Conduzida por Formato Escrito
Também incluída no FEPIANO 58, publicado em Junho de 2025
Carlos Guimarães Pinto é economista, professor universitário e político português. Licenciado e doutorado em Economia pela FEP, desenvolveu uma carreira internacional como consultor em estratégia económica antes de regressar ao meio académico e político.
Foi presidente da Iniciativa Liberal entre 2018 e 2019, liderando o partido na sua entrada histórica no Parlamento. Em 2022, 2024 e 2025 foi eleito deputado pelo círculo do Porto. É também um dos fundadores do Instituto +Liberdade, conhecido pela sua defesa clara e convicta de políticas liberais.
É também autor, colunista e comentador em vários órgãos de comunicação, como o ECO e CNN e escreveu livros como A Força das Ideias e Milhões a Voar e mais recentemente, “Liberalismo: a ideia que mudou o mundo”.
Quem é o Carlos fora dos holofotes da política? Quais os seus interesses e passatempos?
Eu gosto muito de ler, escrever e viajar. Se pudesse, dedicava a minha vida a isso. Também gosto de fazer exercício físico, é uma forma de manter a saúde física e mental. No verão, aproveito para fazer Stand Up Paddle, um desporto fantástico para relaxar e trabalhar o equilíbrio.
A economia sempre foi uma escolha definitiva, ou existiram dúvidas sobre a área de estudo?
Desde o 10º ano que estava decidido pela economia. Gostava de matemática, política (ainda que não de partidos políticos) e de ciências sociais. Foi a mistura certa.
Como recorda os tempos de estudante na Faculdade de Economia do Porto?
Eu passei 10 anos como estudante da FEP, em diferentes fases. Na primeira metade da licenciatura (que na altura eram de 5 anos) estava muito focado em desfrutar todos os aspetos da vida académica. Ia às aulas, estudava muito para ter boas notas e ia às festas todas. Aconteceu-me regressar de festas diretamente para a primeira aula da manhã sem passar pela cama. Tinha energia e vontade de desfrutar tudo. Era bom aluno e aproveitava também ao limite a componente lúdica.
Na segunda metade, comecei a viajar e entediei-me com a vida académica. Fui para Erasmus no 2º semestre do 3º ano, mais cedo do que era normal na altura, que era ir no primeiro semestre do 4º ou 5º ano. Quando regressei, estavam os meus amigos a ir de Erasmus. Quebraram-se ali algumas rotinas de diversão, as aulas ficaram mais entediantes, então decidi voltar a viajar e passei o quarto ano assim: 2 meses de voluntariado na Roménia e 6 meses na Índia. Quando regressei no quinto ano, recebi uma boa proposta de trabalho logo no princípio pelo que não prestei muita atenção ao resto do ano. Depois, voltei após 10 anos para fazer o doutoramento já noutra fase diferente da minha vida. Já era um dos alunos mais velhos da faculdade, com muita experiência profissional, a estudar por gosto e sem as incertezas em relação ao futuro que tem um estudante de licenciatura. Depois meteu-se a pandemia e as obras na faculdade, que acabou por fazer com que os anos de doutoramento fossem mais distantes fisicamente da faculdade.
Que competências aprendeu apenas com a experiência e que considera fundamentais para os estudantes, mas que normalmente não são valorizadas ou ensinadas na faculdade?
Comunicação. Saber comunicar é essencial. De pouco vale ser a pessoa mais inteligente, mais perspicaz, com mais conhecimento, se depois somos incapazes de transmitir aos outros tudo isso. Eu era gago, tímido e não escrevia particularmente bem. Tive de desenvolver todas essas competências que foram essenciais em todas as áreas em que trabalhei, da consultoria à política. Há pessoas que são boas comunicadoras em geral, outras, como eu, têm de trabalhar para conseguirem. Trabalhem nisso, o mais que possam.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar nos Emirados Árabes Unidos? Como foi a adaptação ao Médio Oriente e que ideias pré-concebidas considera estar erradas por parte da sociedade portuguesa quando se fala neste tipo de países?
