Full Metal Jacket

Full Metal Jacket

Stanley Kubrick · 1987

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Junho de 2025

Após o lançamento de filmes como “The Shining” e “The Clockwork Orange” a opinião popular quanto a Kubrick era a de que este vivia num mundo surreal. Com o seu seguinte filme, “Full Metal Jacket”, Kubrick mostra-nos que está perfeitamente consciente, muito mais que a maior parte.

Este filme sai em 1987, dois anos depois do gigantesco sucesso de “Rocky IV”. Considero isto bastante relevante. Estávamos perante um horizonte cultural onde os filmes serviam principalmente para exaltar a sociedade americana, normalizar o conflito e desumanizar o inimigo. Durante as filmagens do seu anterior filme, “The Shining” , Kubrick disse a Jack Nicholson que o seu objetivo não era “fotografar a realidade, mas sim fotografar a fotografia da realidade”. Não estão em causa as falácias morais da guerra. Está em causa a sua falta de significado e o significado bacoco que as pessoas encontram nela, através da própria forma de expressão que Kubrick usa – os filmes.

Podemos dividir “Full Metal Jacket” em duas partes. A primeira durante o recrutamento e a segunda já no Vietnam. Vemos a ação pelos olhos do praça James Davis, ou “Joker”, como é apelidado. Joker mostra-se cínico quanto à pátria, religião, e quanto à própria guerra, detalhe que o faz sobressair.

A primeira parte é, sem dúvida, o trunfo do filme. A dinâmica entre o sargento Hartman e o pelotão cria diálogo aguçado e frio. Prevalece sempre um clima de cortar à faca, que muito se deve ao sound design. No meio desse clima tenso, estamos sempre à espera de uma variável que crie a explosão. Esta variável costuma dar pelo nome de Leonard Lawrence, ou “Pyle” como foi apelidado. Um rapaz pouco atlético e sensível que, por causa disso, é normalmente o destinatário da ira do sargento. Pyle acaba por ser posto debaixo da asa de Joker, que se mostra, até certo ponto, disponível a ajudá-lo. 

Durante a duração desta primeira hora, o objeto da desumanização não são os vietnamitas, mas sim os soldados americanos. Os cânticos que repetem exaustivamente sublinham a sua devoção à pátria, referem-se a si mesmos como “ferramentas” e como sendo inúteis sem a sua semiautomática. Durante o dia vemos o seu treino infernal. Durante a noite, a sua descida lenta até a loucura, até à perda do sentido de identidade. Pyle, pela sua sensibilidade e eventual isolamento dos colegas, é aquele onde a perda de humanidade é mais visível. 

Já no Vietnam, Joker trabalha agora como jornalista de guerra, com a função de fotografar e entrevistar os restantes soldados, algo que sublinha mais uma vez a diferença entre si e os outros soldados, com uma vontade visceral de combater.

Dado que a primeira parte acaba por colocar Pyle no foco da ação, são dedicados uns bons vinte minutos desta segunda metade a tentar compensar pela falta de desenvolvimento que Joker teve, para que o resto do filme possa seguir suavemente pelos seus olhos. Esta é, para mim, a grande falha do filme. É um grande solavanco no seu passing e é uma decisão homóloga da direção que toma a partir daqui. Se a primeira parte era muito concentrada e tensa, a segunda é sobretudo dispersa e absurda. 

Aquando das entrevistas, os soldados americanos mostram um sentimento vazio de vitória, alguns felizes por matar, outros felizes por não terem morrido, muitos felizes por alastrar o controlo sobre o território, mas não pela pátria, por estarem mais próximos desse conceito abstrato de “vitória”. Neste cenário mais vasto, Kubrick representa a realidade de forma muito objetiva, uma completa distopia. A música sinistra que acompanha as filmagens parece aperceber-se disso. Os únicos que não se apercebem são os soldados, que caminham despreocupados. Este desfasamento entre o cenário e o estado anímico dos soldados mostra-nos o seu desprezo pelas vidas que tiram, pelos companheiros que perderam e o pensamento de que nunca chegará a sua vez.

“Full Metal Jacket” é um filme de ação com muitos elementos de terror psicológico, onde, ironicamente, a componente mais assustadora nunca é a guerra, mas sim o efeito que ela tem nas pessoas que a travam. Alguns enlouquecem, outros agem como se nada fosse. Fica a ideia de que mais assustador do que alguém enlouquecer, é quando o normal se torna uma loucura.