Projeto Hail Mary
Project Hail Mary
Phil Lord, Christopher Miller · 2026
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em Março de 2026
Projeto Hail Mary, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller parece, à primeira vista, só mais um filme de ficção científica com o tradicional herói que tem uma aventura mirabolante no Espaço e salva o nosso planeta no final…mas não é o caso desta história. Adaptado do aclamado best-seller de Andy Weir, o filme carrega a mesma herança de rigor científico e sobrevivência extrema que consagrou o escritor, mas eleva a fasquia emocional a novos patamares.
O filme acompanha Ryland Grace, um astronauta que acorda à deriva no espaço, sem memórias sobre a sua identidade e a sua perigosa situação. À medida que o enredo avança, descobrimos que Ryland era, na verdade, um professor de ciências recrutado à força para o Projeto Hail Mary: uma operação internacional ultra-confidencial e sem precedentes. Num esforço desesperado que uniu todas as nações da Terra em segredo absoluto, Grace foi enviado numa missão suicida à Estrela Tau Ceti com a responsabilidade de deter uma ameaça microscópica que está a consumir a energia do Sol.
Narrada de forma não linear, a trama desbloqueia fragmentos do passado de Ryland em paralelo com o presente, colocando o espectador numa montanha-russa emocional onde o próximo passo desta jornada é sempre uma incógnita.
Ainda assim, se o filme fosse apenas isto, seria bastante provável que o nosso interesse não se mantivesse firme durante as 2 horas e 36 minutos de filme, e que não houvesse a profundidade necessária para que nos importássemos tanto com o personagem principal e com o seu destino. Então, para complementar a história, é-nos apresentado aquele que pode ser considerado o principal coadjuvante do filme: Rocky, um alienígena muito semelhante a uma aranha feita de rochas.
A amizade de Ryland e Rocky é o coração do filme: sem ela, o filme nunca poderia deixar um impacto tão duradouro e forte como acaba por deixar. Apesar de atritos iniciais (devido ao facto de os personagens serem de espécies e planetas diferentes), a relação acaba por evoluir para algo muito inesperado e bonito, algo que Ryland nunca havia tido na Terra, e provavelmente nunca lá iria encontrar.
Relativamente a aspetos mais técnicos, há que mencionar a trilha sonora de Daniel Pemberton que, conhecido pelo seu trabalho em “Homem-Aranha: No Universo Aranha” e “Steve Jobs”, para este filme, utilizou uma abordagem bastante experimental para refletir a solidão e a engenhosidade do protagonista, chegando a usar sons de objetos quotidianos, como uma torneira a ranger, de modo a refletir a estranheza da situação em que o personagem se encontra. Além da trilha original, o filme apresenta canções como “Sign of the Times” de Harry Styles e “Two of Us” dos Beatles, que refletem perfeitamente as emoções dos personagens em dois cenários específicos.
Realizada pelo fotógrafo Greig Fraser, vencedor do Oscar de fotografia pelo seu trabalho em Duna, a fotografia do filme já é um dos aspetos mais realçados da obra. Seguindo a linha dos seus trabalhos anteriores, Fraser optou por uma iluminação muito viva e visceral, focando-se no contraste entre o interior claustrofóbico da nave Hail Mary e a vastidão inóspita do espaço. Este é, então, um daqueles filmes que deve ser visto numa sala de cinema, pois só o grande ecrã e o som envolvente fazem justiça à magnitude visual do projeto e à complexidade sonora da obra.
Projeto Hail Mary não é apenas uma história sobre o fim dos tempos, mas sim um tributo triunfante ao engenho humano e à coragem de quem não tem nada a perder. É o lembrete definitivo de que, mesmo quando o Sol se está a apagar e estamos a anos-luz de casa, a nossa vontade de sobreviver e de compreender o outro é a força mais poderosa do universo.