Foi uma história engraçada. Eu trabalhava em consultoria estratégica na altura, o que me exigia longas horas. Um dia, em 2007, já depois das 10 da noite, estava no escritório à espera de receber feedback sobre algo que tinha de ir para o cliente no dia seguinte, quando um dos meus colegas me fala numa nova rede social chamada Linkedin. Na altura só tinha Hi5. Eu tinha ali tempo para matar, então abri conta com os dados mínimos. Passado pouco tempo recebi um email de um headhunter a perguntar-me se estaria interessado num emprego no Dubai. Aceitei entrar no processo sem grande convicção de que a proposta seria real. Fiz todo o processo de entrevista por telefone e depois convidaram-me para ir lá à última entrevista. Pensei que, em último caso, ganharia uma viagem ao Dubai, e fui. Acabei contratado e a passar lá mais de 7 anos.
Na altura, o Dubai ainda era pouco conhecido por cá. Toda a gente me perguntava se as mulheres usavam burka nas ruas. O Dubai era bastante ocidentalizado. Não era muito diferente de viver cá, para além de estar mais longe, ser mais calor e ganhar muito mais. Foi um passo importante na minha independência financeira.
Com todos os acontecimentos que estão a ocorrer atualmente no mundo, acha que isso incentiva a população — sobretudo os jovens — a interessar- -se mais pela política? Sente também que esses eventos contribuem para uma maior polarização do debate público? E como lida com essa polarização enquanto comentador?
Eu passei a primeira parte da minha vida política, nos blogs e jornais, a tentar tirar as pessoas da apatia em relação ao estado do país, para que percebessem que o país poderia ser mais do que é, que se indignassem. Hoje continuo com essa missão em relação a certos assuntos, mas já não posso dizer que as pessoas estejam apáticas e não se indignem. Pelo contrário, todos os dias encontram motivos reais ou inventados para se indignarem, às vezes com problemas que não existem ou são empolados para gerar cliques, ganhar likes ou alimentar agendas políticas. Nunca pensei estar no papel de dizer “calma, as coisas não são assim tão más”, mas acho que devido a isso muitas pessoas vivem demasiado ansiosas e polarizadas.
Fundou e liderou o Instituto +Liberdade. Como nasceu este projeto?
Eu já tinha esta ideia há muitos anos. Achava mesmo que Portugal precisava de um think-tank liberal. A certa altura essa ideia surgiu numa conversa com o Carlos Moreira da Silva e o Gonçalo Lucas Mendes ainda durante a pandemia. Falamos com mais algumas pessoas e decidimos avançar. Foi uma decisão difícil porque até já tinha um acordo de trabalho para voltar a sair do país, mas não consegui resistir à tentação de cumprir esse sonho.
Hayek, Friedman ou Mises? Qual mais o influenciou e contribuiu para o seu sucesso como um dos liberais portugueses mais influentes do século XXI?
Diria Friedman, por ter juntado a clareza nas ideias à capacidade de as comunicar para um público mais vasto. Isso teve uma importância vital no ressurgimento do liberalismo na segunda metade do século XXI.
Existe alguma ideia ou pensamento político que quando era mais jovem tinha bastante convicção e que hoje discorda profundamente?
Ali pelos meus 15-16 anos tinha uma certa aversão à propriedade privada. Não tinha uma estrutura de pensamento muito organizada, mas era uma espécie de libertário de esquerda, gostava de desafiar todo o tipo de autoridade. Hoje percebo bem a importância fundamental da propriedade privada e de uma autoridade, limitada claro. Houve outros assuntos em que mudei de opinião. No aborto, por exemplo, em que fiz campanha pela despenalização, depois tive dúvidas e depois voltei a ser a favor da descriminalização. Nos meus primeiros tempos de blogs e Twitter dizia algumas coisas só para provocar, era um iconoclasta e contrariado, com gosto por provocar. Disse coisas nessa altura que não diria hoje certamente, mas muitas nem sequer acreditava, era mesmo só para provocar.
Nos últimos anos, tornou-se numa figura relevante nas redes sociais. Acha que estas plataformas estão a elevar ou a empobrecer o debate público?
