O Drama

The Drama

Kristoffer Borgli · 2026

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Maio de 2026

Sendo já um dos maiores sucessos de bilheteira da produtora de cinema A24, o filme O Drama é inicialmente apresentado como um romance leve sobre um casal jovem e com um ótimo futuro pela frente. Com o casamento já marcado, nada pode estragar o clima confortável e de intimidade dos personagens…a não ser os próprios personagens.

Esta narrativa não se desenrola de forma linear ou previsível: ela flui como um pesadelo lúcido. O que começa com a segurança de um casal a planear os últimos detalhes do seu casamento rapidamente se torna em algo parecido a um filme de terror. O diretor Kristoffer Borgli revela um talento especial para pegar em situações quotidianas e distorcê-las até que se tornem irreconhecíveis, usando aqui essa estranheza para dissecar a fragilidade da confiança. É desconfortável ver como a perceção de quem amamos pode ser alterada por forças que nem sempre conseguimos explicar.

A trama adensa-se quando uma revelação inesperada surge na véspera da cerimónia, desencadeando uma crise de identidade profunda. O que parecia ser uma união sólida começa a desmoronar-se quando segredos do passado e impulsos reprimidos vêm à tona, forçando o casal a enfrentar versões de si mesmos que desconheciam. A narrativa foca-se na paranoia crescente de que a pessoa com quem partilhamos a vida é, na verdade, um estranho, transformando o planeamento do “dia mais feliz das suas vidas” num labirinto psicológico de dúvidas e traições emocionais.

Zendaya e Robert Pattinson entregam aqui algumas das melhores atuações de ambos, sendo estas, sem dúvida, o que ancora toda esta bizarrice. Zendaya é o coração da história, uma força silenciosa que tenta manter a sanidade enquanto o mundo ao seu redor desmorona. Já Pattinson entrega uma energia errática que se tornou a sua marca registada e, sendo aquele com que passamos mais tempo e que tem uma personalidade mais dúbia, a sua ótima atuação é essencial para garantir o engajamento dos espectadores no filme. Juntos, eles criam uma tensão palpável, onde cada silêncio carrega um peso insuportável.

Um dos temas mais instigantes que o filme explora, sem entregar respostas fáceis, é a assimetria do perdão. O roteiro sugere uma reflexão profunda sobre o que estamos dispostos a aceitar em nome do amor e como o ato de perdoar pode ser distribuído de forma desigual numa relação. É angustiante observar como uma das partes consegue demonstrar uma resiliência quase heróica perante o caos, enquanto a outra se fecha num julgamento inflexível, mesmo quando não existem razões claras para tal. Esta dinâmica levanta questões desconfortáveis sobre a projeção de culpas e a incapacidade de ver o parceiro sem o filtro das nossas próprias inseguranças.

Tudo isto é amplificado por uma trilha sonora perturbadora. Não são apenas melodias, são texturas sonoras, como ruídos brancos e silêncios súbitos, que nos mantêm num estado constante de alerta e tensão. A música trabalha em sintonia com o visual para criar um clima de estranheza familiar, onde tudo parece normal à primeira vista, mas carrega uma sombra sinistra por baixo da superfície.

No fim das contas, O Drama não nos dá respostas fáceis, preferindo deixar-nos com a sensação persistente de que a nossa identidade e as nossas relações são muito mais maleáveis do que gostaríamos de admitir. É uma obra visualmente magnética e emocionalmente crua, que cada vez mais estabelece o cinema da A24 como um espaço onde o bizarro e o humano se encontram de forma brilhante.