Pedro Nuno Teixeira é o novo reitor da Universidade do Porto.

Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto (FEP), com um mestrado em Economia do Ensino Superior pela Universidade de Twente nos Países Baixos e Doutor em Economia pela Universidade de Exeter no Reino Unido, é Professor Catedrático na FEP, onde leciona desde 1995.

Foi investigador e professor visitante das universidades de Oxford, Califórnia-Berkeley e SUNY-Albany. Atualmente, é investigador integrado do CIPES – Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior, do qual já foi diretor, e foca-se na história do pensamento económico e na análise económica e política da educação.

Entre muitos outros cargos, já foi Secretário de Estado do Ensino Superior (2022-2024), Consultor da Casa Civil da Presidência da República para o Ensino Superior e a Ciência (2016-2021) e para o Ensino Superior e Economia (2021-2022), Membro do Conselho Nacional da Educação (2014-2019) e do Conselho de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos (2013-2018).

Que memórias guarda do seu tempo na FEP e como é que essa experiência
moldou o seu percurso?

Eu fui aluno aqui entre 90 e 95, há mais de 30 anos.  Este edifício não existia. Portanto, era uma realidade diferente, a faculdade era mais pequena. Lembro-me, por exemplo, se pensar nos meus colegas, que havia pessoas de sítios muito diferentes do país e a grande maioria dos meus colegas eram de fora da área metropolitana do Porto. Era muito diverso. Isso normalmente traduzia-se, não especificamente para o meu ano, mas acho que para muitos dos outros anos, numa vivência de faculdade muito grande, sobretudo para aqueles que não eram do Porto. Passavam muito tempo na faculdade e conviviam muito com os colegas da faculdade. Portanto, essa era uma vivência muito forte e foi um ano bastante especial. Sei que é um bocadinho suspeito estar a elogiar o meu ano, mas não é por acaso que, quando foi feito agora, no final do ano passado, o convívio dos antigos alunos, e foi lançado o desafio de que o ano que tivesse mais pessoas inscritas no jantar tinha o direito a plantar uma árvore, foi precisamente o meu ano que plantou a árvore que está neste pátio interior (Edifício de Pós-Graduações da FEP). Ou seja, foi um ano com uma relação entre as pessoas muito forte e com muitas pessoas que tiveram carreiras bem-sucedidas, tal como felizmente acontece frequentemente na FEP, por atrair alunos muito bons, não apenas academicamente, mas também com qualidades do ponto de vista social e profissional. Também era um ano muito competitivo, às vezes demasiado. Em termos de formação há 2 coisas de que eu me lembro muito. A primeira era que era uma formação de 5 anos, então cobria muitas coisas, quer do ponto de vista da amplitude, quer mesmo dentro da economia. Por outro lado, era uma formação muito exigente. Os estudantes continuam a ter um choque no primeiro ano, mas na nossa altura era um choque particularmente duro, quando combinávamos a exigência com a amplitude da formação. Acho que foi uma formação de grande qualidade, mas também de grande abrangência, que eu acho que foi importante para o meu percurso.

Cresceu em Portugal num período de grandes transformações económicas como a integração europeia e a liberalização dos mercados. De que forma esse contexto moldou a sua curiosidade pela economia?

Eu comecei a pensar na Economia no 9ºano porque tive um professor de Economia muito bom, o que muitas vezes influencia as nossas escolhas. Eu sempre gostei muito de Matemática e de História e achei que a economia era o ponto intermédio. Portanto, resolvi começar a explorar isso, numa altura em que, de facto, a economia se ia tornando um curso cada vez mais conhecido, mais valorizado, com notas de entrada altas. Numa altura também, no final dos anos 80, em que os economistas eram muito importantes por causa dessas transformações. A questão da integração europeia, eu acho que também moldou, porque é uma das primeiras gerações que vive plenamente essa abertura. E, portanto, eu comecei por fazer um estágio da AIESEC, em Espanha, aproveitando uma oportunidade de circulação internacional. Depois, nessa altura, ainda ponderei concorrer a Erasmus, mas não era compatível. Então resolvi concorrer no ano seguinte e, portanto, no quinto ano fui em Erasmus a Grenoble. É uma geração que começa a circular muito mais e a ver a Europa cada vez mais como um espaço de circulação, de formação, de aprendizagem, mas também de desenvolvimento profissional. E, portanto, acho que estas duas dimensões, claramente, moldaram muito o meu percurso. Aliás, depois a minha formação é realizada em outros países europeus e muito do meu percurso profissional é também muito desenvolvido à escala internacional.

