Wicked: Pelo Bem

Wicked: For Good

John M. Chu · 2025

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Novembro de 2025

“Because I knew you, I have been changed for good”

Depois de um ano de espera – e de aproximadamente cinco entre os dois atos – finalmente temos connosco Wicked: For Good. Este filme é de uma estranha dificuldade a avaliar. Por ter sido gravado ao mesmo tempo que o seu “irmão”, não há muito de novo a apontar a nível técnico, restando-me pouco a dizer que não tenha afirmado na crítica do anterior.

Mais uma vez, somos presenteados com cenas deslumbrantes. Diria até que esta segunda parte nos oferece alguns dos shots mais impressionantes e verdadeiramente magníficos de todo o projeto, como o castelo de Elphaba ou a criação do “espantalho”. A colorização é lindíssima. Jon M. Chu conseguiu, com enorme sensibilidade, navegar a linha entre o overwhelming e o colorido exuberante que define o universo de Wicked.

No que toca ao guarda-roupa, nem todas as escolhas me convenceram, especialmente no caso de Madame Morrible. Ainda assim, os vestidos de Glinda e de Elphaba são absolutamente deslumbrantes. A caracterização desta última está muito bem feita – tendo-se passado cinco anos entre os atos, mas não entre gravações, é possível identificá-la como mais velha e cansada, o que acrescenta profundidade à personagem. Tentando evitar spoilers, preciso ainda de elogiar a construção do Homem de Lata, que está verdadeiramente incrível, e é uma bonita referência à forma como foi feita em O Feiticeiro de Oz.

As atuações mantêm-se irrepreensíveis, se não ainda melhores. É evidente que Cynthia Erivo (Elphaba) e Ariana Grande (Glinda) compreendem perfeitamente as suas personagens, entregando interpretações sólidas, emocionalmente impactantes, e afirmando-se, possivelmente, como as melhores encarnações das duas mulheres até à data.

Desta vez, quem mais me surpreendeu foram Ethan Slater, no papel de Boq, e Jonathan Bailey, como Fiyero, que, ao ganharem mais protagonismo, deram uma nova nuance aos personagens. Por outro lado, acabei por considerar Michelle Yeoh uma escolha errada para Madame Morrible, sendo ela o elo mais fraco do elenco principal.

Este filme, novamente, é muito difícil de avaliar, não por um nível de complexidade extremo, mas pelo facto de já conhecer a sua história há bastante tempo. Na minha review do primeiro filme comecei por mencionar que nunca fui cativada por este universo, e tal prende-se sobretudo com o enredo do musical.

O Ato Dois de Wicked sempre foi significativamente mais fraco, convoluto, e confuso do que o primeiro, sendo isto algo amplamente referido na comunidade de teatro musical. Sendo esta uma história de 2004, isto é um aspeto que já tinha processado há muito tempo. Assim, cheguei ao cinema no dia da estreia apenas com expectativas positivas, ansiosa para rever Grande e Erivo, e ouvir o soundtrack de Wicked no grande ecrã, consciente de que não havia forma de o filme ser pior do que o material original.

As melhorias à narrativa em si foram poucas, mas relevantes. A hora extra face ao musical base está, desta vez, melhor aproveitada do que na parte um. Os meus problemas com o pacing e filler do filme anterior aqui não são tão evidentes. Destaco positivamente o desenvolvimento do tema da propaganda, os novos momentos musicais, e a riqueza das paisagens cénicas. Com toda a sinceridade, acabo por considerar o enredo de For Good mais interessante do que o do ato anterior – menos cliché, menos previsível e mais estimulante.

Onde o Ato Um vence é nas músicas. Não há nada em “For Good” que consiga superar “Defying Gravity”, a canção mais icónica do teatro musical. Ainda assim, é praticamente desnecessário dizer que Ariana e Cynthia entregam performances de arrepiar os pelos dos braços. É, aqui, clara a sua escolha para estes papéis. Destaco “Wonderful”, a reprise de “I’m Not That Girl”, “As Long as You’re Mine”, “No Good Deed”, e claro, o finale que dá nome ao filme, “For Good”.

Foram, ainda, acrescentados dois novos números, um para cada protagonista. Também estes revelaram-se escolhas acertadas – “The Girl in the Bubble” era absolutamente necessário para demonstrar a mudança de Glinda, algo em que o musical em palco consegue falhar dependendo da atriz, e “No Place Like Home” em muito ajuda a desenvolver o tópico dos animais e da complexidade do problema moral que move Elphaba.

No final, digo que Wicked: For Good, e Wicked, funcionam precisamente porque foram amados, tanto por quem trabalhou neles como por quem os vive no ecrã. Com todas as suas falhas, o musical de 2004 perdura, sendo já o quarto longest-running musical na Broadway. Isto acontece porque, para além de ter números musicais fantásticos e inesquecíveis, é uma história poderosa de resiliência, identidade, e amizade, com a qual muitos se identificam. Os dois filmes triunfam por terem conseguido melhorar os seus materiais base em praticamente todos os aspetos.

Assim, “goodbye, yellow brick road” (Elton John), vemo-nos na tua próxima adaptação.