Homem-Aranha: No Aranhaverso

Spider-Man: into the spider-verse

Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman · 2018

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Agosto de 2025

Depois de fracasso atrás de fracasso, seguido de mais fracassos sem precedentes, a Sony Pictures Animation finalmente encontrou o seu rumo com a animação vencedora do Óscar: “Spider-Man: Into the Spider-Verse”. Contudo, este não foi simplesmente mais um filme qualquer. Para além de apresentar mais um herói às grandes telas de cinema, este filme também ficou muito marcado por ter revolucionado a indústria da animação.

Seguindo um estilo próprio e sem limites, Aranhaverso criou um design exclusivo ao misturar animação 2D com 3D numa taxa de frames por segundo (“fps”) menor. Assim, eles conseguiram, intencionalmente, dar uma movimentação mais “cartunesca” às suas personagens, com o intuito de emular as bandas desenhadas. Posteriormente, esta fórmula foi utilizada não só nos próximos filmes da própria Sony, mas também pela rival DreamWorks Animation (sendo, quase todos os lançamentos, sucessos entre o público e a crítica).

Desta vez, neste filme do Homem-Aranha, não acompanhamos a história do clássico Peter Parker, mas sim do jovem Miles Morales, um adolescente confuso com a vida que ainda tenta encontrar o seu lugar, mas que acaba mordido por uma aranha radioativa vendo-se obrigado a consertar os problemas do seu antecessor. No entanto, no meio dessa jornada, somos apresentados a outros “Homens-Aranha” (versões do mesmo herói que vieram de dimensões diferentes e que precisam agora de encontrar uma forma de regressarem aos seus lares).

Para mim, este filme é uma obra de arte. Sinceramente, acho que há tantas qualidades e momentos marcantes que nem sei se consigo fazer referência a todos numa única review. No entanto, começo por destacar o que, na minha visão, é o maior ponto positivo deste filme: a animação. Como já mencionei anteriormente, esta animação consegue ser totalmente única e, por isso, é inconfundível. Mas, mesmo não seguindo o estilo “clássico” de animação, toda a movimentação continua extremamente fluida e as cenas de ação são fantásticas. O filme também tem cenários belíssimos e aproveita-se dessa liberdade das bandas desenhadas para “brincar” com os espectadores, usando onomatopeias, desenhos ou até mesmo caixas de diálogo, deixando o desenho vivo e interessante.

Com relação às personagens do filme, admito que, assim como muitos, só tomei conhecimento da personagem de Miles através deste filme. Mas, mesmo assim, este é muito bem trabalhado e desenvolvido, conseguindo, de uma maneira não forçada, cativar a audiência e nos mostrar quem ele de facto é. E, se fosse apenas um ótimo protagonista, o filme já seria excelente, no entanto não terminam por aí, já que os personagens secundários também são profundos e têm os seus próprios traços característicos, como é o caso do Peter B. Parker. Tal como o próprio nome dele sugere, ele nada mais é do que uma versão “B” (ou então, inferior) do Peter Parker “original”. Esta é uma estratégia de roteiro genial, já que, mesmo não sendo a melhor versão do Peter Parker possível e estando emocionalmente desestabilizado, ele consegue funcionar como uma figura de mentor de Miles Morales, ensinando-o o que é ser um Homem-Aranha, desenvolvendo-se ele próprio nessa via de ensino de dois sentidos. 

Contudo, como todos os bons filmes de heróis, é preciso existir um bom vilão para acompanhar. E, felizmente, este é com certeza o caso. O vilão, o Rei do Crime, está perfeitamente caracterizado. Ele não é apenas uma pessoa má porque é mau, mas é mais do que isso. Ele tem propósitos, sonhos e convicções como qualquer outro indivíduo. Mesmo que a sua visão de mundo esteja deturpada, nós como público conseguimos entender e acreditar na sua motivação. Sendo assim, eu diria que ele cumpre muito bem o seu papel no filme.

Mesmo já tendo dito muita coisa, preciso ainda de citar o roteiro do filme. Acho que o mesmo funciona e é bem redondo, ou seja, não deixa quase brecha alguma (ao contrário da sua continuação). O conteúdo cómico do filme é certeiro e bem executado, não sendo “enjoativo”. O plot twist é bem feito e de certa forma inesperado. Para além disto, há várias cenas que são repetidas ou então lembradas ao longo do filme, dando-nos sinais do que pode vir a acontecer, mas também conectando momentos e dando sentido àquilo que aconteceu, como é o caso das bandas desenhadas que se vão acumulando ou às piadas recorrentes que acontecem.

Relativamente a aspetos negativos que o filme possa ter, admito que não são muitos e nem há nada que possa realmente estragar esta longa-metragem. Sim, certos personagens são mal desenvolvidos, há algumas facilitações do roteiro e há certas más decisões tomadas pelos intervenientes, mas nada é tão relevante ao ponto de ser preciso mencionar.

Então, para mim, este consegue ser um filme que atinge a nota de 9.5 de 10 e acho que é feito para todos os públicos: adultos, jovens, crianças, fãs de heróis, fãs de animação, fãs de cinema no geral e pessoas que querem apenas conhecer bons filmes para assistir num domingo à noite.