Nevoeiro misterioso
The Mist
Frank Darabount · 2007
Crítica de Isabel Valério
Review exclusiva do site, publicada em Maio de 2026
Nevoeiro misterioso é um filme americano de terror e ficção científica, inspirado na novela de Stephen King, um autor que talvez conheçam por outros livros como “IT: A coisa” ou “O iluminado”. Stephen King tem imensas adaptações cinematográficas e quem já ouviu falar entende a força que este tem na estrutura de elementos paranormais, macabros e desconcertantes.
O filme começa com uma tempestade, trovoadas e alguém a pintar um quadro, numa ideia enganadora de tranquilidade. No entanto, esta tempestade deixa um rasto de destruição, a eletricidade vai abaixo e veem-se tanques do exército. E por aqui sim já vemos uma atmosfera apocalíptica, mas ninguém sabe muito bem para onde vão ou o que vão fazer, apenas que se trata de um projeto do governo qualquer. Por enquanto, o simples ato de caminhar pelas ruas é garantido e nada alvo de reflexão. Thomas Jane representa o protagonista, David, que acaba por ir ao supermercado buscar mantimentos. Nunca pensamos ao entrar num sítio se de lá vamos sair tão cedo, ou de todo. De repente, um nevoeiro misterioso começou a engolir pessoas em segundos, devolvendo cadáveres, que impôs a toda a gente dentro do supermercado uma forçada quarentena.
O filme é repleto de personagens-tipo: o herói protetor, o covarde, o cético, o mediador e as ovelhas seguidoras, e a história desenrola-se num ritmo acelerado. O mais enigmático é que o inimigo confunde-se entre este nevoeiro e outra personagem muito intrigante. Mrs. Carmody, interpretada pela atriz Marcia Gay Harden, age de uma maneira diferente das outras personagens e começa por espalhar um aparente evangelho durante o pânico no supermercado, alegando que o nevoeiro se trata de um castigo divino. No início ninguém acreditava nela, que se se juntassem a ela seriam salvos, até ela começar a ganhar credibilidade pela sua simples sobrevivência no meio de algumas fatalidades. Contudo, esta senhora não retrata uma pessoa religiosa na sua essência, muito pelo contrário, retrata a peste que faz mover tanto os religiosos como os que não o são: a peste do fanatismo. À medida que o filme decorre apercebemo-nos da sua crença distorcida. Esta senhora é coscuvilheira, usa linguagem pecaminosa que vai contra o defendido pelos cristãos, incita comportamentos de ódio e acredita que carrega o poder de decidir se uma pessoa é impura. Então vemos como funciona o crescimento de uma seita, num piscar de olhos ela foi arrecadando seguidores muito leais no supermercado que punham cada palavra sua num pedestal, desprovidos de sentido crítico. Se no início duvidavam que se tratava de fanatismo religioso, este torna-se evidente quando esta senhora incita à violência, inclusive incita a matar os que não querem ser membros da seita. Já não me sentia tão irritada com uma personagem desde Umbridge, de Harry Potter. São bastante parecidas na sede de poder e não olham aos meios para atingir os fins. Chego a admirar o trabalho de quem criou esta complexa personagem que consegue despertar tantos sentimentos de frustração no espectador.
Os efeitos visuais do filme são cativantes no início, depois ficamos numa atmosfera mais fechada e, eventualmente, tornam-se mais inconsistentes, apenas tendo em conta a ligeira componente de fantasia e ficção científica. Mas quanto a esse aspeto eu diria que é difícil reproduzir algo que só existe na imaginação de alguém, não é? As imagens não eram assustadoras por si só mas, na minha opinião, esse não foi um fator que impedisse que as cenas provocassem um efeito de respiração cortada ao espectador, devido ao clima envolvente.
O final do filme foi perturbador, fiquei uns dias a processá-lo, pois não me saía da cabeça a sua brutalidade. Com isto, podem alguns de vocês acreditar que já adivinharam o final, mas provavelmente não. Recomendo, principalmente pela sua profundidade social, pela sua criatividade e pelo plot de fim do mundo, tão cativante tendo em conta o contexto geopolítico atual.