Óscar Afonso é o atual diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. A sua ligação à FEP é longa, já que concluiu a sua licenciatura, mestrado e doutoramento nesta faculdade e, em seguida, começou a lecionar nesses ciclos de estudo, tornando-se Professor Catedrático.

Paralelamente, foi sócio-fundador do OBEGEF – Observatório de Economia e Gestão de Fraude, onde assumiu o cargo de vice-presidente e depois de presidente. Também participou em projetos de consultoria e aconselhamento de políticas públicas em colaboração com instituições nacionais e internacionais.

Já escreveu mais de 140 artigos publicados em revistas científicas de elevada reputação e é autor de artigos de opinião em jornais como o Expresso e o ECO.

Todo o seu percurso académico foi realizado na FEP e na área da Economia. Quais foram as razões que motivaram a sua escolha?

É uma pergunta difícil. Na família, sentia alguma pressão para seguir outras áreas, mas o que pesou verdadeiramente foi a curiosidade de desejar compreender como funcionam os fenómenos económicos e sociais e de que forma as decisões — das famílias, das empresas e do Estado — moldam a vida das pessoas. Comecei a interessar-me por esses temas, muito influenciado por um familiar economista, por quem tinha — e tenho — grande estima. Curiosamente, também ele se formou na FEP.

Atraía-me a ideia de juntar raciocínio quantitativo com impacto social: usar dados e modelos para explicar a realidade e melhorar decisões. Por isso, quando chegou o momento de escolher, a FEP foi um passo natural. Vale a pena lembrar que, em 1986, quando comecei, só existia a licenciatura em Economia; a distinção formal entre Economia e Gestão era menos marcada do que hoje. O currículo era abrangente e combinava áreas de Economia com cadeiras de Gestão — nomeadamente, finanças e contabilidade —, o que acho que me permitiu ter uma formação sólida e versátil, com rigor analítico e ligação prática às empresas e às políticas públicas.

Neste momento, o que torna a FEP única quando comparada com outras faculdades de economia e gestão?

Sempre vi a FEP como uma escola de excelência — foi por isso que a escolhi desde o primeiro momento. Tinha média para entrar e quis vir para aqui precisamente pela sua reputação, construída pela qualidade da formação e pelo desempenho dos seus diplomados nas empresas, organizações e instituições por onde passam.

Para mim, o que torna a FEP única continua a ser a combinação de rigor científico — real e exigente — com uma forte ligação ao tecido empresarial e um compromisso efetivo com a formulação de políticas públicas. Esta ponte entre teoria sólida e prática real é, a meu ver, a sua marca distintiva.

Destaco também o equilíbrio entre tradição e inovação. Temos mais de 70 anos de história, mas existe uma preocupação constante em atualizar programas e métodos de ensino. Muitas vezes, por estarmos “por dentro”, achamos que somos lentos nesse processo; no contexto global, não o somos.

Acresce um corpo docente altamente qualificado e cada vez mais internacionalizado, o que enriquece a experiência académica e aproxima a escola das melhores práticas. A isto junta-se uma experiência multicultural crescente, com estudantes de um número cada vez mais variado de países — idealmente, de todo o mundo —, dimensão que queremos continuar a potenciar. Vai exigir trabalho, mas vamos conseguir.

A FEP distingue-se, pois, por unir exigência académica, proximidade ao mundo profissional e abertura internacional, preservando a sua história enquanto se renova.

Como imagina a FEP daqui a 10 anos? 

Sinceramente, imagino a FEP ainda mais internacional. Gostaria de a ver integrada em redes globais de investigação e ensino, com parcerias estratégicas, programas conjuntos e maior circulação de docentes e estudantes. Continuará a ser uma referência nacional, mas também europeia, nas áreas de Economia, Finanças e Gestão — com produção científica reconhecida e impacto real nas políticas públicas e nas empresas.

Vejo igualmente um campus cada vez mais tecnológico e sustentável, com salas inteligentes, laboratórios de dados e energia limpa, e uma oferta académica híbrida que combina o melhor do ensino presencial com formatos online de elevada qualidade. A aposta em microcredenciais, lifelong learning e formatos flexíveis poderá aproximar ainda mais a escola do tecido empresarial e dos alumni.

