Quem Quer Ser Bilionário?

Slumdog Millionaire

Danny Boyle · 2008

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em July 2026

Normalmente, sou o primeiro a dizer que um filme, em particular, deve ser muito cioso da sua temática. Ao contrário da série, abrangente nas temáticas e no público-alvo, um filme é um rendezvous que, se executado com sucesso, irá deixar marca. Para tal efeito, desde os temas à palete de cores, o filme deve criar uma identidade inabalável. Sempre fui muito convicto disto e, no entanto, Slumdog Millionaire provou-me que, apesar de uma personalidade vincada ser condição necessária à sua qualidade, não é suficiente. 

Numa época de saturação da oferta de filmes norte-americanos, pode parecer um caminho fácil para se destacar do rebanho incidir sobre culturas sub-representadas em filmes que se destinam a públicos ocidentais, como, por exemplo, a indiana, como é o caso deste filme. Mas, tenho de dar crédito a Danny Boyle por não ter, de forma alguma, amparado o choque cultural. O filme é díptico. Metade é falado em inglês, dentro das limitações de pronúncia dos atores aos quais não lhes foi (e bem, na minha opinião) exigido que falassem um inglês absolutamente imaculado, mantendo-se assim um ambiente credível ao universo que nos é vendido, e, outra, é falada em hindi, sendo óbvias as partes que Boyle quer que sejam vistas como um filme a que estamos habituados, e, as restantes, para aqueles que não percebem hindi, devem ser compreendidas pela expressividade da cena em si. A maior parte das cenas em hindi são recordações do nosso protagonista, pelo que são atuadas por crianças. Não obstante, por mais que o público possa estar inclinado a franzir o sobrolho às atuações dos pequenos atores, não lhes tenho nada a apontar (até posso dizer que, em certa medida, superam alguns dos adultos que aparecem posteriormente). Estas idiossincrasias tornam o filme um tanto quanto exigente, algo que, eu aplaudo. 

Não é só a matriz linguística e cultural do filme que é atípica, o enredo é também ele característico. No decorrer de um episódio do equivalente indiano ao Quem Quer Ser Milionário?, um jovem desenterra do seu passado aberrante e violento nos bairros paupérrimos indianos a resposta às perguntas, um mecanismo para avançar a narrativa tão criativo que é quase cómico, não fossem as imagens à nossa frente chocantes. Nas primeiras cenas, o protagonista está a ser interrogado pela polícia, estando sob suspeitas de ter feito batota. Ou seja, o concurso de televisão é a engrenagem que nos vai apresentando as desavenças do nosso protagonista, ao mesmo tempo que caminhamos para o presente da narrativa, sabendo já que ele ganhou e que possivelmente fez batota, querendo nós descobrir como e se é verdade que o fez. 

O enredo é brilhante. Apesar de não absolutamente intransigente na sua índole artística, também não tem medo de desafiar o espectador. Em teoria, deveríamos ter um ótimo filme, no entanto, as coisas complicam-se ao nível da execução. 

Para começar, e apesar do desempenho de Dev Patel e de Irffan Khan, as atuações das personagens do presente relativo deixam um pouco a desejar, pelo que, aquilo que deveria ser o clímax acaba por sair pela calada. Mais: penso que o absurdismo que o filme abraça, algo a que sou normalmente favorável, não condiz com as restantes temáticas, até porque o filme, apesar de ciente da sua vertente “monty pythonesca”, transita para momentos sérios sem sentir que deve ao absurdismo inerente qualquer atenção, o que torna várias cenas um pouco insólitas. Não querendo estar a ser culturalmente insensível, quero deixar claro que percebo que o filme está a tentar, de certa forma, emular elementos de Bollywood. No entanto, a minha absoluta ignorância neste campo poderá ser uma virtude, pelo que, o meu apreço ou desapreço vem única e exclusivamente da minha experiência a ver o filme.     

Em geral, essa falta de uma base sólida para o filme, que surge da ausência de pontos de encontro entre o lado absurdo e sério, bem como as atuações moribundas que deixam o último ato à deriva, tornam este filme num caso de estudo: uma peça com um invólucro lindíssimo, mas sem nada lá dentro.