De Olhos Bem Fechados
Eyes Wide Shut
Stanley Kubrick · 1999
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em Fevereiro de 2026
Realizado por Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados” é um drama psicológico que mergulha nas zonas mais delicadas do desejo, da intimidade e da imaginação. Foi o último filme de Kubrick, e carrega consigo aquela precisão formal e frieza calculada que caracteriza todas as suas obras.
O filme acompanha um casal aparentemente estável cuja relação é subtilmente abalada por uma conversa que expõe fragilidades até então invisíveis. A partir daí, a história transforma-se numa exploração intensa da fantasia, do ciúme e da insegurança.
Kubrick constrói o filme com um rigor hipnótico. Os movimentos de câmara são lentos e calculados, os enquadramentos são simétricos e a iluminação cria uma atmosfera que oscila entre o íntimo e o inquietante. Há algo de artificial nos espaços e nas cores: é como se o mundo retratado fosse ligeiramente deslocado da realidade. Essa sensação contribui para a ideia central do filme: a fronteira entre o que é real e o que é projetado pela mente pode ser mais frágil do que pensamos. A narrativa desenrola-se como um sonho (ou talvez como um pesadelo disfarçado) onde cada encontro parece carregar um significado simbólico.
Tom Cruise entrega uma interpretação marcada pela contenção enquanto William Hardford. A sua personagem é segura de si, racional e aparentemente confiante, mas ao longo do filme essa segurança é progressivamente posta à prova. A atuação funciona precisamente porque evita exageros: as emoções são internas, contidas, muitas vezes reveladas apenas pelo olhar.
Nicole Kidman, no seu papel de Alice Hardford, oferece uma presença intensa e emocionalmente complexa. A sua interpretação equilibra vulnerabilidade e firmeza, trazendo profundidade às reflexões sobre desejo e intimidade. Mesmo nos momentos mais silenciosos, a sua expressão transmite camadas de significado.
Existe uma química clara entre o casal (que se deve em parte ao facto de, na época, os atores serem casados na vida real), essencial para que o filme funcione, já que o núcleo da obra está precisamente na dinâmica do casal.
Por sua vez, a trilha sonora composta por Jocelyn Pook desempenha um papel fundamental: um tema minimalista de piano repete-se ao longo do filme, criando uma sensação persistente de tensão. Em determinados momentos, a trilha assume um tom quase ritualístico e satânico, reforçando a ideia de que estamos a entrar num território desconhecido e simbólico. O som contribui substancialmente para a atmosfera de mistério.
“De Olhos Bem Fechados” não é, então, apenas um drama conjugal. É uma reflexão sobre o impacto da imaginação na vida real, a fragilidade do orgulho, a distância entre fantasia e realidade e a dificuldade de comunicar desejos. O filme sugere que, muitas vezes, as maiores crises não nascem de acontecimentos concretos, mas daquilo que projetamos na nossa mente: a fantasia pode ser libertadora, mas também pode tornar-se numa armadilha. Sem recorrer a grandes reviravoltas narrativas, Kubrick constrói uma experiência que convida o espectador a questionar até que ponto estamos verdadeiramente conscientes dos nossos próprios desejos, e até onde estamos dispostos a ir para os satisfazer.
Apesar de muitas vezes ser apontado como um filme satânico e “do diabo”, essas teorias podem ser facilmente refutadas através de olhos mais atentos, uma vez que Kubrick usa a iconografia do satanismo não como afirmação literal, mas como ferramenta estética e simbólica para representar a corrupção moral e o poder oculto das elites. Os rituais funcionam menos como cultos ao diabo e mais como uma metáfora da desumanização e da hierarquia invisível que rege a sociedade.
“De Olhos Bem Fechados” é um filme exigente, lento, atmosférico e profundamente psicológico. É um filme que não termina quando surgem os créditos, uma vez que se instala na mente do espetador; não procura chocar de forma imediata, mas sim infiltrar-se lentamente na nossa perceção do desejo, da intimidade e da confiança. Kubrick não nos oferece respostas, oferece-nos um espelho. E o verdadeiro desconforto não vem do que vemos no ecrã, mas do que reconhecemos em nós próprios depois de o ver.