Sendo economista de formação, o que o levou a dedicar grande parte da sua carreira ao estudo e às políticas do Ensino Superior?

O desencadear foi um bocadinho um acaso. O reitor da altura, o Professor Alberto Amaral, que estava no seu último mandato, começou a ter um crescente envolvimento a nível europeu. Foi-se interessando cada vez mais sobre o que se estava a passar noutros países europeus e começou a conceber ter um centro de investigação dedicado às questões das políticas do ensino superior. Na altura, recomendaram-lhe que seria interessante ter pessoas com formação em Economia. Ele contactou a faculdade e sugeriram o meu nome. Sempre gostei muito das questões da Educação e a ligação à política e às políticas públicas também sempre foi algo que me interessou. Então fui-me interessando e envolvendo-me mais pelas questões do Ensino Superior. Quando o Professor Alberto Amaral termina o seu mandato, formaliza-se a criação do centro de investigação e a sua instalação no edifício onde está até hoje, em Matosinhos, e começaram os primeiros projetos internacionais. Era desafiante, mas o diálogo entre pessoas com diferentes formações, tendo em conta que na altura eu era o único Economista da equipa, também me foi atraindo.

Tendo sido Secretário de Estado do Ensino Superior, qual foi a decisão ou reforma mais difícil que teve de tomar e da qual hoje mais se orgulha?

Não sei se aquilo mais difícil é aquilo de que nós mais nos orgulhamos. Eu gostei muito da experiência precisamente porque achei que foi possível concretizar algumas coisas importantes. Eu diria que houve dois processos que foram difíceis e que eu acho que foram importantes para o sistema porque eram estruturantes. O primeiro foi a revisão do modelo de acesso ao Ensino Superior, que estava interligado com dimensões do Secundário como a reintrodução dos exames, o aumento do peso dos exames e o número de provas em que o aluno tinha de ter positiva. Também a questão do projeto-piloto para os estudantes mais desfavorecidos, os melhores alunos terem aquele contingente prioritário e a questão da antecipação do calendário. Ou seja, os estudantes não terem de esperar até meados de setembro para saber os resultados, e a colocação ser feita no final de agosto, para os estudantes deslocados terem mais tempo para encontrar casa e para se organizarem, porque tipicamente eram colocados, na segunda-feira seguinte tinham de se matricular e muitas vezes as aulas começavam nessa mesma semana. A antecipação do calendário também permitia que os estudantes da segunda fase fossem colocados sensivelmente quando as aulas estavam a arrancar e não perdessem praticamente aulas nenhumas, o que era também relevante. A outra que eu destacaria, que também foi difícil, foi a questão da reintrodução do modelo de financiamento. No contexto da crise de 2010, é suspenso o financiamento do Ensino Superior e as várias tentativas ou discussões de reintrodução de regras que são aplicadas para todas as instituições públicas em termos iguais para todos embarravam sempre em muitas resistências. Portanto, no seguimento de uma avaliação da OCDE, houve uma discussão com as instituições e o modelo que está em vigor desde 2023 e que teve continuidade, é o modelo mais estável desde os anos 90. Acho que o sistema precisa de regras estáveis, as instituições precisam de previsibilidade do ponto de vista do financiamento, além de que havia distorções muito grandes, porque o financiamento por estudante era muito diferente para instituições diferentes dentro das mesmas áreas, o que me parecia bastante iníquo. Se me permitem acrescentar, há algo que me deu muita satisfação, que foi na questão da ação social, se ter concretizado o processo do plano nacional de alojamento, ainda com os atrasos que existem, mas que são mais de 500 milhões de euros que foram alocados e que estão dedicados à questão da qualidade e da expansão do alojamento. E a questão das bolsas, a agilização do processo e o alargamento a um número significativo de estudantes, ou seja, haver mais estudantes a beneficiarem das bolsas e, no primeiro ano as bolsas passarem a ser automáticas para todos os estudantes que beneficiaram de apoio da ação social escolar no Ensino Secundário, mesmo que o valor da bolsa depois fosse acertado. Só para dar uma ideia, até 2021 o número de bolsas que eram pagas no mês de setembro andava na casa das 3.000 ou 4.000 bolsas, e em 2023 foram pagas perto de 40.000 bolsas. Não quer dizer que os estudantes não recebessem esse dinheiro, mas recebiam-no com muitos meses de atraso e para quem tem problemas a nível de rendimento isso faz muita diferença. Portanto, eu senti que para aqueles milhares de estudantes e as suas famílias isso pode ter feito diferença. Se calhar, se não tivessem recebido rapidamente a bolsa alguns alunos teriam desistido. Portanto, é daqueles momentos em que sentimos que, se calhar, fizemos a diferença para algumas pessoas e, sobretudo, para pessoas em situação de grande vulnerabilidade. A agilização do processo, com os estudantes a receberem as respostas aos seus requerimentos muito mais rapidamente, além de haver mais dinheiro para as bolsas e mais estudantes bolseiros, são daqueles aspetos em que fico mais satisfeito por ter podido ter alguma influência.