E imagino, por fim, uma comunidade estudantil — já hoje muito vibrante — ainda mais diversa, coesa e com forte sentido de pertença à FEP: clubes ativos, mentoria de pares, redes de alumni internacionais e uma vida académica que valoriza tanto a excelência como o bem-estar.

Quais serão as suas principais prioridades para este novo ano letivo? 

Neste ano letivo, gostaríamos de reforçar a qualidade do ensino e da investigação, colocando sempre as pessoas no centro. Estamos a atualizar programas, a promover práticas pedagógicas mais ativas e inclusivas e a ligar, de forma sistemática, aulas, casos reais e competências digitais, para que cada estudante encontre espaço para aprender, participar e crescer.

Novas ofertas formativas vão ser uma das prioridades. Entram este ano em funcionamento novos mestrados executivos. No próximo ano letivo, juntaremos o mestrado executivo em Business Analytics, reforçando a aposta em dados e decisão. As novas licenciaturas não avançam já; prepará-las-emos para o próximo ano.

No campo da investigação o CEF.UP muda-se para o novo edifício, com melhores condições para equipas e projetos (salas colaborativas, laboratórios de dados, espaços de seminários). Esperamos mais e melhor ciência, maior participação em projetos competitivos e transferência de conhecimento com impacto social. Contamos com novos professores auxiliares muito motivados para a investigação e com oportunidades de mentoria para estudantes — promovendo cultura de ciência aberta, rigor e integridade.

Vamos aprofundar parcerias internacionais (duplos diplomas, mobilidades, redes de investigação), garantindo acolhimento e acompanhamento a estudantes deslocados e internacionais. Reforçaremos a proximidade a empresas e instituições públicas, através de estágios, desafios reais em unidades curriculares, laboratórios de políticas públicas e formação avançada à medida, sempre com foco em sustentabilidade, ética e impacto.

E vamos pensar sempre nos Estudantes primeiro. Daremos um passo adicional em bem-estar e integração: mentoria de pares, semana de acolhimento com foco em literacia académica e saúde, mapa de avaliações previsível, e um ponto único de apoio (“one-stop help” em psicologia, percurso académico e carreira). Continuaremos a incentivar a atividade física e as pausas ativas, a promover ambientes de estudo acolhedores e acessíveis, e a articular com serviços e estruturas de apoio para que ninguém fique para trás.

Em suma, trabalhamos para uma FEP exigente e excelente, mas também mais humana, inclusiva e sustentável, onde cada pessoa encontra condições justas para aprender, investigar e participar na construção de um futuro melhor.

Que conselhos daria aos novos estudantes da FEP?

Aos que agora chegam e aos que já cá estão: aproveitem tudo — dentro e fora da sala de aula. Participem, perguntem, arrisquem. Construam redes de amizade e de trabalho: vão agradecer no futuro. Posso dizê-lo por experiência própria: quando estive fora da FEP, foi essa rede que me abriu portas e tornou tudo mais fácil.

Sejam curiosos e críticos. Não aceitem respostas fáceis. Participem nas aulas, mas também nas associações, núcleos e projetos extracurriculares — tudo conta para a vossa formação. Procurem mentores, falem com alumni, explorem estágios e programas de mobilidade quando fizer sentido. Aproveitem ainda os serviços de apoio (como o SDC) e os recursos da FEP.

O meu conselho é simples: desfrutem, aprendendo sempre, e sejam exigentes — convosco próprios e com os outros. É assim que se cresce: com alegria, disciplina e ambição.

Qual é, até ao momento, a sua memória mais estimada na FEP? 

O que mais me orgulha é ver colegas e ex-estudantes da FEP a alcançarem posições de destaque, em Portugal e no estrangeiro. É gratificante acompanhar as suas carreiras e perceber que o trabalho feito na FEP tem impacto real nas empresas, nas organizações e nas instituições por onde passam.

Guardo também um carinho especial pelas cerimónias de acolhimento: momentos de grande emoção e de expectativas renovadas. No fim, o que fica são as pessoas — as memórias partilhadas com colegas e, sobretudo, com os estudantes, porque a faculdade vive dos estudantes. Se as médias de entrada nas nossas licenciaturas estão entre as mais altas, é porque os estudantes são excelentes. Uma das maiores forças da FEP são, precisamente, os seus estudantes e a formação exigente que aqui recebem, algo que se confirma nas suas carreiras brilhantes e que nos enche de orgulho.

