The Substance
The Substance
Coralie Fargeat · 2024
Crítica de Sofia Condez Alves
Review exclusiva do site, publicada em Abril de 2025
Para garantir algum possível contexto no meu descontentamento sobre este filme, começo por explicar que “A Substância” não foi feito para mim: não sou apreciadora de terror, especialmente de body gore (na maior parte das vezes nem sou capaz de o ver, tendo de me esconder do ecrã), e não tenho um entusiasmo particular em relação a filmes idealistas ou expressionistas, que costumam priorizar o simbolismo em detrimento da clareza estrutural. No entanto, entrei nesta experiência com uma mente aberta, dada a aclamação crítica e as múltiplas nomeações da Academia para Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Realizador(a), e Melhor Guião Original.
A premissa do filme é, de facto, instigante – “A Substância” conta a história de Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma estrela de Hollywood em declínio, desesperada por restaurar a sua juventude e, por suposto, a sua relevância na indústria. Assim, decide recorrer a uma “substância” misteriosa (e verde) que lhe promete uma versão mais jovem e perfeita de si mesma, com apenas algumas… regras. Esta nova persona, Sue (Margaret Qualley), alcança rapidamente a fama, encarnando tudo o que Elizabeth perdeu. À medida que as duas versões vão entrando em conflito e se impedem mutuamente de cumprir o acordo, o filme explora temas de identidade, vaidade, e a pressão incessante que a indústria do entretenimento impõe sobre as mulheres.
Embora a ideia seja promissora, a sua execução deixa muito a desejar. Para um filme chamado “A Substância”, assistimos, infelizmente, a uma priorização do estilo em detrimento da sua substância. A estética do filme está, sim, de louvar – há uma aposta certeira no uso de neons, na montagem frenética, e nos contrastes cromáticos. Mesmo quando eu não gostei pessoalmente de certas escolhas estilísticas, como as letras gigantes em ecrãs pretos a introduzir algumas cenas, reconheço que estabelecem efetivamente o tom flashy do filme, criando um espetáculo visual maximalista muito coerente. No entanto, essa estilização, embora eficaz na criação de um universo expressionista visualmente distintivo, acaba por se sobrepor à narrativa, tornando o filme numa exibição muito extravagante de… nada?
“A Substância” oferece uma representação vaga e simplista de Hollywood a um ponto que acaba por se distanciar da realidade. Os elementos vagos e sem nome – o programa de fitness, a casa de Elizabeth, a casa de banho, a própria “droga” – só funcionam até um certo ponto antes de parecerem quase preguiçosos, dando a ideia de que o filme teve medo de se comprometer a uma ideia mais específica. Tudo se mantém num limbo estético sem profundidade contextual. Aliás, à medida que o filme avançava, comecei a questionar-me sobre se estava a ser intencionalmente satírico, ou se foi algo irrefletido e quase irónico. De qualquer das formas, não resultou muito bem, e a abordagem à ideia é tão caricatural que a crítica social se dilui e se torna numa paródia involuntária.
Ainda, o roteiro apresenta uma quantidade assustadora (quase mais do que o “Monstro”) de plot holes, que não podem de todo ser perdoados pelo seu tom cómico e exagerado. Por exemplo, o programa de aeróbica não se enquadra de todo naquilo em que veríamos Sue, a nova bombshell de Hollywood, e, para aceitar isto, ainda teríamos de ignorar a forma como ela conseguiu automaticamente o papel. Para além disso, a lógica do filme é totalmente inconsistente – embora consiga aceitar que a substância em si sirva como uma metáfora e não exija uma explicação literal, os objetivos de Elizabeth permanecem obscuros – as consequências do seu uso são claros desde o início, mas os benefícios em si em tomá-la para a personagem não existem de todo.
Chegamos, assim, a uma das minhas maiores frustrações com o filme – Qual é a ligação definitiva entre Elizabeth e Sue? São a mesma pessoa? Se sim, não parecem partilhar uma consciência. Trata-se de um comentário sobre mães irresolvidas que tentam viver indiretamente através das filhas? Elas, de facto, partilham uma mente mas odeiam-se tanto ao ponto de ignorarem as regras desde os primeiros dias? Esta ligação, que marca o coração do filme, é indefinida, e a falta de clareza em toda a história enfraquece o que poderia ter sido uma muito melhor narrativa.
De facto, o conceito tinha o potencial de nos levar a um filme excelente, não sendo uma ideia nova. Uma das primeiras iterações da “procura pela juventude” – “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde – funciona muito bem e resolve-se perfeitamente, mas “A Substância” sofre com a sua própria imprecisão, ao ponto de deixar de ser relacionável. A confusão da narrativa transparece nos seus temas, resultando numa perda do que suponho ser a mensagem pretendida – uma crítica ao tratamento das mulheres na indústria.
Considerando a sua promessa inicial de criticar os beauty standards e as pressões colocadas às mulheres, fiquei genuinamente desiludida quando me apercebi de que o contrário acabou por acontecer. Apesar de personagens como o diretor do programa ou o doutor da substância aparecerem, nenhum deles é tão ridicularizado como a própria protagonista. Pelos últimos vinte minutos do filme, a comédia e o genre são priorizados à mensagem, e a audiência é praticamente convidada a rir-se de Elizabeth, do monstro, da sua estupidez, do seu egoísmo, das suas inseguranças, da sua solidão.
Coralie Fargeat, a diretora, em entrevista, explica como escreveu a cena final como um momento de autoaceitação de Elizabeth, mas, devido à forma como o filme estrutura essa conclusão, acaba por indicar um sentimento oposto. A personagem não passa por um arco de transformação que justifique essa suposta catarse – ela ainda se odeia, e a sociedade continua a excluí-la (ainda mais, no caso). Se a intenção era oferecer uma reflexão sobre o papel das mulheres na sociedade, a execução falha ao reforçar, inadvertidamente, o próprio problema que pretendia criticar.
No final das contas, “A Substância” apresenta-se como uma ideia promissora que acabou por se perder na sua própria ambiguidade e incoerência. Com uma abordagem visual forte e performances remarcadas de Moore e Qualley, tinha todos os ingredientes para ser um filme memorável e provocador. No entanto, a falta de uma narrativa bem definida e uma mensagem coesa impedem-no de alcançar o seu verdadeiro potencial.
Ainda assim, o seu reconhecimento pela Academia sinaliza uma abertura maior para o genre de terror, sendo ainda um avanço significativo ver uma mulher à frente do projeto. Se há algo positivo a extrair, é a esperança de que este espaço se continue a expandir, permitindo que futuras obras tragam não apenas impacto visual, mas também reflexões mais coesas e incisivas.