Portugal tem um défice histórico de qualificações face à média europeia. Como Reitor de umas das melhores universidades do país, que responsabilidade sente nessa equação económica?

Apesar desse défice, quando nós hoje olhamos para as gerações mais novas, estamos muito melhor do que aquilo que estávamos há 20 ou 30 anos atrás, e nas gerações mais novas já estamos mais ou menos a par daquilo que é a média da OCDE e da UE. Portanto, eu diria que um dos desafios que nós temos é o de recuperar terreno face às gerações mais velhas, pessoas que têm 30-40 anos, que ainda são muito jovens e que ainda vão ter muitos anos à frente no mercado de trabalho. Uma instituição como a Universidade do Porto com o prestígio que tem, com a qualidade que tem, acho que tem uma obrigação de pugnar pela qualidade na formação, não apenas no sentido da exigência, mas também de relevância para o tempo em que vivemos. Portanto, tem de ser uma instituição líder do ponto de vista da inovação pedagógica, daquilo que ensinamos, da forma como aprendemos, estudamos, avaliamos, e claramente, tem essa responsabilidade e  essas condições pela qualidade dos docentes e dos estudantes. Ao mesmo tempo, precisamente por esse prestígio, sabemos que um diploma da UP abre portas e, por esse motivo, acho que é muito importante continuarmos a ser uma instituição que atrai estudantes motivados de contextos socioeconómicos menos favorecidos, porque, se para todos fará diferença a formação no ensino superior, para esses fará particular diferença. Continuarmos a ter capacidade para sermos uma instituição que dá oportunidades de mobilidade social a muitos jovens é algo muito importante e por isso é preciso que nós não nos fechemos apenas àqueles alunos que, digamos assim, têm todas as condições para chegar ao Ensino Superior. É preciso continuarmos a alargar a base do recrutamento em termos sociais do Ensino Superior, e acho que uma instituição como a Universidade do Porto tem também uma responsabilidade aí.

O Ensino Superior português debate-se com o financiamento público insuficiente. Qual o custo económico real, para o país e para as famílias, de não resolver este problema?

Isso é uma questão persistente e, aliás, eu não posso dizer uma coisa diferente agora que tenho funções políticas do que dizia antes, porque era pública e, de facto, eu coordenei, juntamente com o resto da equipa ao nível do Ministério, um aumento substancial do financiamento do Ensino Superior e, quer em 2023, quer em 2024, isso aconteceu. Ou seja, não só houve um aumento em termos reais, mas, aproveitando o processo inflacionário, também houve um aumento relevante no financiamento do Ensino Superior, tanto através do Orçamento de Estado quanto de outras fontes de financiamento. E, portanto, os últimos anos foram anos de alguma melhoria. Mas é um problema, porque, mesmo no contexto da realidade de Portugal, nós temos um financiamento por estudante no Ensino Superior muito pior quando comparado com a Europa do que quando comparamos o financiamento por aluno no Ensino Superior com o do Ensino Básico e Secundário. Isso obviamente cria problemas. O dinheiro não resolve tudo, mas ajuda, permite condições. Quando nós pensamos em modernizar os nossos métodos de ensino e aprendizagem, isso implica outras instalações. Quando pensamos, por exemplo, na questão da equidade e das preocupações do ponto de vista do alargamento das oportunidades, as residências são importantes e carecem de dinheiro, de financiamento. A questão da própria atratividade e da valorização dos profissionais, seja dos docentes, seja dos técnicos. Se nós queremos ter quadros técnicos que se esforcem, que se sintam motivados, a questão salarial também é uma questão importante. Por isso, termos essa restrição financeira significativa numa altura em que estamos a competir com outras universidades europeias que têm níveis de financiamento claramente melhores tem consequências. Nós pagamos um preço por isso, mas, como é mais escondido, muitas vezes estas coisas só se percebem ao fim de alguns anos. Mas é claramente uma área em que precisamos de traduzir em prática aquilo que dizemos nos discursos. É preciso que a afetação de recursos reflita também essas prioridades.

