A Montanha Encantada
The Enchanted Mountain
Kim Jun Ok · 2008
Crítica de Isabel Valério
Review exclusiva do site, publicada em Agosto de 2026
Há uns tempos, estava a arrumar uma caixa enorme de DVDs antigos, cheia de filmes de animação, os da Barbie, Sandokan e até Teletubbies e dos Ursinhos Carinhosos.
Alguns estavam em cassetes que provavelmente nunca mais poderei ver, porque o meu leitor avariou. Se calhar, a geração Z ainda foi uma das últimas a crescer, e não digo com cassetes, mas com prateleiras cheias de DVDs, que agora aparecem todos à venda na Vinted. Foi aí que segurei o filme “A Montanha Encantada”, que costumava ser o meu filme favorito quando era criança.
Ao ver novamente a capa, lembrei-me dele como de um sonho que temos quando estamos com febre: idílico, celestial, cheio de nuvens que parecem algodão doce evanescente e com uma história que nos prende. Foi por isso que decidi revê-lo. E comecei a vê-lo de novo e senti a mesma sensação e até, mais uma vez, queria beber água de mel dourada que parece só existir naquele filme. É um romance transcendente e místico. A história é doce e suave, quase como cobertores acabados de lavar e baunilha fresca. Tem muitos elementos de mitologia e uma trilha sonora serafínica e angelical, com coros harmoniosos. Na história existe um Reino no Céu, onde, acima das nuvens, se ergue o palácio do Imperador. As suas oito filhas vivem entre a dança, o canto e a alegria e, por vezes, descem ao mundo mortal para conhecer as montanhas verdejantes e banharem-se nos seus charcos. Para descerem, levam consigo um acessório: um lenço branco-transparente que prendem aos braços e que as levita, como asas. Um dia, uma delas, Aarang, perde as suas asas após todas se distraírem com uma melodia e, ainda a chorar e a soluçar, quando chega a hora de recolher, as irmãs e o capitão guarda são forçados a abandoná-la nas montanhas.
Outro personagem principal é Mudal, que carrega consigo sempre a sua flauta pelas montanhas Kumgang onde cresceu e vive, do trabalho na terra, com humildade e bondade e é, também, o principal suspeito de ter roubado o lenço de Aarang.
Infelizmente, este filme é considerado uma raridade que dificilmente encontramos hoje em dia em Portugal e provavelmente na Europa.
Para quem o quiser ver hoje, dificilmente será encontrado em plataformas de streaming, embora esteja disponível completo no YouTube, ou na RTP, se voltarem a passar o filme na televisão, mas eu aconselho em DVD. Decidi tentar perceber porque era tão difícil encontrar este filme por aí, e talvez a razão tenha a ver com a origem deste filme. Vim depois a descobrir que este filme de animação foi produzido na Coreia do Norte, nos anos 2000, em parceria com uma empresa europeia. A única coisa que não me saía da cabeça é como é que isto foi possível, conhecendo o mundo apenas como o conheço hoje. Surpreendeu-me pensar que, num país tão fechado e isolado do resto do mundo, tenha existido uma produção de animação que acabou por chegar a Portugal. O que é ainda mais surpreendente é que, existe dobrado em português de Portugal, com vozes que ainda hoje me soam familiares, num sotaque português tão característico dos anos 2000, para os que acham que existe uma diferença. Atualmente, com a crescente ameaça nuclear da Coreia do Norte, cortaram cada vez mais esse tipo de conexão, pelo que hoje em dia é raríssimo este tipo de produções acontecerem. Cito uma notícia da SIC Notícias de 2024 “As sanções dos EUA proíbem quase todas as atividades comerciais entre cidadãos dos EUA e entidades norte-coreanas” e a Europa tem seguido o trajeto de reforçar sanções.
Talvez pelas memórias de infância me seja muito precioso, embora o DVD tenha alguns arranhões que travam a imagem, continua a parecer-me uma pequena pérola, sobretudo depois de descobrir o contexto em que foi produzido. É um filme para todas as idades e bastante diferente da oferta europeia tradicional. Não é apenas um filme para ver quando estamos aborrecidos, mas para nos transportar para outro lugar e senti-lo.