Suspiria

Suspiria

Luca Guadagnino · 2018

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Março de 2026

“Suspiria” de 2018, assim como o seu original de 1977, apresenta-nos a Susie Bannor, uma dançarina americana, que viaja até à Alemanha para entrar na prestigiada Academia Markos Dance Co.. Mais tarde descobrimos que esta é uma fachada para um convento de bruxas, mas em pouco mais são parecidos. Luca Guadagnino, na sua versão, procurou aprofundar este mundo criado por Dario Argento e Daria Nicolodi, ressaltando tópicos como o poder feminino através do grotesco, o abuso, e os vínculos femininos.

Nesta adaptação seguimos, em simultâneo, dois importantes pontos de vista: o do Dr. Klemperer (Tilda Swinton), um psicólogo atormentado pelo desaparecimento de sua esposa e o de Susie Bannon (Dakota Johnson), a personagem principal.

Dr. Klemperer é o psicólogo de Patricia (Chloe Grace Moretz), a dançarina que, na noite do seu desaparecimento, lhe revela a verdadeira natureza da companhia, deixando para trás o seu diário onde descreve a sua experiência e a hierarquia do convento. O mesmo torna-se o protagonista da investigação para descobrir o paradeiro da sua paciente e tentar deter aquelas mulheres de cometerem mais crimes. Entretanto,  junta-se a ele Sara Simms (Mia Goth), outra  dançarina inquietada pelo desaparecimento da sua amiga. Através destes dois personagens, vamos descobrindo mais factos perturbadores e horripilantes que se escondem por de trás da dança, sendo-nos apresentado o lado mais moral e ético da premissa.

Recém chegada a Berlim, Susie Bannon (Dakota Johnson), mesmo sem experiência na área, é aceite na Markos Dance Co. por Madame Blanc (Tilda Swinton), a coreógrafa da academia. Pouco depois de entrar na companhia, ganha o papel de destaque na coreografia intitulada Volk.

Susie sente uma ligação inexplicável àquela cidade e, mais tarde, a Volk, levando-nos inicialmente a interpretar como apenas uma paixão profunda pela dança, mas, ao desenrolar do enredo, descobrimos que não é tão simples assim. Conjuntamente, Blanc, quando observa a audição de Susie, é logo cativada, sendo o começo de uma relação interessante e complicada de descrever: envolta em desejo, respeito, fascínio, amor maternal, mas também sensual. Desde o primeiro momento tinham-se enfeitiçado uma à outra, de forma complexa e hipnotizante.

A exploração do tema da religião como um meio de manipulação também está bem desenvolvida nesta obra. Nomeadamente, no convento das bruxas, onde nos é apresentada Markos (Tilda Swinton), que afirma ser uma das três líderes da religião, Madre Suspiriorum (Madre Tenebrarum, Madre Lachrymarum e Madre Suspiriorum representam, respetivamente, a escuridão, as lágrimas e os suspiros), de forma a controlar as restantes bruxas, conseguindo manter-se no poder e, viver por mais tempo, apoderando-se do corpo de jovens que ela ditasse como dignas. 

Além disso, faz-se uso do contexto histórico dos anos 70, através da parede que divide a cidade. Uma vez que o edifício está voltado para o muro, acaba por limitar a nossa visão, a fim de prender a nossa atenção no mesmo e ajudar a criar a mensagem de que não há escapatória daquele local. Ao criar este ambiente claustrofóbico, juntamente com as restantes imagens perturbadoras apresentadas, está instalada a forma perfeita de explorar o poder, a sexualidade feminina e este convento, ligado por vínculos profundos e sangrentos.

Madame Blanc, Mãe Markos e Dr. Klemperer têm todos uma coisa em comum: Tilda Swinton, que dá vida a estes três personagens aparentemente diferentes. Numa entrevista, Guadagnino revelou que via os 3 personagens como parte de apenas um ser, fazendo uso da teoria do psicanalista Freud: via Markos como o id, a parte da mente guiada pelo instinto e os prazeres carnais; a Madame Blanc como o ego, a parte que balanceia os prazeres carnais com a moralidade do mundo; e o Dr.Klemperer como o superego, a parte da mente que é moral, de acordo com a sociedade. Tendo, uma mulher no papel do único homem com destaque, o diretor deixou clara a sua intenção da exploração do feminino, garantindo, como o próprio disse, que haveria sempre um elemento de feminilidade no seu cerne (“there will always be this element of femininity at its core”)

Contudo, por mais que tenha gostado bastante da forma como aborda o tema, ainda me deixa a questionar, até que ponto esta tese faz sentido. O filme é sobre mulheres e sobre o que engloba o ser feminino, mas os grandes orquestradores desta obra são homens, o que, a meu ver, é contraditório.

Por fim, é uma obra impactante, onde os elementos de terror têm um propósito que vai além da capacidade de chocar. Através destes, é possível ter uma ideia visceral da grande temática do filme: as mulheres, onde testemunhamos desde os seus maiores medos até às suas conexões mais íntimas. Com certeza não é para todos os públicos, pela forma arrojada que decide explorar esta história, ainda assim, é uma experiência bela, nojenta e, sobretudo, artística.