Agora falando da questão da fuga de talento qualificado, as universidades, como a do Porto, formam profissionais qualificados, mas perdem investigadores e docentes para o estrangeiro. O que falha e o que pode e deve mudar?

Eu acho que a questão tem várias facetas. Há um lado que é normal e é expectável que muitos diplomados da Universidade do Porto queiram ter uma experiência internacional. Se nós temos muitos acordos internacionais, de mobilidade, aulas em inglês, estamos a estimular isso e a dizer que é algo importante, por isso seria um pouco incongruente esperar que depois dessas experiências todos os estudantes quisessem ficar em Portugal ou no Porto. A Europa tornou-se um espaço de circulação quase natural para muitos jovens, sobretudo jovens qualificados. Também têm mais oportunidades e mais escolhas por serem mais qualificados, o que quer dizer que têm uma formação de qualidade. É sinal de que o nosso Ensino Superior e a Universidade do Porto estão a fazer o seu papel de proporcionar uma formação de qualidade de padrões internacionais. O lado que nos deve preocupar não é que eles saiam, é que eles não voltem. Como criar condições para estas pessoas que saíram, ganharam experiência internacional e uma experiência de vida certamente enriquecedora, que se calhar gostariam de regressar, mas não regressam. Não regressam certamente porque os salários não são compatíveis com o padrão de rendimento e de vida que adquiriram e os ambientes organizacionais em Portugal também não são muito apelativos. Portanto, o esforço que temos de fazer enquanto país e região é o de criar condições para que estas pessoas possam regressar e para que consigamos atrair outras pessoas de outras geografias, porque temos um problema demográfico sério em Portugal, a Região Norte tem um problema sério de envelhecimento e perda de população, e vai precisar de atrair pessoas para revitalizar a região em termos demográficos e económicos. E acho que a universidade também tem alguma responsabilidade de ajudar a região a ser mais atrativa, a criar empregos, ambientes de trabalho e desenvolvimento profissional mais atraentes, para que, mesmo saindo, as pessoas tenham vontade de regressar, trazendo um capital de conhecimento e experiências muito valioso para muitas organizações nacionais e regionais.

Que leituras trouxe do exterior acerca dos erros e as oportunidades da economia portuguesa e do ensino superior?

O nosso processo de integração europeia teve muitos benefícios. Eu diria que um dos mais importantes foi ter mudado os nossos padrões de referência. Nós passámos a ter mais exigência enquanto país e sociedade, e aconteceu exatamente o mesmo no Ensino Superior. Agora já não queremos apenas ser a melhor universidade da região norte ou do país, queremos ser uma grande universidade de referência e prestigiada a nível europeu, o que é muito mais exigente que os padrões que tínhamos há 30 ou 40 anos. Podemos não nos lembrar disso, mas de facto isto significa que queremos que Universidade do Porto seja uma universidade reconhecida e valorizada por parceiros de países mais desenvolvidos com níveis de financiamento muito mais generosos, com os quais muitas vezes não nos comparamos muito bem em muitos indicadores socioeconómicos, mas com os quais nos comparamos muito bem do ponto de vista do Ensino Superior e da investigação. Perceber que há outras realidades tornou-nos mais abertos e mais exigentes, o que se reflete na qualidade das instituições de Ensino Superior.

Houve algum momento da sua vida pessoal (um livro, uma pessoa ou algum evento socioeconómico) que tenha mudado profundamente a sua forma de pensar o desenvolvimento económico?

