Chama-me Pelo Teu Nome
Call me by your name
Luca Guadagnino · 2017
Crítica de Ana Costa
Também incluída no Online exclusive, publicado em Julho de 2026
“Call me by your name”, de 2017, dirigido por Luca Guadagnino, retrata um tema bastante explorado pelo realizador, o desejo, mais precisamente as fases iniciais deste, quando uma pessoa confronta esse sentimento pela primeira vez.
Juntamente com James Ivory escrevem, a partir do romance de Alan Aciman, um enredo envolvente sobre a vida de Elio (Timothée Chalamet), um rapaz de 17 anos que passa os seus verões na mansão do século XVII da família, na Itália, preenchendo os seus dias com arte, música e livros.
O pai (Michael Stuhlbarg), um professor renomado de arqueologia greco-romana, escolhe um aluno diferente a cada ano para, nesta altura, acompanhá-lo nos seus projetos. Tudo aponta para que o verão de 1983 não seja diferente, mas a chegada de um aluno norte-americano de 24 anos, Oliver (Armie Hammer), irá mudar a vida de Elio para sempre.
Oliver destaca-se dos restantes personagens pela personalidade exuberante e aspeto forte, que acaba por contrastar com a timidez e fragilidade do personagem de Timothée Chalamet. Contudo, é com Oliver que Elio se sente compreendido e acolhido e que se depara, pela primeira vez, não só com o desejo, mas também com o amor.
É no verão que esta relação floresce e ganha dimensão, tornando-se, assim, indissociável à estação.
Muitas das críticas menos favoráveis são acerca da disparidade de idades, estes afirmam que se trata de uma história sobre o predador e a sua vítima. No entanto, a meu ver, este enredo é muito mais acerca de um jovem que, ao chegar à maioridade, caminha por novos terrenos. Essa caminhada acaba por envolver uma relação que nem sempre é ideal e politicamente correta, sendo retratado de uma forma ousada para nos levar a julgar e confrontarmo-nos com uma realidade tão dissociada dos nossos valores, o que na mesma não invalida os sentimentos envolvidos. Outro aspeto que tenho de discordar é o de que este filme não mudaria nada se fosse uma mulher mais velha no papel do Oliver, para mim, esta queerness é indissociável à narrativa.
Elio vive numa atmosfera repressiva. A menção a Il Duce (Benito Mussolini), o facto da família esconder a sua identidade judaica, aliadas a uma linguagem muito vaga, ajuda em tudo a enfatizar esta ideia. A realidade de Elio demonstra a natureza indissociável deste enredo com a sua queerness e a repressão que o assombra. Oliver, para além de um parceiro, tornou-se a figura idealizada que Elio gostaria de um dia chegar a ser. É apenas no final que ele é confrontado com o facto de Oliver também ser reprimido, terminando o seu arco a observar as chamas de um romance passado.
Como os filmes são uma arte intrinsecamente coletiva, devemos olhar para outras pessoas que ajudaram a criar esta história, nomeadamente na música, em parte pelo artista Sufjan Stevens, e na sua cinematografia, responsabilidade de Sayombhu Mukdeeprom. Que encapsularam a natureza bucólica e contemplativa do verão de forma perfeita, com uma doçura na melodia que persiste por todo o enredo, e umas imagens belas do verão italiano. Que personificam não só uma estação, mas também uma relação que a acompanha e desvanece com o passar desta.
Este verão de 1983, impactou não só Elio mas a mim também, que desde a primeira vez fiquei completamente hipnotizada por esta história que me transportou para esta pequena vila italiana marcada pela sua serenidade. Contudo, mesmo continuando a adorar este enredo, não posso ser indiferente a certos aspetos em que tenta ser bastante pretensioso.
Por fim, para além do desejo que envolve cada cena, é um filme bastante bem executado sobre o amor e a descoberta da sexualidade.