemos espiões, mercenários, piratas, e gente que fez muito de mau por uma boa causa.
Esta história de Star Wars segue em particular Jyn Erso (Felicity Jones), filha biológica do engenheiro-chefe da Estrela da Morte, Galen Erso (Mads Mikkelsen), e filha adotada de Saw Guerrera (Forest Whitaker), um dos líderes mais extremistas da rebelião. Aqui, ela é puxada para uma missão desesperada para roubar os planos da Estrela da Morte, sendo acompanhada pelo Capitão Andor (Diego Luna), pelo guerreiro cego Chirrut Îmwe (Donnie Yen), pelo mercenário Baze Malbus (Wen Jiang), pelo piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed), e por K-2SO (Alan Tudyk), um droid imperial reprogramado. O seu objetivo é simples: transmitir os planos que revelam o calcanhar de Aquiles da superarma imperial, preparando o terreno para os eventos do Episódio IV.
De facto, uma das melhores contribuições de Rogue One para Uma Nova Esperança é como retroativamente redime o que é considerada a maior falha do filme de 1977: a extremamente conveniente fraqueza da Estrela da Morte. O que era uma facilitação da história e dos heróis tornou-se num ato intencional de sabotagem, reforçando a tão dita frase “Eu tenho amigos em todo o lado” de Andor. Considero mesmo que Rogue One fez pelo quarto episódio o que The Clone Wars fez por “A Vingança dos Sith”, ampliando o peso emocional da história, e alterando a narrativa para uma vitória graças ao sacrifício de todos os rebeldes, em vez da pura sorte de Luke Skywalker.
Transitando para o por trás das cenas, há que elogiar o realizador, Gareth Edwards, que comprova aqui o seu passado como artista de efeitos visuais. As sequências de combate, tanto no solo como no espaço, estão entre as melhores da franquia, e o realizador faz mesmo parecer fácil o uso deste tipo de efeitos. No entanto, há um tropeço recorrente da Disney que aqui se repete, já que parece insistir em recriar digitalmente atores já falecidos ou indisponíveis para as idades dos personagens em vez de recorrer a novos intérpretes. Por causa disto, tivemos de lidar com um Almirante Tarkin e uma Princesa Leia de borracha, sem uma expressão coerente, que me retiraram completamente das suas respetivas cenas.
Infelizmente, onde Edwards acertou em cinematografia e imagem, errou na escrita. Em especial, agora comparando a história e os personagens de Rogue One com os de Andor, vemos personagens muito menos desenvolvidas, e um ritmo esquisito. O primeiro ato é uma confusão. Introduzir um tão grande grupo de personagens não é fácil, claro, mas fazê-lo à pressa não foi o correto. Os personagens não tiveram a chance de nos mostrar a sua individualidade e a audiência não tem tempo de se apegar demasiado a ninguém. Pessoalmente, considero isto quase uma premonição do que virá a acontecer, o próprio filme nos está a avisar para não nos apaixonarmos, uma escolha intencional. Estas personagens não foram feitas para spin-offs e sequelas (claro que, ainda assim, existiu Andor), mas sim para uma missão, uma única história. Esta falta de profundidade dos personagens pode frustrar alguns espectadores, especialmente aqueles menos familiares com todo o lore de Star Wars, já que o filme assume uma grande quantidade de conhecimento prévio.
Nos positivos, há muito mais a falar. A presença de Darth Vader é um destaque absoluto. Apesar de ser breve, Edwards soube dirigir as suas cenas perfeitamente, sendo aquela cena final, em que primeiro vemos os rebeldes aterrorizados, depois, aquele icónico respirar, e só então ele surge, como uma sombra, um dos momentos mais exilarantes que já vivi numa sala de cinema. Esta cena encapsula uma das melhores qualidades do realizador, o seu storytelling visual. Tal como no seu filme Godzilla, nós aqui raramente vemos o “monstro”, mas sentimos sempre a sua presença, e a construção de tensão até que este apareça no ecrã é insana.
Para além da volta de James Earl Jones, as novas adições ao elenco de Star Wars foram excelentes. Tanto Diego Luna como Felicity Jones ficaram perfeitos nos seus papéis. Ainda, Whitaker e Mikkelsen, embora com pouco tempo de ecrã, deixam uma marca forte, roubando sempre a atenção das suas cenas.
O maior triunfo desta história é, como já foi mencionado, a sua temática. A forma como explora as moralidades da guerra, o desgaste emocional da luta destes personagens, e o conceito de esperança, que considero a espinha dorsal da saga, é extraordinária. A frase que Cassian diz a Jyn, “rebeliões são construídas sobre esperança” é o que transita este filme diretamente para “Uma Nova Esperança”. Para além de dar o novo peso que eu já mencionei nesta review à mensagem da Princesa Leia, ao disco que o R2 entrega à rebelião, ao destino de Luke Skywalker. Estas personagens nunca saberão da equipa desesperada que lhes permitiu o seu sucesso, e nunca precisarão de saber, porque se sacrificaram em nome das réstias de esperança a que se agarraram. A nuance humana deste filme é única no universo de Star Wars.
Ultimamente, Rogue One relembrou muitos fãs do porquê de se terem apaixonado por Star Wars, e foi uma lufada de ar fresco. Não é um filme perfeito, mas é o melhor desta nova era da Disney, e muito mais interessante politicamente do que as três sequelas à trilogia original. Para quem entra aqui “de fora” pode, no entanto, ser um filme difícil, árido, mas ainda assim visualmente fascinante e tematicamente profundo.