Eu acho que, do ponto de vista da formação, realmente os professores moldam isso. Costumava dizer aos meus colegas que vinha normalmente às aulas quando as aulas eram interessantes, quando a matéria era interessante e, sobretudo, quando os professores eram interessantes. Tento lembrar-me sempre disso quando dou aulas, tento que as aulas sejam interessantes para que os estudantes que venham sintam que vale a pena. Eu tive alguns muito bons professores que me marcaram muito. Acho que provavelmente a pessoa que mais me marcou, não necessariamente do ponto de vista do desenvolvimento económico, mas de “pensar” a Economia e pelo percurso académico, foi o professor António Almodovar, que faleceu faz este ano 10 anos. Foi de facto uma pessoa que não me marcou apenas a mim, marcou muitas pessoas e a faculdade institucionalmente, porque era um grande professor, um investigador muito reputado na sua área em termos internacionais. Era uma pessoa com um sentido, envolvimento e dedicação institucional muito grande, uma pessoa com um sentido de humor muito particular, mesmo em momentos de tensão e dificuldade. Era uma pessoa intelectualmente superior e, depois com o tempo tornou-se um grande amigo, do qual tenho muitas saudades.

No ano passado, as candidaturas à universidade registaram um mínimo histórico. Sabendo que a falta de candidaturas não afetou diretamente a Universidade do Porto, qual acha que é a motivação por detrás deste fenómeno?

A quebra tem vários fatores. Eu diria que o fator, ao nível do sistema, mais importante, que era mais ou menos previsível e os dados que o próprio Ministério divulgou mais recentemente confirmaram isso, é a reintrodução dos exames que tinham sido suspensos no contexto da pandemia. Os valores dos diplomados do Ensino Secundário e dos candidatos ao Ensino Superior estão muito em linha com os valores que tínhamos em 2018 e 2019, ou seja, os dois últimos anos em que tínhamos tido exames. E que, aliás, não são resultados muito negativos, como eu disse na altura em que saíram as colocações, criando alguma perplexidade. Porque depois há outros dois fatores que foram importantes. A tendência demográfica e a tendência de redução da procura. As duas estão relacionadas, provavelmente por algum efeito dos custos de alojamento que poderão ter tido aqui um papel. Entre 2021 e 2024, período em que os exames não foram suspensos e que só havia exames para ingresso, nós tivemos uma quebra de quase 10% dos candidatos, o que quer dizer que, ceteris paribus, há uma redução clara. Quer pela tendência do ponto de vista demográfico, quer por exemplo, por estarmos perto do pleno emprego, e pode parecer muito atraente para algumas pessoas entrarem imediatamente no mercado de trabalho e decidirem não continuar a estudar. Portanto,  e extrapolando um bocadinho o que seria normal, se nós vínhamos com esta tendência de quebra dos últimos anos, era de esperar que os valores de 2025 estivessem manifestamente abaixo dos valores de 2018 e 2019, mas não estão. Depois há o fator que deu maior polémica, e que eu acho que é aquele que teve menos impacto. A questão das provas de ingresso foi, sobretudo, mexer em algo que eu acho que era um sinal importante que nós precisávamos de continuar a dar. Olhando para os últimos 20 anos, nós fomos introduzindo fatores de valorização, exigência e de qualificação do acesso ao Ensino Superior, no fundo, dando o sinal de que queremos muito mais pessoas a estudar no Ensino Superior, mas queremos que os candidatos e a sociedade sintam que isto é feito com esforço e com qualidade. Foi assim com a questão da introdução dos exames, foi assim com a introdução da nota mínima, porque antes era possível tirar 0 a Matemática e entrar num curso de Economia desde que houvesse vagas. Portanto, o que se introduziu em 2023 com efeitos para 2025 era que os alunos, em vez de serem apenas obrigados a terem uma positiva, tinham que ter pelo menos duas positivas, porque os alunos fazem três exames. Eu acho que o caminho natural seria que, a médio prazo, os alunos tivessem que ter positiva em todos os exames. Estamos a falar de 9,5! Por isso, quando ouço pessoas a dizer que isto é um sistema elitista, que é um sistema demasiado exigente, mas quando alguém se preparou para um exame de disciplinas que, em muitos casos, frequentou durante 2 ou 3 anos, numa área que escolheu e não consegue atingir 9,5 acho que nos deve suscitar reflexão. Se achamos que a forma de resolver os problemas é aliviar essa pressão, não só não é um bom sinal, mas também acho que é uma ilusão, pois temos uma tendência demográfica adversa. Não acho que envie um sinal para os estudantes, para as famílias e para os empregadores que valorize o Ensino Superior. Se nós dizemos que a entrada deve ser de qualquer maneira, não acho que estejamos a prestar um bom serviço ao Ensino Superior.

