Antes do Amanhecer

Before Sunrise

Richard Linklater · 1995

Crítica de

Review exclusiva do site, publicada em Setembro de 2026

Já se imaginaram a conhecer alguém numa viagem de comboio e terminar o dia a descobrir uma cidade desconhecida com alguém igualmente desconhecido? Pois bem, é o que, exatamente, acontece aos personagens deste famigerado enredo.

Jesse (Ethan Hawk) e Céline (Julie Delpy) protagonizam uma das mais almejadas histórias de amor, contudo, o seu sucesso foi gradual e, portanto, a ideia de expandir esta história apenas surgiu anos depois, quando Richard Linklater, juntamente com os atores e argumentistas Ethan Hawk e Julie Delpy, decidiram explorar o impacto do tempo e o destino de ambos os personagens. Assim, os outros dois filmes, que fazem parte desta trilogia, demonstram o envelhecimento da forma mais autêntica possível, através da própria passagem do tempo. Não são apenas as aparências que se alteram, mas também certas formas de agir, nestas mudanças que só o tempo consegue proporcionar. A cada filme, o conceito de amor é adaptado e reestruturado, refletindo a noção deste em cada altura da vida, e como Julie Delpy ressaltou:  “são realmente um estudo do tempo”.

Para adicionar ainda mais a este enredo, o realizador, com a estreia do terceiro filme, revelou em detalhe a pessoa e o encontro que o inspirou a criar “before sunrise”, no entanto, este não teve nem perto o desfecho da trilogia. 

O encontro foi com Amy Lehrhaupt, numa loja de brinquedos na Filadélfia, onde, à semelhança de Jesse e Céline, passaram a noite inteira a caminhar e a conversar pela cidade. Mas, ao contrário do filme, no final, Amy e Richard chegam a trocar  números de telemóvel e tentam manter contacto por algum tempo, até a relação desvanecer por causa da distância. O realizador chegou a admitir que passou largos anos na esperança que Amy aparecesse numa das suas estreias. Contudo, em 2010, contactaram-no para o informar de que ela tinha falecido num acidente pouco antes do início das filmagens do primeiro filme.

Ao contrário da vivência do realizador, é Viena que no acaso dá lugar às conversas destes jovens. Por entre as ruelas e edifícios da cidade, desenrola-se uma relação efémera, mas bela, entre um americano e uma francesa, que partilham os seus pontos de vista sobre a vida. Caminham sem rumo, limitados pelas suas próprias palavras, contudo, os seus corpos comunicam de uma forma própria, entre relances rápidos e toques contidos, revelam o quanto ansiavam um pelo outro o que porém ficou despercebido. Tudo isto foi possível pela forma como criaram este roteiro, onde os atores não eram meros leitores de falas pré concebidas, mas elementos chave para a criação das suas próprias falas. Foi, assim, produzido um argumento com uma essência coletiva, escrito não só pelo realizador Richard Linklater e argumentista Kim Krizan, mas também pelos atores que deram vida a Jesse e Céline.

Com uma naturalidade inigualável a outros roteiros, aborda os pensamentos mais diversos que passam pela cabeça de dois jovens que estão apenas agora a descobrir o mundo, sendo uma das razões para que este encontro não me fosse nem um pouco indiferente. 

A forma como se decidem deixar com uma promessa de um reencontro, as belas cenas de Viena inalteradas na sua paisagem, agora desprovidas de ambos os personagens, ao mesmo tempo que o espectador, juntamente com os jovens, voltam para as suas vidas completamente mudados, é simplesmente lindíssimo.

Por fim, por mais improvável que tudo isto seja, é sem dúvida uma ótima história de amor que vale a pena ser contemplada, juntamente com os restantes filmes da trilogia, mesmo por quem não se considere grande fã de romances, pois este enredo vai muito além disso.