A Odisseia

The Odyssey

Christopher Nolan · 2026

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Setembro de 2026

Quando falamos de cinema de autor, estamos normalmente a referirmo-nos a filmes de culto, porque foi esse o significado que o costume lhe deu. Filmes feitos para dançar no limiar entre o comercial e o cogitativo, de autores que querem ser conhecidos apenas até ao ponto em que não os desprestigie. Nolan surge de uma forma interessante neste discurso. As suas idiossincrasias estão bastante vincadas no cinema internacional, sendo o seu nome e estilo inseparáveis de qualquer filme que assine, basta ver que este filme, mesmo antes da estreia, sempre foi falado como a “Odisseia de Nolan”. No entanto, não se pode propriamente dizer que a sua índole seja reflexiva, ainda que o próprio provavelmente discorde. 

Vi este filme um pouco depois da explosão que foram as primeiras críticas. Ainda que eu me tenha mantido longe das polémicas mais comezinhas, fui lendo críticas nos jornais e fui sabendo por conversa de circunstância o atrito que alguns sentiam quanto ao casting. Como não podia deixar de ser, a teoria da ferradura verifica-se. Sejam os intelectuais cinéfilos, ou os boçais do Twitter, o problema é, na sua essência, o mesmo, são as imprecisões históricas. Claro está, do lado dos eugénicos, as imprecisões passam pela cor de pele dos não caucasianos, enquanto que para os cinéfilos prendem-se nos fatais anacronismos que Nolan exibe com pompa e circunstância. Qual das duas, na minha opinião, a mais fatal? A segunda, sem dúvida. Porque, o erro dos eugénicos, pelo menos numa interpretação caridosa daquele que deverá ser o seu pensamento, é o de não perceberem que a historicidade na odisseia não vem das personagens em si, visto que se tratam de personagens fictícias, vem sim da reflexão inerente, que funciona como janela para o pensamento naquele tempo. Algo que, Nolan tomou a liberdade de assassinar. 

Dos seus trabalhos anteriores, penso que, para analisar esta instalação, vale a pena principalmente olhar para Oppenheimer e para a trilogia Dark Knight. A sua formulação de Gotham é interessante, os fãs sempre ansiaram por uma interpretação soturna do Batman. Na altura, aliás, poder-se-ia dizer que o diretor britânico tinha tornado o universo até um pouco desafiante, principalmente no segundo título. Isto convenceu parte do público que Nolan tende a elevar aquilo em que toca. Quando abarca na Odisseia, vemos que claramente esse não é o caso. No espectro de entretenimento que vai de circense a culto (criado por mim, por conveniência), Nolan não puxa o material original para o lado de culto, ele ocupa sim uma posição nesse mesmo espectro e traz o material até si. Quando se trata de banda-desenhada, estamos a falar de sofisticar, quando se trata de um dos maiores clássicos da literatura, estamos a falar de aculturar. 

Vale a pena dizer, vi este filme em IMAX, e que foi, em larga medida, uma experiência agradável, muito graças à qualidade do som e imagem. Gostei principalmente da primeira metade, porque incide sobre os elementos mais épicos da história, e tira total partido da tecnologia a seu dispor. Visualmente, é um filme muito bonito. Já o argumento, que Nolan decidiu escrever sem se fazer consultar de nenhum estudioso, é doloroso. 

Como qualquer boa tragédia grega, logo de início temos indícios da fatalidade que se avizinha. Falo da morte da linguagem cinematográfica, do show don’t tell. O filme começa com um diálogo entre Telêmaco e Eumeu (a quem decidiram dar um leve toque de Sr. Miyagi) onde nos é dada a informação que precisamos para seguir a história. Em geral, todos os diálogos no filme seguem essa linha. As personagens apresentam-se, falam da sua relação a Ulisses ou à guerra de Tróia, passa para flashback. Nolan parece gostar muito dos planos que gravou, mas passa de cena para cena como quem arranca um dente. A escolha de Travis Scott é ilustrativa da vontade que tem de “modernizar” a Odisseia, o que acho legítimo. No entanto, a sua falta de uso no filme é ela própria também ilustrativa da falta de compreensão sobre a forma como estes poemas eram disseminados. Acho que teria sido mais interessante apresentar a informação por intermédio do rapper ao invés de recorrer tantas vezes a diálogo expositivo.

Há que ver que, por mais reparos que lhes faça, os piores pontos do argumento não são os diálogos, são sobretudo as rábulas de revirar os olhos, onde Nolan insere a sua reflexão anacrónica. Se as personagens dialogam como quem arranca um dente, então ouvir os seus monólogos é como beber água morna. O monólogo absolutamente sem sentido (na altura) sobre o papel da mulher, o momento Oppenheimer de Ulisses, tudo coisas que fazem levar as mãos à cabeça. Enquanto estas causas contemporâneas são injetadas na história, e recebem uma relevância desproporcional, conceitos centrais como a ideia de que Ulisses está “demasiado perdido para voltar a casa” são ditos de uma forma absolutamente leviana. Em nenhum momento é feita uma reflexão sobre a jornada interior que é a própria odisseia, um erro crasso, na minha opinião. 

Nolan tem o seu leque de atores, nada contra isso, no entanto, analisando o produto final, é triste ver estas super-estrelas de Hollywood, estranhas ao subtil, a exacerbarem texto poético com histeria digna de novela. 

Com este filme, ficamos a perceber que Nolan tem uma muito fraca compreensão do subtil. Subverter as expectativas durante o decorrer do filme não é o seu forte, prefere que a sua narrativa entre de rompante pela tela. Podemos dizer que domina a bomba atómica, mas não percebe o cavalo de troia.