De que forma pensa que o seu conhecimento de História do Pensamento Económico molda a sua forma de pensar e as decisões que já tomou nos diversos cargos que já desempenhou? Que importância atribui ao estudo da história nos dias de hoje, em particular da história económica?

Eu sempre gostei muito de História e, portanto, sou suspeito. Acho que, mais do que aquela questão de que a História nos ajuda a não repetir os erros (não sei se a história da humanidade ajuda muito esse argumento), mas acho que sobretudo nos dá uma noção de que, certamente no caso da Economia, o sistema económico é o resultado de escolhas, não é uma fatalidade, nem um destino. Uma das coisas que me dá alguma satisfação quando leciono História do Pensamento Económico, é perceber que a Economia vive num contexto de instituição. Aliás, os recentes Prémios Nobel da Economia valorizaram exatamente a dimensão institucional e o quanto afeta e influencia o comportamento das economias e o seu desempenho de longo prazo. E, portanto, para mim foi importante essa dimensão institucional de construção histórica, de que as coisas têm o seu tempo, têm a sua maturação, e isso molda o comportamento das sociedades e o comportamento da atividade económica. E isso é notável. Ao longo do tempo nós fomos mudando em termos das nossas prioridades, daquilo que nós achávamos que era mais importante e das formas que que eram mais adequadas e mais eficazes para atingir determinados objetivos. E acho que, sobretudo no caso da História do Pensamento Económico, também alimenta um certo sentido crítico sobre os diferentes autores. Perceber que um autor que se calhar é muito valorizado num determinado período, se calhar daqui a algum tempo pode ser menos valorizado. Ou que um autor que foi mais esquecido, a que na altura não se prestou atenção, nos ajuda depois a descobrir ou redescobrir aspetos que são muito úteis para compreender realidades contemporâneas. E, portanto, acho que isso claramente me influenciou na forma como eu olho para o dever das sociedades e para a forma como eu olho para o papel das instituições. Também para uma dimensão, se calhar do ponto de vista da formação universitária, de que, se é verdade que nós muitas vezes valorizamos, e bem, a preparação que estamos a fazer para um percurso profissional, esses percursos profissionais também são diversos e muito notáveis. E o papel da universidade não se esgota apenas nisso, no sentido técnico e científico, mas tem uma dimensão de formação intelectual e cívica que é muito importante. E é por isso, por exemplo, que o papel que uma disciplina de História do Pensamento Económico ou de História Económica na formação de futuros economistas é também, nesse sentido, muito relevante.

Com que economista, clássico ou contemporâneo, mais se identifica?

Eu sou relativamente eclético. Acho que, tendencialmente, eu diria que o que eu aprecio em alguns economistas, mesmo não partilhando necessariamente as suas ideias, é a sua criatividade, a sua persistência, a sua capacidade de identificar um problema e tentar encontrar ou propor uma solução engenhosa intelectualmente fascinante sobre isso. Portanto, consigo apreciar isso em economistas muito diferentes. Acho que enquanto economista, houve um autor que foi, para mim, também muito influente, até porque o seu percurso e o meu percurso, de certa forma, seguem, alguns aspetos comuns. Foi o meu orientador de doutoramento, Mark Blaug, que foi um grande historiador do pensamento económico e foi, também, um dos pioneiros da economia da educação, nos anos 60. Aliás, foi por isso que eu pensei nele, quando pensei em quem orientar o meu projeto de doutoramento, que era da História da Economia da Educação e a História da Teoria do Capital Humano, porque ele tinha estado em alguns desses estudos, em alguns desses desenvolvimentos. Além disso, tinha um conhecimento enciclopédico da Economia, que, hoje em dia, é absolutamente impossível. Era uma pessoa que lia e conhecia trabalhos ou contributos em áreas muito diferentes da Economia. É uma figura, hoje em dia, porventura, impossível de replicar, mas com preocupações que vale a pena nós preservarmos enquanto ciência económica, enquanto economistas de abertura.

