Opinião de Tomás Figueiredo
Artigo exclusivo do site, publicado em Agosto de 2025
Nos últimos anos, Portugal tem sido palco de uma sucessão de incêndios rurais que marcam o verão com imagens de destruição, hectares de floresta perdidos e comunidades em risco. Embora o país sempre tenha lidado com fogos florestais devido ao seu clima mediterrânico, a intensidade, frequência e duração dos incêndios têm vindo a aumentar de forma preocupante. Hoje, já não é possível falar deste fenómeno sem o enquadrar num contexto mais amplo: as alterações climáticas.
Um país vulnerável ao fogo
Portugal é um dos países europeus mais vulneráveis aos incêndios florestais. A combinação de verões longos, quentes e secos, extensas áreas de floresta mal gerida e a presença significativa de espécies inflamáveis, como o eucalipto e o pinheiro-bravo, cria um cenário propício à propagação do fogo. O abandono rural, com a diminuição da agricultura e do pastoreio, também contribui para este fenómeno: terrenos que antes eram cultivados estão agora ao abandono, acumulando matéria combustível.
Apesar dos avanços na prevenção e combate, o número de grandes incêndios (aqueles que ultrapassam 100 hectares) continua elevado. Em anos particularmente severos, como 2003, 2017 e, agora, 2025, o país registou tragédias humanas e ambientais de enorme dimensão. Em 2017, por exemplo, mais de 100 pessoas perderam a vida em incêndios, um dos anos mais negros da história recente.
O peso das alterações climáticas
As alterações climáticas funcionam como um multiplicador de risco. O aumento das temperaturas médias, as ondas de calor mais frequentes e prolongadas, bem como a diminuição da precipitação em certas regiões, criam as condições ideais para a ignição e propagação do fogo.
Portugal está a aquecer mais rapidamente do que a média global. Segundo dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a temperatura média anual no país aumentou cerca de 1,4 ºC desde 1970. Este aumento pode parecer pequeno, mas traduz-se em fenómenos extremos muito mais frequentes. Além disso, a irregularidade das chuvas faz com que o solo e a vegetação passem por longos períodos de seca, tornando-se combustível pronto a arder.
Os cientistas preveem verões ainda mais longos e intensos, com risco acrescido de incêndios rurais. Ou seja, se nada for feito para mitigar e adaptar, Portugal poderá enfrentar épocas de fogo cada vez mais difíceis de controlar.
Consequências sociais, económicas e ambientais
Os incêndios não constituem apenas uma questão ambiental. Afetam comunidades, destroem casas e infraestruturas, colocam vidas em risco e têm custos económicos elevados. O turismo, um dos setores vitais da economia portuguesa, sofre sempre que imagens de florestas em chamas circulam nos noticiários internacionais.
Do ponto de vista ambiental, os impactos são profundos: a perda de biodiversidade, a destruição de habitats e a degradação dos solos são consequências a longo prazo. A erosão acelera após os incêndios, reduzindo a fertilidade da terra e aumentando o risco de cheias e deslizamentos. Os incêndios contribuem ainda para as alterações climáticas, ao libertar para a atmosfera enormes quantidades de dióxido de carbono armazenadas nas árvores e na vegetação.
O papel da prevenção e da gestão do território
Combater os incêndios é essencial, mas não basta. A verdadeira chave está na prevenção. Isso significa repensar a forma como gerimos o território. A floresta portuguesa é caracterizada por um mosaico de propriedades pequenas e dispersas, o que dificulta uma gestão integrada e eficiente. A promoção de espécies autóctones, como o carvalho e o sobreiro, mais resistentes ao fogo, é uma estratégia frequentemente defendida por especialistas.
Outra medida fundamental é a criação de faixas de interrupção de combustível em torno das aldeias e estradas, bem como o incentivo ao pastoreio e à agricultura sustentável, que ajudam a manter o território limpo. A educação e a sensibilização das populações locais são igualmente determinantes, dado que uma parte significativa dos incêndios tem origem em comportamentos humanos, sejam eles negligentes ou intencionais.
Alterações climáticas: o desafio global
No entanto, a prevenção local só será eficaz se conjugada com uma resposta global às alterações climáticas. A redução das emissões de gases com efeito de estufa, a aposta em energias renováveis e a transição para economias mais verdes são medidas essenciais para limitar o aquecimento global e, consequentemente, reduzir os riscos associados ao fogo.
Portugal tem procurado assumir-se como líder na transição energética, mas enfrenta desafios significativos. Enquanto o país investe em energia solar e eólica, também tem de lidar com os impactos já inevitáveis do clima em mudança. A adaptação passa, portanto, por reforçar a resiliência das florestas e comunidades.
Concluindo, os incêndios em Portugal não são apenas fruto do acaso ou da má sorte de um verão quente. São o resultado de um conjunto de fatores históricos, sociais, económicos e, cada vez mais, climáticos. As alterações climáticas intensificam um problema já existente, transformando-o num dos maiores desafios do país nas próximas décadas.
A resposta terá de ser multidimensional: mais prevenção, melhor ordenamento do território, aposta em espécies resilientes, sensibilização da população e, sobretudo, compromisso firme na luta contra as alterações climáticas. Só assim Portugal poderá proteger as suas florestas, as suas comunidades e o seu futuro.
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