Opinião de Henrique Chaves
Também incluído no FEPIANO 66, publicado em Abril de 2026
Com o passar do tempo, os jovens têm vindo a deparar-se com a pressão invisível causada pelo medo de errar. A pressão sobre os estudantes de não poder errar é elevadíssima. Falhar num teste ou exame é muitas vezes sinónimo de fracasso no meio familiar ou até num círculo de amigos. Já que nem Jesus conseguiu agradar a todos, por que deveríamos nós?
A ciência só avança através de métodos de tentativa e erro, no entanto, no sistema educacional o erro é, na sua maioria, punido com uma nota vermelha e pouco mais. Será que o erro não poderia ser revisitado como uma ferramenta pedagógica? Quem nunca errou um conceito numa frequência e, por causa disso, nunca mais o esqueceu? Afastar o estigma de falhar do estudante poderia ser um passo essencial no seu desenvolvimento, dado que, inúmeras vezes, um jovem não consegue atingir sua verdadeira performance ou potencial por um simples medo de errar e ser julgado. Se retirarmos o medo de falhar, o que sobra é a audácia de tentar – e é nessa audácia que reside a nossa maior liberdade intelectual.
Além disso, é muito importante que haja uma distinção entre erro e negligência. O erro que neste caso deve ser fomentado é aquele que nasce de uma tentativa de fazer aquilo que é correto, da coragem de arriscar. Por outro lado, a negligência é a falta de cuidado, enquanto que o erro acaba por ser subproduto da ação.
Outra interferência é pura e simplesmente o facto de vivermos na era digital, onde todo e qualquer erro que fazemos pode ficar registado. Um pequeno deslize pode ser recordado para sempre através de um “print”. Isso retira-nos a liberdade de mudar de opinião ou de evoluir. Os nossos tropeços, opiniões imaturas ou ideias precipitadas podem ficar cristalizados em redes sociais e registos permanentes. Se não existir também um “direito ao esquecimento”, o erro deixa de ser uma lição e passa a ser uma sentença perpétua. A verdadeira liberdade reside na nossa capacidade de metamorfose – de ideias, de comportamentos e de perspetivas. No entanto, quando o mundo nos obriga a carregar o peso de quem fomos há cinco ou dez anos, retira o nosso espaço para essa transformação.
Esta liberdade para o erro, antes de vir externamente, é algo que começa dentro de cada um de nós. Se não estivermos mentalmente dispostos a lidar com o ato de falhar, de nada servirá a liberdade externa. Numa sociedade exigente, por vezes ser gentil consigo mesmo é um ato revolucionário. Ao aceitar a nossa vulnerabilidade (que é inevitável) tornamo-nos mais resilientes sem que o percebamos, já que o erro não deve definir quem somos, mas sim aquilo que estamos a tentar superar.
“o erro não deve definir quem somos, mas sim aquilo que estamos a tentar superar”
Em última análise, reivindicar o direito ao erro é reivindicar a nossa própria humanidade num mundo que nos tende a transformar em máquinas. Que tenhamos a coragem de ser imperfeitos, a audácia de tentar e a liberdade de crescer sobre os nossos próprios erros. Afinal, a vida não é medida por aquilo que acertamos de primeira, mas pela capacidade de nos reinventarmos depois de cada queda – “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.
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