Materialists
Materialists
Celine Song · 2025
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em Junho de 2025
Celine Song afirma-se, com Materialists, como uma das vozes mais autorais da nova geração do cinema independente. Após o sucesso de Past Lives, aqui a autora mergulha num cenário urbano contemporâneo com uma abordagem igualmente intimista, mas mais irónica e estilizada. A sua direção equilibra o tom romântico com uma crítica subtil às estruturas capitalistas que moldam os relacionamentos modernos. Song evita as fórmulas convencionais da comédia romântica e prefere construir tensão emocional em diálogos longos, pausas significativas e gestos contidos.
A fotografia, assinada por Shabier Kirchner, é um dos destaques do filme. Filmado em 35mm, o visual tem uma textura analógica, suave e calorosa, que contrasta com o mundo tecnológico e calculado da profissão de Lucy. Nova Iorque é captada com uma aura melancólica, em tons quentes e composições simétricas. Os interiores são frequentemente iluminados com luz natural, o que reforça a autenticidade emocional dos momentos mais íntimos. A câmara é muitas vezes estática, observando à distância, como se o espectador fosse uma testemunha silenciosa das escolhas da protagonista.
A trama, ambientada na cidade de Nova Iorque, segue Lucy (Dakota Johnson), uma atriz fracassada que se tornou numa matchmaker de sucesso, dedicando-se a juntar casais com base em critérios objetivos — idade, altura, salário e hobbies. A sua vida profissional e pessoal é abalada quando conhece Harry (Pedro Pascal), um bilionário descrito como “o match perfeito” (alto, bonito e rico), que a surpreende ao cortejá-la com atenção genuína, apesar de ela inicialmente o ver como apenas mais um cliente com potencial.
Ao mesmo tempo, Lucy reencontra John (Chris Evans), o seu ex-namorado, um ator talentoso que abandonou os palcos e agora trabalha como empregado de mesa, para tentar sobreviver financeiramente. Ao contrário de Harry, John representa uma ligação emocional profunda e um passado marcado por amor verdadeiro, embora complicado por dificuldades materiais. Com os dois homens a puxarem-na em direções opostas — um oferecendo segurança e status, o outro autenticidade e sentimento — Lucy vê-se forçada a reavaliar não só as suas crenças sobre o amor, mas também a própria lógica com que organiza a vida dos outros.
O filme faz-nos refletir sobre o peso que os aspetos materiais e superficiais têm, atualmente, na escolha de um parceiro e sobre se é preferível viver uma vida sempre confortável, mas sem amor e ligação verdadeiras ou uma vida às vezes pouco estável mas com conexões emocionais profundas.