Quais são os temas da História que nunca se cansa de investigar e ensinar?

Eu fui variando bastante em termos daquilo que eu fui fazendo em termos de serviço docente. Eu acho que fui muito influenciado pela pessoa com quem eu comecei a trabalhar como assistente, que foi a professora Maria de Fátima Brandão. Foi uma pessoa muito importante para esta casa em muitos aspetos, enquanto professora e enquanto colega. E uma das suas grandes preocupações, provavelmente a sua grande preocupação intelectual em termos de história económica, era perceber como surgiu uma economia de mercado, como cresceu uma economia de mercado, qual é o papel do mercado, quais são as implicações de uma economia de mercado para o resto da sociedade. Acho que esse é um tema, eu diria, inesgotável, porque nós vivemos permanentemente nessa tensão entre aquilo que é nós pensarmos sobre o sistema económico numa lógica puramente, se quisermos, económica, em termos de comportamento, mas ao mesmo tempo percebendo que nós somos pessoas com diferentes facetas, e a tensão que isso muitas vezes cria ao nível político, ao nível social, ao nível familiar. Ou seja, as mutações em termos do sistema económico também têm implicações no resto das outras esferas, mas as outras esferas também condicionam, influenciam e pressionam o sistema económico. Portanto, perceber o que é esta relação entre uma economia de mercado e uma sociedade de mercado, ou como é que nós compatibilizamos a sociedade e a política com uma economia de mercado.

Que livro e filme recomendaria aos nossos leitores?

Esta é a pergunta mais difícil! É difícil porque acho que há livros que me marcaram muito em determinados momentos e nós vamos mudando. Ando sempre rodeado de livros, frequentemente ando com livros na mochila, na mala, no carro, para se tiver um momento de pausa poder ter um livro para ler e sou bastante eclético, gosto de ler sobre muitas coisas diferentes. Um livro clássico, não nos deixando intimidar pelo tamanho, seria a “Ilíada” de Homero. É um livro fascinante na forma como o narrador retrata que não há vencedores e vencidos, há uma igual dignidade e respeito. Em relação a autores mais recentes, destacaria dois estrangeiros: Marguerite Yourcenar (nomeadamente pelas “Memórias de Adriano”) e Philip Roth, até pelo seu registo um bocadinho sarcástico. Para os tempos atuais, recomendaria o livro dele “A Conspiração Contra a América”, porque é um livro que reflete sobre o que aconteceria se, de repente, o presidente americano fosse um fantoche eleito por poderes estrangeiros que o vão manipulando e introduzindo um regime autoritário nos Estados Unidos da América. Nos portugueses, nos clássicos, provavelmente destacaria Camilo Castelo Branco que é um autor que acho injustamente pouco lido, um autor tão ou mais divertido que Eça de Queirós, mas que é muito mais tolerante com as fraquezas humanas. Nos contemporâneos tenho de mencionar Saramago, pelo seu sentido de humanidade, mesmo no meio das maiores tragédias e sofrimentos. Em relação a autores contemporâneos ainda vivos, Mário de Carvalho e Luísa Costa Gomes têm um domínio da palavra e um sentido de humor inigualáveis. Sou muito menos cinéfilo do que leitor, por isso tendo a pensar em filmes mais antigos do que recentes, por exemplo “Os despojos do dia” de James Ivory baseado num livro de Kazuo Ishiguro que foi Prémio Nobel da Literatura, que é um retrato fascinante de um mundo que está a terminar, na contenção da vontade do ser humano. Um filme que vi há muitos anos do qual também gosto muito é “Juncos Silvestres” porque é muito sobre a juventude, a passagem à idade adulta, que é um período que marca sempre muito em vários aspetos. Num tom mais leve, mais divertido, os anos 80 e 90 do Pedro Almodôvar foram muito marcantes e fascinantes para quem vivia aqueles tempos de mudança social. São filmes de que me lembro frequentemente e como já têm algumas décadas podem ser uma forma de os atuais estudantes da FEP descobrirem filmes e cineastas com que a minha geração cresceu.