Esse reconhecimento não vem apenas de dentro: a FEP tem sido valorizada por entidades externas, como demonstra a distinção atribuída pelo Presidente da República, conferindo-lhe o estatuto de Membro Honorário da Ordem do Mérito. É um sinal de prestígio que honra toda a comunidade e reforça a responsabilidade de continuarmos a elevar a fasquia.

Qual foi o maior desafio que enfrentou como estudante na FEP?

Enfrentei muitos momentos de dúvida — naturais em qualquer percurso exigente — mas, no balanço, consegui superá-los com esforço, resiliência e vontade. Tive dúvidas muitas vezes. Lembro uma, logo no início: na primeira aula de Introdução à Economia, na sala 111, o anfiteatro estava a abarrotar e eu fiquei lá atrás. O professor falou de elasticidade e eu, lá do fundo, ouvi “eletricidade”. Pensei: “Mas o que é que eletricidade tem a ver com Economia? Enganei-me na faculdade e vim parar à FEUP?” (sorri). A verdade é que, depois do susto, percebi que a dificuldade era sobretudo a linguagem técnica e a adaptação ao ritmo da faculdade. Os desafios maiores foram, de facto, os do próprio curso.

Outros desafios que vale a pena enfatizar são: o domínio do “novo idioma” da Economia – conceitos, modelos, notação matemática e estatística (micro, macro, econometria), que exige tempo e prática –; a gestão do tempo; a mudança de método de estudo – passar de “decorar” para compreender e aplicar –; resolver problemas, discutir casos, pedir feedback; lidar com a ansiedade antes de testes e orais – aprender a preparar-me com antecedência, fazer exames de anos anteriores e manter rotinas básicas (sono, pausas, alimentação); pedir ajuda – falar com docentes, colegas e monitores quando algo não estava a fluir –; não ficar preso sozinho às dúvidas; aceitar o erro como parte do caminho – notas abaixo do esperado servem para ajustar estratégia, não para desistir –; manter o foco no longo prazo, mesmo quando a curva de aprendizagem parece íngreme.

Para quem está a começar: dúvidas não são sinal de fracasso — são combustível de aprendizagem. Com método, apoio e constância, o que hoje parece um “bicho de sete cabeças” amanhã torna-se ferramenta de trabalho.

E se pudesse voltar a ser caloiro, o que faria diferente?

Se fosse hoje, aproveitaria as oportunidades de mobilidade internacional. Na minha altura havia muito menos opções; agora existem programas Erasmus, summer schools, semestres em escolas parceiras e até duplos diplomas.

Também participaria ativamente em organizações estudantis. Antes, a oferta era sobretudo a Associação de Estudantes e a AIESEC; hoje há núcleos temáticos, júnior-empresas e clubes (consultoria, investimento, dados, empreendedorismo) que dão experiência prática e criam rede.

E entraria mais cedo em projetos de investigação – as oportunidades na altura eram praticamente inexistentes.

O que acrescentaria, se voltasse atrás e tivesse sido possível – maior dedicação a: aprendizagem de línguas; competências de dados; certificações úteis; experiências práticas de curta duração – estágios de verão, projetos com empresas em UC, voluntariado qualificado (pro bono para ONGs/autarquias) –; concursos e case competitions – ótimos para treino de apresentação, análise e trabalho em equipa –; mentoria e rede; bem-estar e método de estudo – rotinas simples (sono, exercício, pausas ativas) e planeamento semanal –; comunicação e escrita – treinar escrita académica e pitches de muito curta duração.

No fundo: dizer mais vezes “sim” ao que expande horizontes, começar cedo, e transformar cada cadeira numa oportunidade para criar valor, aprender e construir rede.

Lembra-se de algum erro que se orgulhe de ter cometido porque lhe ensinou uma grande lição?

É uma pergunta difícil. Se tivesse de apontar um erro, diria que subestimei a importância da interdisciplinaridade. A Economia ganha muito quando dialoga com o Direito, a Sociologia, a Ciência Política, as Tecnologias/Informática e a Matemática. Hoje vejo melhor como temas como a regulação, concorrência, políticas públicas, plataformas digitais ou IA pedem equipas e olhares cruzados: modelos e dados ajudam, mas contexto, instituições e comportamento são decisivos.

