Opinião de Isabela Gomes - Academia de Política Apartidária
Também incluído no FEPIANO 68, publicado em Junho de 2026
Tendemos a conceber a História enquanto disciplina sob uma perspetiva neutra e factual acerca do passado da Humanidade como um todo, contudo, ela não é tão objetiva quanto imaginamos. Neste artigo, abordaremos duas visões distintas acerca do surgimento das relações internacionais: a visão do Sul Global e a visão do Norte Global.
O que são as relações internacionais e como surgiram?
As relações internacionais, como o próprio nome indica, são as relações que se estabelecem entre sujeitos internacionais como Estados, organizações governamentais e não governamentais, empresas multinacionais e até indivíduos de diferentes países. Estas relacionam-se com a política internacional, que diz respeito à prática concreta das relações internacionais, isto é, a como os sujeitos internacionais interagem entre si para alcançar os seus interesses e objetivos.
Segundo a narrativa tradicional (Norte Global), as relações internacionais e o sistema internacional surgiram em 1648, com a Paz de Vestefália, um conjunto de tratados que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos, que envolvia vários estados europeus. A guerra iniciou-se como um conflito religioso, mas rapidamente tornou-se numa disputa por poder político que se alastrou pela Europa Ocidental.
A Paz de Vestefália estava assente em valores como a soberania estatal, a igualdade jurídica entre Estados e o princípio da não intervenção, sendo, por isso, considerada responsável pela reorganização e por um maior equilíbrio do poder político na Europa.
No entanto, esta narrativa tende a centrar-se exclusivamente na experiência europeia, ignorando que, no mesmo período histórico, a expansão europeia para outras regiões do mundo era acompanhada por processos de colonização, escravização e exploração. Assim, enquanto no plano intra-europeu se consolidavam princípios de soberania e igualdade formal entre Estados, no plano global desenvolviam-se relações hierárquicas, frequentemente sustentadas por lógicas de dominação e hierarquização racial.
Importa salientar que as relações entre nações já existiam quando a Paz de Vestefália surgiu, e em maior escala, visto que envolviam três continentes: África, América e Europa. A narrativa não tradicional (Sul Global) sustenta que a chegada de Cristóvão Colombo à América constituiu o momento fundador do sistema global. Contudo, as relações que se estabeleceram a partir deste momento não eram baseadas na soberania e respeito mútuo, mas sim em lógicas imperialistas que dividiam a humanidade consoante a raça e a religião. Como resultado, consolidaram-se relações assimétricas e assimilativas entre metrópoles e colónias.
Estas duas perspetivas não representam apenas interpretações diferentes do passado, mas formas distintas de compreender o próprio sistema internacional. Em última análise, este debate evidencia que a História não é uma narrativa neutra ou única, mas sim um campo composto por múltiplas interpretações que refletem diferentes posições. Reconhecer esta pluralidade não apenas enriquece a compreensão histórica, como também permite questionar as bases sobre as quais a realidade atual é interpretada e legitimada.
“este debate evidencia que a História não é uma narrativa neutra ou única”

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