Supergirl
Supergirl
Craig Gillespie · 2026
Crítica de Tomás Figueiredo
Review exclusiva do site, publicada em Agosto de 2026
Para quem foi ao cinema à espera de algo ao nível de Superman (2025), o choque de realidade com Supergirl foi imediato. O filme do ano passado conseguiu trazer um frescor genuíno ao género, apoiado numa trilha sonora marcante, num desenvolvimento de personagens impecável e, acima de tudo, numa crítica social extremamente relevante. Já esta nova produção falha brutalmente ao tentar seguir esse padrão de excelência, entregando uma experiência genérica, preguiçosa e vazia.
O grande problema do filme é a sua submissão aos vícios e clichés mais batidos das histórias de origem de super-heróis. A estrutura é dolorosamente previsível: o trauma inicial, a jornada feita a contragosto, as paragens de rotina em cenários genéricos cheios de extraterrestres e o inevitável confronto final apressado no terceiro ato. Enquanto Superman se afirmou com uma identidade forte e arrojada, Supergirl reduz-se a uma junção de ideias recicladas. É inevitável que a crítica e o público o comparem a produções como Capitã Marvel ou Mulher–Maravilha, já que a própria ambientação espacial carece de personalidade, parecendo apenas uma versão desbotada de mundos que a concorrência já explorou com mais mestria.
A esta falta de visão estética junta-se uma trilha sonora anémica. A banda sonora limita-se a cumprir a sua função mais básica: ser um ruído de fundo genérico, sem um único tema que sobressaia ou ajude a definir a identidade da protagonista. O contraste torna-se ainda mais gritante quando recordamos o filme do Superman, que usou a música de forma muito mais memorável: basta pensar em como uma faixa como Punkrocker, dos Teddybears, ficou instantaneamente atrelada à imagem do herói e continuou a ressoar na cabeça do público muito depois de as luzes da sala de cinema se acenderem.
A diferença de maturidade entre as duas produções fica ainda mais evidente na forma como abordam os seus temas e a moral da história. Superman (2025) usou a geopolítica e o contexto de um conflito armado para debater a moralidade da intervenção humana e super-humana numa guerra. O heroísmo não era retratado de forma ingénua ou “preto no branco”: o filme construiu uma empatia profunda pelo Superman ao mostrá-lo a errar, a hesitar e a lidar com as consequências do seu poder num mundo onde não existem respostas simples. Ao mesmo tempo, o texto humanizou o próprio Lex Luthor: em vez de um vilão puramente maligno, Luthor surgia movido por uma paranoia compreensível e pelo desejo arrogante de defender o orgulho da humanidade. O público conseguia empatizar com os seus dilemas, mesmo reconhecendo os seus erros e a sua vilania.
Supergirl, por outro lado, foge de qualquer complexidade e recusa-se a discutir temas maduros. Não existe uma reflexão moral na história, apenas um argumento simplista que divide o mundo entre bons e maus sem qualquer nuance. A ameaça principal é genérica e desprovida de motivações reais, reduzindo o vilão a uma figura rasa e descartável que existe apenas para ser derrotada no clímax.
Nem mesmo a atuação da atriz principal consegue corrigir estes problemas, apesar de ser visível que esta está a dar tudo de si à personagem. Milly Alcock faz um trabalho honesto e entrega uma interpretação genuinamente boa, conseguindo transmitir a fúria, a dor e a atitude de uma personagem marcada por tragédias. O problema é que uma boa atuação não faz milagres quando um guião pouco construído é a base que sustenta tudo. A protagonista não é confrontada com escolhas difíceis e passa o filme inteiro a reagir a acontecimentos previsíveis em vez de crescer de forma orgânica.
Concluindo, o sentimento que fica é o de uma enorme oportunidade perdida. O impacto negativo deste filme torna-se ainda mais notável por surgir na sequência direta de uma obra tão profunda, madura e bem construída como Superman. Embora Supergirl funcione de forma autónoma, a proximidade do seu lançamento torna qualquer comparação inevitável e implacável. Enquanto a produção de 2025 levava o espectador a refletir sobre a guerra e os seus impactos, a compaixão e as consequências do poder, o filme de 2026 dá vários passos atrás. Acaba por entregar apenas um espetáculo de ação infantilizado e ultrapassado, cheio de personagens superficiais que não deixam marca alguma assim que as luzes da sala de cinema se acendem.