Outro erro foi ter desvalorizado o inglês no início. Vim de Miranda e no 5.º ano escolhi francês; só tive inglês do 7.º ao 9.º ano — pouco. A lição foi clara: línguas abrem portas e devem ser trabalhadas cedo e de forma contínua. Se pudesse voltar atrás, teria investido mais no inglês e escolhido uma segunda língua (espanhol ou francês) com regularidade.

O que retiro disto? Que aprender a aprender é tão importante como qualquer cadeira: sair da zona de conforto, cultivar curiosidade, pedir ajuda sem pudor, aceitar o erro como feedback e manter hábitos simples de crescimento. Exemplos práticos: ler 15 minutos diários de imprensa internacional, participar em seminários fora da área, escrever um breve resumo semanal de um artigo científico e trabalhar, sempre que possível, em equipas multidisciplinares.

Qual é o papel da FEP na integração dos estudantes internacionais?

Devemos acolher, orientar e integrar os estudantes — no plano académico e no social — tanto quanto nos for possível. Isso implica programas que facilitem a mobilidade e atividades culturais e de convívio que aproximem estudantes de diferentes origens. Sempre que possível, complemente-se com tutoria de pares, sessões de boas-vindas, calendário único de iniciativas e pontos de contacto claros (serviços académicos, SDC, associações e núcleos), para que ninguém fique para trás.

De que forma a FEP prepara os seus estudantes para os desafios do mercado de trabalho?

A nossa proposta assenta numa formação teórica sólida, combinada com aplicação prática q.b. — porque o tempo em curso é finito. E isto não é apenas autoperceção: os parceiros da FEP dizem-nos recorrentemente que os nossos estudantes dominam os fundamentos e aprendem depressa on the job, mesmo quando a experiência prática inicial é limitada.

Para acelerar essa ponte teoria–prática, temos: protocolos e estágios com empresas e organizações, cada vez mais presentes dentro da FEP (casos reais, guest lectures, desafios aplicados); organismos estudantis e júnior-empresas, que desenvolvem soft skills essenciais – organização, comunicação, negociação e iniciativa –; incentivos ao empreendedorismo e à inovação (concursos de ideias, programas de aceleração, ligações a incubadoras).

E queremos potenciar ainda mais: competências transversais (comunicação clara, trabalho de equipa, liderança, gestão do tempo e do stress); literacia digital e analítica (Excel avançado, data analytics), sempre que faça sentido nas unidades curriculares; ética e integridade nas decisões, como marca identitária da Escola; aprendizagem baseada em projetos e avaliação “autêntica” (portefólios, relatórios para stakeholders, apresentações técnicas).

Resultado: fundamentos fortes + prática suficiente + atitude de aprendizagem rápida, apoiados por uma rede ativa de empresas e uma vida estudantil rica, que prepara para transições eficazes para o mercado e para estudos avançados.

A seu ver, quais serão as áreas do conhecimento mais importantes no futuro da Economia?

Vejo como áreas prioritárias para os próximos anos a Economia Digital e a Inteligência Artificial Aplicada: automação de processos, analytics e decisão baseada em dados; ética da IA e governação de dados; aplicações setoriais (finanças, saúde, indústria, administração pública). Também a Sustentabilidade com a Transição Energética e a Economia Verde: finanças climáticas, risco climático e disclosure ESG, economia circular, eficiência energética e novos modelos de negócio verdes. Bem como as Finanças Internacionais e a Regulação de Mercados Globais: integração financeira, riscos geopolíticos e cambiais, cadeias de valor, supervisão e compliance em mercados transnacionais. Ao mesmo tempo, as Políticas Públicas para enfrentar desigualdades sociais e demográficas (envelhecimento, habitação, saúde, educação, migrações; avaliação de políticas baseada em evidência (dados administrativos, impact evaluation)) serão decisivas. Juntaria, com particular ênfase, as Finanças Públicas, pela sua relação direta com a sustentabilidade orçamental e a qualidade do Estado: sustentabilidade da dívida, qualidade da despesa, enquadramento fiscal, transparência e prestação de contas.

Para além destas, existem áreas transversais que ganham importância, como a literacia de dados (Excel avançado, Python/R, SQL) e visualização para suporte à decisão, a ética, integridade e compliance em ambientes digitais e regulatórios complexos, o trabalho interdisciplinar (Direito, Sociologia, Ciência Política, Engenharia/ Tecnologias), a aprendizagem ao longo da vida (microcredenciais, MOOCs, formação executiva) e ligação consistente a empresas e setor público.

