Filadélfia
Philadelphia
Jonathan Demme · 1993
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em July 2026
Lançado no final de 1993, Filadélfia não é apenas um marco do cinema dos anos 90: é um divisor de águas cultural. Dirigido por Jonathan Demme, o filme foi uma das primeiras grandes produções de Hollywood a enfrentar diretamente a epidemia de HIV/SIDA e a homofobia, levando um tema até então marginalizado e envolto em preconceito para o grande público.
No início dos anos 90, o diagnóstico de HIV era praticamente uma sentença de morte, cercado por desinformação, medo e um silêncio cruel por parte das grandes instituições e da população em geral. Assim, ao colocar um homem homossexual e soropositivo no centro da narrativa de um grande estúdio, Filadélfia serviu para derrubar barreiras que na altura não eram corretamente discutidas. O filme humanizou a crise da SIDA para milhões de pessoas que preferiam ignorá-la e expôs como o preconceito institucionalizado operava no mundo corporativo, usando o tribunal como uma metáfora para o julgamento moral que a própria sociedade fazia com as vítimas da doença.
A narrativa acompanha a queda e a luta de Andrew Beckett (representado por Tom Hanks, na atuação que resultou no seu primeiro Oscar), um brilhante e promissor advogado despedido de uma prestigiada firma sob o falso pretexto de incompetência, após os sócios descobrirem secretamente a sua orientação sexual e o seu diagnóstico de SIDA. Determinado a provar a discriminação, Andrew decide processar os antigos chefes, mas depara-se com a rejeição de dezenas de advogados que temem o estigma da doença e a reputação negativa que o caso poderá acarretar. É aí que o seu caminho se cruza com o de Joe Miller (Denzel Washington), um advogado de pequenas causas que inicialmente hesita em aceitar o caso devido aos seus próprios preconceitos. O impacto do filme apoia-se inteiramente na química e no contraste entre estes dois protagonistas: enquanto Hanks se entrega física e emocionalmente para mostrar a deterioração de Andrew sem perder a sua chama de dignidade, Denzel destaca-se ao não transformar Joe num vilão, mas sim num homem comum daquela época (desinformado e homofóbico), cuja jornada de desconstrução e empatia se torna no verdadeiro motor de reflexão para o espectador.
Recém-saído do sucesso estrondoso de O Silêncio dos Inocentes, o diretor Jonathan Demme usa aqui uma abordagem ainda mais humanista do que no seu último filme, recorrendo frequentemente a close-ups nas reações e expressões dos atores principais. Quando as personagens olham diretamente para nós, Demme obriga o espectador a confrontar o olhar de Andrew (a sua vulnerabilidade e a sua dor) e o olhar de Joe (as suas dúvidas e a sua mudança interna ao longo da narrativa). Não há espaço para o público se distanciar confortavelmente da história: nós fazemos parte daquele tribunal e o diretor obriga-nos a sentir na pele tudo o que o protagonista tem de enfrentar.
A banda sonora de Philadelphia é uma das mais aclamadas do cinema da década de 90, servindo como uma extensão dos sentimentos que as palavras não conseguem expressar. É importante realçar as músicas “Streets of Philadelphia” de Bruce Springsteen, que é a canção de abertura do filme (vencedora do Oscar de melhor canção original) e que capta a solidão, o vazio e a melancolia de caminhar por uma cidade que parece dar as costas à dor do protagonista; e “Philadelphia” composta e cantada por Neil Young, que encerra o filme com uma delicadeza melancólica, funcionando como uma despedida pacífica e como uma conclusão do arco de redenção do filme.
Embora a jornada de Andrew Beckett termine de forma inevitável, Filadélfia não é um filme sobre a derrota ou a decadência, mas sim uma história sobre a vitória da dignidade humana. A esperança que o filme pretende transmitir reside na capacidade de mudança das pessoas. Ela manifesta-se na transformação de Joe Miller, que passa de um advogado preconceituoso a um amigo leal que segura a mão de Andrew nos seus últimos momentos; no apoio incondicional da família de Andrew, retratando um porto seguro de amor em contraste com a hostilidade do mundo exterior; e, sobretudo, na afirmação de que a justiça e a verdade sobre quem somos merece ser defendida até ao último suspiro.
Filadélfia não termina com o peso da morte, mas com a celebração da infância e da vida de Andrew em vídeos caseiros. Desta forma, o filme deixa a mensagem de que a empatia e o amor incondicional são capazes de vencer o medo e de que nenhum direito ou dignidade deve ser retirado a alguém por causa de quem ama ou da doença que carrega