Têm as duas componentes. Por um lado, expõe-nos a mais opiniões, permite-nos recolher informação fora do círculo de especialistas e comentadores das televisões. Isso é excelente. Mas também pode ter o efeito oposto. Como são milhões de pessoas com opiniões muito distintas e a nossa capacidade de processar informação é limitada, muitas pessoas escolhem ler apenas aquelas 100 ou 200 que pensam de forma exatamente igual, transmitem a mesma desinformação como se fosse verdade, desligando-se do resto do mundo. Como só leem aquela informação a toda a hora, estão perfeitamente convencidas de que aquela é a verdade absoluta. Por isso, nem sequer percebem como é que os outros, que estão metidos noutras bolhas semelhantes com informação diferente, não pensam como eles. Isso ajuda à polarização.
De que forma o escrutínio aos decisores políticos impacta o seu bem-estar e daqueles que lhe são mais próximos? Quão seguro e confortável considera ser o mundo da política?
Eu considero o escrutínio importante, mas é evidente que isso afeta as pessoas, principalmente quando vai para lá do escrutínio politicamente relevante. As pessoas muitas vezes esquecem que as pessoas com exposição pública não deixam de ser seres humanos com direito à sua vida privada. Ou então quando o próprio exercício de escrutínio é manipulado com o fim de lançar suspeitas. É demasiado fácil nesta altura destruir a reputação de uma pessoa. Basta lançar uma suspeita falsa, de forma anónima, pedir à justiça para investigar e ver essa investigação ser noticiada. A partir da altura em que tens um título de jornal com “X investigado por Y” nunca mais te livras da reputação de ter cometido Y, mesmo que a investigação prove que a denúncia era completamente falsa. Ficarás sempre marcado por isso.
Apesar do crescimento eleitoral de partidos liberais em Portugal, têm-se verificado desafios relacionados com a consolidação da sua base de apoio e a retenção de militância, algo que é histórico no liberalismo internacional. Em que medida esses fatores podem condicionar o desenvolvimento sustentável de projetos liberais no país? Será necessária uma redefinição da identidade liberal para garantir maior relevância no panorama político nacional?
O ciclo internacional de facto não está a nosso favor. Com uma ou outra exceção, há uma vaga de iliberalismo no mundo ocidental. As pessoas deixaram de valorizar tudo aquilo que o liberalismo político, a economia de mercado, a liberdade individual trouxeram de bom ao mundo. Dão tudo isso por garantido e olham apenas para os problemas, que existirão sempre porque o mundo nunca será perfeito. Temos de continuar a defender os mesmos princípios. É nas alturas mais complicadas que se vê quem está realmente convicto em relação às suas ideias.
De que forma o crescimento do movimento libertário noutros países, em particular pelo sucesso de Milei, poderá influenciar o debate político e ideológico em Portugal?
As pessoas olharão sempre para as consequências de determinadas políticas para perceberem se podem ser vistas como um exemplo a seguir. Economicamente, o que o Milei está a fazer na Argentina é aquilo que normalmente o FMI recomenda que façam países na situação da Argentina. A grande diferença é que a maioria dos países o faz por obrigação e Milei está a fazê-lo por convicção. As políticas que forem seguidas e os resultados que tiver irão alimentar a discussão pública por muitos anos e influenciar a política noutros países, principalmente nos países vizinhos que têm circunstâncias e climas políticos mais semelhantes.
No seu livro mais recente, “Liberalismo: a ideia que mudou o mundo”, que mensagem gostaria que ficasse com quem o lê?
O liberalismo funcionou e deve continuar a funcionar. O liberalismo não é uma utopia, não resolve todos os problemas do mundo porque isso é impossível, mas é o melhor sistema político, económico e de valores na história da humanidade. O liberalismo mudou o mundo como o conhecemos e era importante que continuasse a crescer e expandir-se, a bem de todos.
Qual o maior sonho que ainda gostava de cumprir?
Gostava de visitar todos os países do mundo. Ainda só tenho 81 na minha lista.