E a nível de mestrados, qual a oferta da FEP nestas áreas?

De forma geral, todos os mestrados acabam por tocar estas áreas, embora com ênfases diferentes. Num Mestrado em Economia, aprofunda-se mais a análise quantitativa, a avaliação de políticas públicas e podem aprofundar-se temas como Economia Digital/IA aplicada (via optativas). Num Mestrado em Finanças, ganha peso a integração financeira internacional, a gestão de risco, as finanças públicas e climáticas (ESG) e a regulação. Num Mestrado em Gestão, sobressaem estratégia e transformação digital, analytics para decisão, sustentabilidade/transição energética e operações.

Quando um plano de estudos não cobre tudo à partida, há quase sempre Unidades Curriculares de opção que permitem personalizar o percurso para incluir esses temas.

As áreas que considero mais relevantes para o futuro são: Economia Digital e IA aplicada; Sustentabilidade, Transição Energética e Economia Verde; Finanças Internacionais; Finanças Públicas; Regulação de Mercados (globais e nacionais); Políticas Públicas para desigualdades sociais e demográficas.

Sendo estudante da FEP, eu tenderia a escolher um mestrado de continuidade na própria FEP, pela coerência curricular, proximidade ao corpo docente, rede de alumni e ligação a empresas. Ainda assim, vale a pena ponderar: objetivos pessoais e saídas profissionais (academia vs. mercado; setor privado vs. público); internacionalização (mobilidade, duplos diplomas quando disponíveis); percursos práticos (estágio, projeto aplicado, dissertação); e reforços transversais – dados/analytics (Excel avançado, Python/R, SQL), competências de comunicação e liderança, e certificações úteis (p. ex., CFA L1, ESG) conforme a área.

Como sugestão prática aconselho escolher um núcleo forte (Economia, Finanças ou Gestão) e acrescentar um “minor” pessoal via optativas e projetos (ex.: Gestão + Data Analytics; Economia + Políticas Públicas; Finanças + ESG/Regulação).

Para os que estão prestes ou acabam de deixar esta casa, quais são as suas recomendações? Que dicas pode dar àqueles que estão a dar os primeiros passos no mercado de trabalho? 

Encarem a aprendizagem como um processo contínuo. Saem da FEP com uma base teórica sólida, mas o percurso não termina aqui — e ainda bem. O mundo muda depressa; é essencial serem flexíveis, curiosos e abertos à mudança, sem receio de arriscar em projetos novos ou de criar o vosso próprio caminho. Façam-no sempre com ética e responsabilidade. Alguns passos concretos: Aprender sempre – um curso curto por semestre (MOOC, workshop), leitura regular e atualização de competências –; Construir perfil “T-shaped” – profundidade numa área + noções de dados/tecnologia e de comunicação; Pedir feedback e ter mentores – ouvir, ajustar e melhorar continuamente –; Experimentar e empreender – projetos extracurriculares, estágios, startups ou voluntariado qualificado –; Cuidar da reputação e da rede – LinkedIn cuidado, portefólio simples e relações de confiança –; Línguas e cultura internacional – consolidar inglês e investir numa segunda língua –; Bem-estar como base do desempenho.

Este ano houve uma grande redução do número de candidatos ao ensino superior. Qual é a sua opinião em relação aos motivos desta redução e como afetará a FEP?

Em primeiro lugar, pela demografia: a baixa taxa de natalidade dos últimos anos reduziu o número de alunos no ensino secundário e, por arrasto, o universo potencial de candidatos ao ensino superior. É possível que a imigração venha a atenuar parcialmente este efeito, mas a tendência estrutural mantém-se.

Em segundo lugar, pelos custos de frequentar o ensino superior nas cidades, sobretudo habitação, mas também transportes e alimentação. Gostaria de acreditar que este fator não é determinante, mas é plausível que esteja a desincentivar candidaturas de algumas famílias.

Há ainda fatores secundários que poderão explicar uma fatia residual da diminuição da procura: alguma emigração jovem precoce, alterações nos critérios de acesso ao ensino superior e a perceção, entre os jovens, de que o prémio salarial de um curso superior é reduzido face a quem não possui grau.

Implicações para a FEP. Para já, não vejo a FEP particularmente prejudicada por esta descida global de candidaturas. Este ano fomos mais conservadores nas provas de ingresso, privilegiando as combinações tradicionais (Matemática/Português/Economia consoante a via). Outras escolas introduziram combinações alternativas (p. ex., Inglês, História), o que as poderá ter favorecido. Já ajustámos para o próximo ano para garantir comparabilidade e equidade de acesso; neste, mantivemos a opção conservadora.

Em termos gerais, se a redução nacional fosse suficiente para deixar vagas por preencher na FEP, então o sistema como um todo estaria em situação semelhante. Não é esse o cenário expectável.

O que podemos fazer (além da correção nas provas de ingresso) é reforçar bolsas e alojamento (parcerias com residências e autarquias) para mitigar o custo de vida nas cidades, aproximar a FEP de novos públicos: open days regionais e orientação vocacional antecipada, apostar ainda mais em mobilidade e integração – mentoria de pares e acolhimento reforçado para estudantes deslocados e internacionais – e inovar com formatos flexíveis – unidades com componentes híbridas quando fizer sentido e nos for possível, sem comprometer a exigência.

Em síntese: a quebra de candidaturas explica-se sobretudo por demografia e custos de habitação. A FEP não deverá ser especialmente penalizada; ajustou as provas de ingresso para manter a comparabilidade com escolas similares no próximo ano e pode atuar nos fatores de custo e de proximidade para continuar a atrair bons estudantes.

Que medidas é que o governo pode aplicar para combater esta situação? 

No caso dos estudantes, é preciso rever o sistema de apoios e bolsas. Mais do que discutir um limiar específico de rendimento, importa atualizar critérios e valores para que reflitam o custo real de estudar nas cidades universitárias — alojamento, alimentação, transportes e materiais. Em muitos casos, os encargos tornaram-se insuportáveis para as famílias, pelo que o apoio público deve ser mais generoso e melhor calibrado. Faria sentido ajustar: critérios de elegibilidade – reavaliar os limiares, considerar o custo de vida local e não apenas o rendimento agregado, ter em conta situações de despesa com habitação e de deslocação –; valores das bolsas – atualizar regularmente (inflação) e reforçar o complemento de alojamento nas zonas de maior pressão imobiliária; calendário e previsibilidade – decisão e comunicação mais cedo (idealmente ainda no 12.º ano) para as famílias poderem planear, pagamento mensal atempado –; simplicidade administrativa – candidaturas mais simples e automáticas sempre que possível, com cruzamento de dados (Finanças/Segurança Social) para reduzir burocracia –; apoios diferenciados – bolsa de deslocação para quem vive longe do campus, fundo de emergência para situações imprevistas (saúde, renda, material), isenções/reduções de propinas para os escalões mais baixos, vouchers para material didático/tecnológico quando necessário –; habitação estudantil – mais residências públicas e protocolos com autarquias e entidades sociais para aumentar a oferta a preços comportáveis –; bem-estar e integração – garantir apoio psicológico gratuito, mentoria de pares e medidas de integração que reduzam o abandono por razões económicas ou emocionais.

Em síntese: o governo deve começar mais cedo e ser mais generoso nos apoios, ajustando critérios e montantes ao custo real de estudar hoje. Assim, protege-se a equidade no acesso e evita-se que o talento fique pelo caminho por falta de meios.

Numa vertente mais cultural, que filme e que livro recomendaria aos estudantes da FEP?

Filme seria The Big Short – A Queda de Wall Street (2015). Escolheria este filme pela forma brilhante como explica a crise financeira de 2008: descomplica conceitos como subprime, CDO e CDS, expõe incentivos perversos e mostra porque é vital manter pensamento crítico quando “toda a gente” parece concordar. É didático, provocador e excelente para discutir ética, regulação e literacia financeira.

Quanto ao livro, uma opção mais clássica seria O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Um texto intemporal sobre poder, estratégia e liderança, útil para compreender tanto a política como a economia. Ajuda a ler decisões em contexto real, com todas as suas restrições e incentivos — uma boa lente para analisar governos, empresas e instituições.Uma opção mais ligada aos meus interesses em Economia seria Porque Falham as Nações, de Daron Acemoglu e James A. Robinson. Uma obra de referência sobre as instituições: porque algumas sociedades prosperam e outras ficam para trás. A distinção entre instituições inclusivas e extrativas é uma ferramenta poderosa para pensar desenvolvimento, desigualdades e políticas públicas. É uma leitura que cruza bem Economia, Ciência Política e História.